Kevin da Silva e seus 'bordados ancestrais' rompem com o estereótipo feminino atribuído à arte e bombam na web

"Oi, meu nome é Kevin da Silva. E, sim, sou um homem que borda”. Era assim que o artista plástico, de 28 anos, respondia às mensagens dos clientes em sua página no Instagram antes de ser registrada como @dasilva.arte. Uma antecipação ao espanto que causa desde 2014, quando começou a traçar seus primeiros desenhos bordados. “Confundiam-me com mulher, o que me fazia pensar no porquê de as pessoas ainda vincularem certas atividades a um determinado gênero. Não me incomoda, porque gosto do universo feminino. Mas sei que é uma forma de preconceito”, diz.

Convertido à umbanda no início da pandemia — o artista havia sido monge Hare Krishna por cinco anos —, Kevin apostou em mergulhar na própria ancestralidade para imprimir de vez sua assinatura. Na internet, passou a ser conhecido como Da Silva, e o culto aos orixás das religiões de matriz africana estampado no tecido de algodão cru tornou-se seu mais novo carro-chefe. “Estava infeliz com o que reproduzia e queria trazer identidade para o meu trabalho. Pensei em mostrar um pouco da cultura pelos meus ancestrais, falar da nossa religião, do que carregamos de mais valioso. Não nos retratar através da dor, como o período da escravidão, o que já estamos acostumados a ver. Por isso, comecei a bordar os orixás. Consegui segmentar um pouco”, conta ele, que tem ateliê no bairro da Liberdade, em São Paulo.

O processo de confecção das peças autorais leva dois dias, incluindo a busca por referências, a montagem digital da arte e o traçado dos primeiros pontos sobre os desenhos previamente coloridos com aquarela. Apesar de receber alguns pedidos de reprodução, Kevin preza por não repeti-los. “Salvo os riscos e modifico. Gosto de produzir peças únicas”, explica ele, que trabalha sozinho.

Antes de sua renda vir exclusivamente dos bordados (pingentes custam R$ 60 e artes maiores, a partir de R$ 220), o artista, formado como técnico de modelagem do vestuário, trabalhava num acervo de publicidade. “Fiquei muito preocupada e com medo quando ele se demitiu do emprego para bordar. Mas sabia que ia dar certo, acredito no potencial do meu filho. Ele sempre foi muito determinado”, comenta Maria Quitéria da Silva, mãe de Kevin. Mas os louros vieram logo em seguida. Desde aquela tomada de decisão, mais de 500 peças foram vendidas e 13 mil seguidores chegaram para acompanhar diariamente seus lançamentos no Instagram. “Por ser um artista preto, que fala sobre cultura preta, me considero um grande sucesso e cheio de axé.”

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