Líderes da "Revolução dos Guarda-Chuvas" não votam em Hong Kong

Hong Kong, 24 mar (EFE).- A dois dias da eleição do novo chefe do governo de Hong Kong, os líderes da "Revolução dos Guarda-Chuvas" lamentaram nesta sexta-feira não ter conseguido uma votação mediante sufrágio universal, embora tenham assegurado que os protestos não foram em vão e ainda acreditam no êxito de sua luta.

Passaram-se menos de três anos desde que o jovem Joshua Wong, então com 18 anos, surgiu como uma das principais vozes da "Revolução dos Guarda-Chuvas", os históricos protestos pró-democracia que ocuparam as ruas durante meses e, embora muitos considerem que o movimento naufragou, ele não para.

"A eleição de domingo não reflete o fracasso da revolução", afirmou contundente o jovem em entrevista à Agência Efe.

No entanto, no domingo, Hong Kong terá um novo chefe do governo regional, mas seus cidadãos não terão tido nada a ver, pois o mesmo será eleito por um comitê de 1,2 mil pessoas controlado por Pequim, o que evidência a frustração do movimento popular de 2014, que reivindicou uma eleição por sufrágio universal.

"A Revolução dos Guarda-Chuvas despertou uma nova geração, mais consciente de seus direitos (...) É difícil conseguir democracia em 2 ou 3 anos. É uma longa batalha contra a maior ditadura do mundo, portanto estamos preparados para uma luta por duas ou três décadas", argumentou hoje Wong, que na época dos protestos agrupou os estudantes do ensino médio contra Pequim.

Com ele concorda um dos líderes universitários mais conhecidos das manifestações, Nathan Law, que conseguiu entrar no parlamento de Hong Kong como deputado após formar um novo partido político junto a Wong e outros companheiros.

"Desde a Revolução dos Guarda-Chuvas, os jovens têm um grande sentido da realidade política de Hong Kong (...) Sabem perfeitamente que no domingo não haverá eleições", diz Law.

Os mais veteranos, como o professor de Direito Benny Tai, um dos fundadores do Occupy, outro grupo que guiou os manifestantes, também acreditam na semente que deixou a revolução e asseguram que a sociedade de Hong Kong de hoje está mais determinada a conseguir democracia.

Tai segue de perto a eleição do domingo, à qual concorrem três candidatos: Carry Lam, veterana funcionária e ex-número dois do atual líder; John Tsang, ex-secretário de Finanças durante quase uma década; e Woo Kwok-hing, antigo juiz de tendência progressista.

"Cada vez mais gente entende a importância do voto estratégico, por isso os democratas (que fazem parte do privilegiado comitê) estão dispostos a apoiar John Tsang, uma figura próxima ao poder, mas que consideram que não está sob o controle direto de Pequim", diz Tai.

No entanto, é Carry Lam, que exerceu o papel de interlocutora entre o governo chinês e os manifestantes em 2014, que parte como favorita por seu estreito vínculo com o Partido Comunista, seguida de Tsang, com mais apoio popular, embora visto com suspeita por Pequim por sua vontade expressa de retomar a reforma política.

Durante esta campanha eleitoral, o professor Tai iniciou um projeto para conhecer as preferências da cidadania: um referendo extra-oficial que permitia que os cidadãos escolhessem seu candidato, mas a convocação não cumpriu com as expectativas, evidenciando a inapetência social.

"O povo está cansado. Inclusive ocupando as ruas, não conseguimos nada. Portanto a única coisa que podemos fazer é desistir", explica a Efe Sam, um jovem que participou desde o princípio nos protestos e cuja esperança se desvaneceu totalmente.

Antonio Lau, outro cidadão que fez parte do movimento, compartilha sua frustração. "A Revolução dos Guarda-Chuvas foi uma grande decepção. Nada mudou", manifesta com pesar.

Ambos mostram preocupação pelo cada vez maior número de imigrantes de outras partes da China que chegam a Hong Kong e a deterioração das liberdades na única região chinesa com direito a se manifestar.

Assim resume Sam. "Amo Hong Kong, mas ultimamente ouvimos a mesma pergunta em todas nossas conversas: Quando vai embora?". EFE