Keiko Fujimori é detida acusada de receber contribuições ilegais da Odebrecht no Peru

Por Luis Jaime CISNEROS
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A líder política peruana Keiko Fujimori fala com a imprensa em Lima, em 3 de outubro de 2018

A poderosa líder opositora peruana Keiko Fujimori foi detida nesta quarta-feira (10) acusada de receber dinheiro da empreiteira Odebrecht, uma semana depois de a Justiça anular o indulto de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori.

A filha mais velha de Fujimori (1990-2000) foi detida por um período máximo de 10 dias após depor à Procuradoria, assinalou a sua advogada Giuliana Loza, que chamou a decisão judicial de "atropelo e abuso".

"Hoje me detiveram sem fundamentos jurídicos no momento em que eu voluntariamente me apresentava à Procuradoria", tuitou Keiko Fujimori em sua primeira reação desde a detenção, onde qualificou o ocorrido de "perseguição política".

"A perseguição se disfarçou de justiça no nosso país", acrescentou.

"Isso se chama perseguição política", afirmou, recordando que a Justiça a investiga há 18 anos, quando seu pai deixou a presidência.

A Justiça acusa Keiko, de 43 anos, de ter recebido da empreiteira 1,2 milhão de dólares para financiar a sua campanha para a presidência em 2011, vencida por seu adversário Ollanta Humala (também assinalado por ter recebido contribuições da Odebrecht).

A "medida é ditada por elementos fundados de convicção que relacionam os anteriormente citados com o delito de lavagem de dinheiro, perigo de fuga e obstaculização da investigação pelas supostas contribuições da empresa Odebrecht à campanha do Força Popular em 2011", tuitou o Poder Judiciário em sua conta.

Minutos depois, seu irmão mais novo, Kenji, adversário dentro do fujimorismo, se solidarizou com a sua irmã pelo Twitter.

"Outro momento triste e duro em uma semana. Duro para a família. Acabei de saber da notícia, estive ao lado da minha mãe e depois com o meu pai. Lamento profundamente a situação vivida pela minha irmã e sua família", tuitou Kenji.

A advogada havia assinalado que Keiko se colocou à disposição da Procuradoria, assinalando que a medida ordenada pelo juiz Richard Concepción Carhuancho pegou-os de surpresa. A líder opositora ficou detida na Prefeitura de Lima.

Além da líder do partido Força Popular (direita populista, principal força opositora que controla o Congresso peruano), outras 19 pessoas, entre elas Jaime Yoshiyama e Augusto Bedoya - ambos muito próximos aos Fujimori -, são investigadas por supostamente receberem fundos da empreiteira Odebrecht para a campanha presidencial de Keiko em 2011.

"A minha esposa, Keiko, é forte e vai sair disso mais forte do que nunca", disse o seu marido, Mark Vito Villanella, que a acompanhou no depoimento.

A porta-voz do Força Popular e congressista Alejandra Aramayo lamentou em conversa com a rádio RPP "que a Justiça continue politizada, ainda mais quando (Keiko) estava participando de uma diligência pelo caso dos coquetéis destinados a coletar dinheiro para a sua campanha à presidência".

O procurador responsável por casos de lavagem de dinheiro, José Domingo Pérez, atribuiu a Keiko o comando de uma "organização criminosa" dentro do seu partido para receber contribuições ilícitas.

Um dos efeitos da detenção será que "aumentará ainda mais o confronto entre o poder executivo e o Congresso", advertiu a analista María Luisa Puig, da consultoria de risco político Eurasia.

Apesar disso, relativizou, ao afirmar ser "pouco provável que um confronto maior afete o presidente Martín Vizcarra e suas reformas, que já foram aprovadas no Congresso, ainda que com algumas mudanças, e provavelmente se ratificarão em um referendo em dezembro".

- Contribuição de cúpula empresarial -

Segundo o ex-chefe da Odebrecht em Lima Jorge Barata, os dirigentes fujimoristas Yoshiyama e Bedoya foram os intermediários. Suas casas foram inspecionadas em março pela Procuradoria.

Barata também confessou aos procuradores peruanos em São Paulo que a Odebrecht havia feito contribuições às campanhas dos ex-presidentes Ollanta Humala (2011-2016), Alejandro Toledo (2001-2006) e Pedro Pablo Kuczynski.

Tanto os ex-presidentes como Keiko negaram ter recebido dinheiro da Odebrecht, cujos executivos confessaram ter corrompido políticos e funcionários em vários países da América Latina em troca de contratos de obras públicas.

Barata assegurou que, além dos um milhão de dólares dados a Yoshiyama e Bedoya, fez outra contribuição de 200 mil dólares para a Keiko por meio da organização de cúpula de empresários peruanos, a Confiep.

A investigação fiscal foi iniciada quando nas contas do partido de Keiko foram detectadas "contribuições-fantasma" para a sua campanha eleitoral de 2011. Segundo o partido, provinham de simpatizantes, mas os supostos contribuintes negaram desembolsos.

Keiko nega as acusações e alega em sua defesa que "o senhor Barata apontou (aos procuradores) que nunca lhe pedi dinheiro, que nunca me deu dinheiro e que nunca falou de nenhum apoio financeiro comigo".

- Indulto anulado -

Há uma semana, a Suprema Corte do Peru anulou o indulto presidencial outorgado por Pedro Pablo Kuczynski em dezembro a Alberto Fujimori e ordenou a sua prisão, mas ele deu entrada em uma clínica em Lima, onde permanece sob custódia policial.

Apesar de ter sido condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção, Fujimori continuou desfrutando de grande popularidade por ter acabado com o terrorismo do Sendero Luminoso e da hiperinflação.

Esse legado político é disputado por seus filhos Keiko e Kenji, que se enfrentam para chegar à Presidência.