Katie van Scherpenberg resgata, em intervenção no Parque Lage, experiências vivenciadas na Amazônia

"Não é uma exposição alegre, mas de aviso.” A frase usada para descrever a intervenção que Katie van Scherpenberg acaba de inaugurar nas Cavalariças, no Parque Lage, guarda uma objetividade seca que o tema explorado merece: as florestas estão queimando em velocidade mordaz. Daí o nome “Yakecan”, que significa “o som do céu” em tupi-guarani, e soa, segundo a artista de 81 anos, como um alerta de que “algo terrível pode nos acontecer”.

Ela explora a temática com a propriedade de quem viveu intimamente a realidade amazônica. Paulistana descendente de alemães refugiados de guerra, Katie morou com o pai Pieter por um longo período na Ilha de Santana, no Rio Amazonas, no Amapá, até se estabelecer em solo carioca, em 1973. Duas décadas após a morte dele, a artista voltou à casa onde viveram e, ao chegar lá, encontrou o imóvel engolido pela selva. Munida de uma câmera analógica, fotografou, no escuro, o interior dos cômodos. “Entrei no quarto do meu pai, e tirei uma foto ao léu, porque não enxergava nada. Os pelos do morcego, porém, refletiram o flash. Ficou uma imagem extremamente esquisita. A gente não sabe o que está acontecendo.”

Ampliada e plotada na parede que recebe os visitantes da mostra, a foto funciona, segundo André Sheik, que assina a curadoria com Adriana Nakamuta e Xico Chaves, como um “susto”. “É uma figura quase fantasmagórica”, diz. Ao seu lado, uma instalação iluminada por uma luz difusa completa a narrativa ao exibir um grande leito de carvão sobre o qual repousa uma camada densa de sal grosso. No trabalho, Katie novamente evoca o passado para falar da urgência do tema. No caso, a intervenção “Síntese”, feita no Rio Negro, no Amazonas, em 2004, quando ela depositou cinco quadrados de sal às margens das águas. Naquele dia, foi surpreendida por pedaços de carvão que surgiram sobre a base branca, trazidos pela correnteza. “Interpretei como um aviso da floresta. Era como se dissesse: ‘Olha! Estou queimando’”, conta. “É algo que está acontecendo há muito tempo, mas, agora, as pessoas estão despertando para a importância.”

A sensibilidade na escolha dos temas é uma marca no trabalho de Katie. Na década de 1970, por exemplo, ela produziu obras figurativas que traziam críticas ao regime militar. “Eu me lembro de estar com colegas no Parque Lage, e termos que queimar papéis porque representantes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) estavam entrando”, conta. “O que estava fazendo tinha um valor muito relativo do ponto de vista político. Agora tem mais, por causa do retorno daquela época que estamos vivendo.”

Nos anos 1990, ela também deu início à série “Mamãe prometo ser feliz”, em que usava toalhas de enxoval como suporte. “Manchado”, de 2006, é uma dessas obras e consiste num jogo americano sobre o qual vê-se duas marcas de uma tinta avermelhada. “Se você é suja, como mulher, você não presta. E isso pode ser no paninho ou onde mais quiser”, descreve.

O trabalho chegou a ser doado pela artista ao Parque Lage, onde também é professora, para que fosse leiloado. “Mas me devolveram. Agora, foi vendido para um doador do Tate, em Londres. Ainda bem que não compraram”, diverte-se, amparada pela doce ironia do destino de uma artista cuja agenda tem escala global. Nos próximos meses, ela exibe seus trabalhos em Nova York, na Armory Show, e em Londres, na feira de arte Frieze. Uma cidadã do mundo? “Graças a Deus!”

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