Keanu Reeves: 'John Wick e eu somos feitos do mesmo barro'

O som da risada de Keanu Reeves tem assinatura: um ririri que chega em três sílabas exatas. Bem agudo, quase desafinado, destoa da imagem ultra cool do Neo de “Matrix” ou do personagem que dá título à outra franquia de ação em que o ator de 58 anos apostou parte de suas muitas fichas (“e John Wick mudou minha vida, de novo”).

Pouco mais de US$ 306 milhões de bilheteria depois, “John Wick 4: Baba Yaga” chega aos cinemas em março. O filme é, nas palavras do galã tímido, que conversa quase sempre com a cabeça baixa mas olha nos olhos do entrevistador quando lhe concede a distinção, “o maior da série”. Mas sem perder “aquela sensação de que algo ali está fora do lugar”. “Ele não é certinho”, diz, antes de mais um ririri, em conversa exclusiva com O GLOBO.

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Reeves está em São Paulo desta vez para a CCXP, a festa pop e geek, na qual foi recebido aos gritos, em uma Keanumania que também se revelou nos muitos meninos, meninas e, vá lá, senhores com cabelos e barbas grisalhas, travestidos de alguns de seus personagens mais icônicos nos lotados corredores do evento. O canadense nascido no Líbano participou, com simpatia a toda prova, de três painéis. Dois, no sábado, focados em John Wick, que seguirá com um quinto tomo e pelo menos um spin off, “Ballerina”, com Ana de Armas vivendo “uma espécie de Wick feminina” e estréia prevista para o ano que vem. E o derradeiro, no domingo, ao lado de Rafael Grampá, sobre “BRZRKR”, série em quadrinhos bolada pelo astro de Hollywood com design da capa assinada pelo brasileiro, e que deve virar filme e série pra o streaming.

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Um dos momentos definidores da CCXP 22 é o ator, de joelhos, no palco, agradecendo ao público que não parava de repetir “Keanu! Keanu! Keanu!”. Uma consagração que, ele confessou depois a poucos, o emocionou profundamente. Imagem que casa com a cunhada por ele no bate-papo abaixo. Um “mendigo que também pode ser chef”, mas certinho jamais.

Em 2014, no set do primeiro “John Wick”, a curiosidade dos jornalistas era justa: que personagem, afinal, era aquele? E quem era o diretor (Chad Stahelski, amigo e dublê de Keanu em “Matrix”) que você trazia pelos braços? (risos). Quando você percebeu que o universo de Wick seduziria tanta gente?

No exato momento em que li o primeiro tratamento de roteiro do Jerry Kolstad. Ele criou, ali, um mundo muito cool. Um protagonista de ação mais velho (aponta pra si mesmo), que perde sua mulher, que até o cão que ela deixara para fazer companhia a ele foi morto. Aí quando você começa a se identificar com ele vem a informação de que é um assassino às voltas com moedas de ouro que o levarão a um certo hotel, ele as busca em um baú no seu porão, outros assassinos estão chegando e não parei um segundo enquanto te falava isso. Percebe a velocidade? E o Chad tinha uma visão muito específica do que ele queria fazer, e brigou por ela. Com o sucesso do filme, pudemos continuar até chegar, agora, a “John Wick 4: Baba Yaga”, o mais ambicioso da franquia. Que, aliás, mudou minha vida. De novo.

Lá se vão sete anos com Wick...

Oito, se contarmos desde a leitura do roteiro.

Certo. E você aprendeu algo com ele?

A perseverança, ele não desiste nunca. E o desejo que ele tem de não fazer concessões. Não é exatamente algo que eu aprendi com Wick, mas sinto que somos feitos do mesmo barro.

O que os fãs podem esperar de “Baba Yaga”?

Além dos suspeitos de sempre (Laurence Fishburne, Halle Berry, Anjelica Houston, Ian McShane, entre outros) há mais personagens misteriosos. Tem o Tracker (“Rastreador”, em livre tradução, papel de Shmaier Anderson), o Marquis (vivido por Bill Skasrgard). Tem também um novo vilão, que o Scott Adkins (“Killa”) faz. O (ator japonês) Hiroyuki Sanada está sensacional como Shimazu. E prestem atenção no “Harbinger” (“prenúncio”). Filmamos em Osaka, Tóquio, Nova York, Paris, Berlim, a sequência de abertura é na Jordânia. A escala é outra, cara. É pra ser visto no cinema. O universo de Wick se expandiu muito, mas sem perder a intensidade dele.

A Keanumania foi palpável na CCXP. Todos querem te ver. Alguns dizem que você virou um brasileiro honorário...

Ah, para! (risos) Jura? Os fãs brasileiros são tão carinhosos, cara...

Sim, e ajuda você vir a São Paulo com alguma frequência. Este ano esteve aqui para filmar “Conquest” (série da Netflix, que produz e estrela com Bruna Marquezine) e po conta de seu projeto documental sobre a Fórmula 1, certo? O que tem achado da cidade?

Há algo muito especial sobre este lugar. As pessoas com quem me encontrei são generosas, prestam atenção de fato no que você diz. E, poxa, eu tive a chance de conhecer Rubens Barrichello e Felipe Massa, né? Na tevê, via Fórmula-1 e era fã do Ayrton Senna, não perdia suas corridas, tenho memórias bem claras daqueles momentos. Eles são tão cool! E na CCXP a chuva de amor é impressionante. Mas também penso em gente que encontrei aqui nas ruas, quando fui jantar, por exemplo, há um mix de seriedade e paixão, não sei como expressar com exatidão em palavras. Agora, estou falando especificamente de São Paulo. Ainda preciso ir ao Rio, às praias todas, mergulhar mais no universo do jiu-jitsu e do MMA, que me interessam tanto. Ter tempo pra ver mais coisas do Brasil.

Pensando mesmo em tempo, espero que não seja uma questão muito abstrata, mas levando em conta sua longa carreira, você diria que seu trabalho é o que define com mais exatidão quem, de fato, Keanu Reeves é?

Adoro perguntas abstratas, pode mandar ver! (risos). Mas essa, huum... não sei. Se eu trabalhasse com cimento, com tijolos, se fosse um pedreiro, eu teria mãos diferentes destas (estende as mãos na direção do repórter). O que são estas mãos que tenho, de ator? Elas me definem? Elas contam a história de quem eu sou? Adoro uma abstração, como você pode ver (risos, mostrando novamente as mãos).

Vou seguir então: você já fantasiou sobre o que faria, ou quem seria, se atuar não tivesse dado certo?

Sim, por muito tempo pensei nisso. Que vidas diferentes eu poderia ter tido? Especialmente nos momentos em que eu hoje paro e me deixo confrontar pelo passado, pelo que estamos vivendo aqui e agora, e pelo que enxergo do meu futuro. Quando me permito esta contemplação, há momentos sim do meu passado que talvez pudessem ter me levado a versões alternativas desta pessoa que está aqui à sua frente. Poderia ter sido diferente. Mas sempre quis ser ator, desde a adolescência. Isso eu sabia. Hoje, olhando pra trás, sei que tive muita sorte. Cara, podia ter sido outra coisa, muitas outras coisas (rindo muito)...

Você teve dúvidas de que não faria sucesso?

Sempre. No meu caso atuar foi, e ainda é, sempre, batalhar por minha carreira. Nunca parou. Nós, atores, somos mendigos.

Como assim?

Digo isso da maneira mais respeitosa possível. Mas é isso. Estamos aqui pedindo por sua atenção, pela ajuda dos outros, pelo olhar dos outros, pela compaixão deles. Eu não poderia fazer meu ofício sem os diretores, os roteiristas, os técnicos. Você pode me dizer, mas Keanu, vai lá e faz um solo no palco. Tudo bem, mas aí não será “John Wick 4: Baba Yaga” tal qual filmamos, o tamanho disso. E, claro, com o risco de não dar certo, e lá vou eu de novo mendigar: qual será meu próximo trabalho? Onde? Com quem?

Você fala do risco e retorno ao set do primeiro “John Wick”, que parecia, àquela altura, uma aposta ousada sua, com cara, para as dimensões de Hollywood e de sua própria carreira, mais independente...

Foi e, mesmo com a tela tendo se ampliado tanto pra nós, ainda é. “John Wick” segue com um espírito independente, cara! Somos, e os fãs sabem disso, fora do lugar, zero certinhos (rindo muito). É parte do sabor de “John Wick”.

Já que você usou a palavra, tem um projeto dos sonhos pelo qual você mendigaria como ninguém no futuro, algo que você ainda não fez no cinema?

— Olha, nesta vida sou mendigo, mas também chef (risos). Nós atores também contamos histórias como poucos. E espero, tenho sido também um criador de sonhos, um professor de alguma maneira. E sim, tem algo que ainda não fiz e que sonho em fazer: um faroeste. Tenho certeza de que seria divertido pacas. Ah, e um musical! Queria dançar e cantar. Por que não?