Keiko, a herdeira da dinastia Fujimori, perto de ser a primeira presidente do Peru

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A candidata Keiko Fujimori em ato de campanha, em 26 de maio em Cuzco, Peru

Keiko Fujimori pode se tornar, no próximo domingo (6), a primeira presidente do Peru, uma meta que ela batalhou por 15 anos desde que assumiu a tarefa de reconstruir quase das cinzas o movimento político de direita fundado por seu pai em 1990.

A outrora belicosa líder da direita populista encara essa eleição, a terceira em uma década, com inédito tom moderado e conciliador, após passar 16 meses em prisão preventiva, até maio de 2020.

A primogênita do ex-presidente preso Alberto Fujimori (1990-2000), de 46 anos, casada e mãe de duas filhas adolescentes, tem uma pedra no sapato: a denúncia do Ministério Público por supostamente receber dinheiro ilegal da construtora brasileira Odebrecht para suas campanhas de 2011 e 2016, acusação que ela nega.

A prisão e a crise que atingiu seu monolítico Partido Fuerza Popular com o escândalo da Odebrecht a enfraqueceram. Mas ela conseguiu se recuperar para esta votação contra o esquerdista Pedro Castillo.

Na reta final da campanha e por instigação do patriarca do clã, reconciliou-se com seu irmão mais novo, Kenji Fujimori, de quem havia se distanciado por diferenças políticas há quatro anos.

O MP, que se prepara para levá-la a julgamento, anunciou no dia 11 de março que pedirá 30 anos de prisão pelos supostos crimes de lavagem de dinheiro e obstrução da justiça, entre outros.

Se conquistar a presidência, terá imunidade e só poderá ser julgada após o término de seu mandato de cinco anos.

Suas propostas para reativar a economia, duramente atingida pela pandemia, envolvem aumento dos gastos públicos e foram rotuladas de "populistas" por economistas independentes.

A candidata se formou nos Estados Unidos, onde obteve um MBA pela Columbia University após se formar na Boston University.

- Legado do pai -

"A busca de consenso será fundamental para todos os grupos que chegarem ao Parlamento e [...] é fundamental construir pontes, independentemente de quem chegue à presidência", disse Fujimori à AFP em entrevista antes do primeiro turno, no dia 11 de abril.

Essa tarefa será prioritária, já que não tem maioria no Congresso, com 24 cadeiras de seu partido Fuerza Popular em um total de 130.

A candidata lidera há 15 anos o fujimorismo, um amálgama populista de conservadorismo moral e economia neoliberal que seu pai deixou como herança após chegar ao poder em 1990 derrotando o então favorito, Mario Vargas Llosa.

Sua liderança é amplamente baseada na popularidade de seu pai, que foi condenado em 2009 a 25 anos de prisão por corrupção e crimes contra a humanidade sob seu governo (1990-2000).

Keiko disse que, se ganhar, vai perdoar o ex-presidente de 82 anos. Apesar de sua condenação, muitos peruanos admiram Alberto Fujimori por ter derrotado a guerrilha maoísta Sendero Luminoso e a guevarista MRTA, além de ter contido a hiperinflação herdada do ex-presidente Alan García.

"Minha intenção é salvar os peruanos da morte e da fome" causada pelo coronavírus, declarou Keiko à AFP, aludindo à atual crise econômica e de saúde.

Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel, a apoia nesta votação, alegando que ela "representa o mal menor".

- "Filha abençoada" -

Keiko Fujimori "não tem outra alternativa, é uma dinastia", disse à AFP o cientista político Carlos Meléndez sobre as razões pelas quais continua na política.

Essa família, de ascendência japonesa, marcou a política peruana nas últimas três décadas.

Keiko, que significa "filha abençoada" em japonês, passou metade de sua vida na política, onde entrou contra sua vontade, segundo confessou.

Em 1994, aos 19 anos, a separação de seus pais a levou a se tornar uma primeira-dama substituta.

Atolado em um escândalo, seu pai renunciou à presidência em 2000 por meio de um fax do Japão, onde se refugiou.

Ela permaneceu no Peru e lutou quando até seus tios eram fugitivos da justiça.

Em 2004 casou-se com o americano Mark Vito Villanella e reconciliou-se com a mãe, mas não conseguiu se dissociar da política. A pedido de seu pai, assumiu as rédeas para relançar o fujimorismo em 2006.

Concorreu ao Congresso naquele ano e obteve a maior votação: 602.000 votos.

Perdeu a presidência em 2011 para Ollanta Humala e em 2016 para Pedro Pablo Kuczynski, embora seu partido tenha alcançado a maioria absoluta no Congresso.

Sua bancada derrubou Kuczynski, forçando-o a renunciar em 2018, três meses depois de ter perdoado seu pai. A medida foi anulada pela justiça.

Nas eleições parlamentares extraordinárias de 2020, Fujimori perdeu o controle do Parlamento, mas agora está prestes a assumir o poder.

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