Kiev e Moscou assinam em Istambul acordo sobre exportação de grãos ucranianos

AP - Khalil Hamra

A Ucrânia e a Rússia concluíram nesta sexta-feira (22) a assinatura, com o auxílio da Turquia e da ONU, do acordo sobre a exportação de cereais ucranianos para o Mar Negro, durante um encontro inédito entre os dois países em guerra.

Kiev e Moscou assinaram dois textos idênticos, mas separados, a pedido da Ucrânia, que se recusou a rubricar qualquer documento com a Rússia. As quatro delegações se reuniram no Palácio Dolmabahçe, no Bósforo, em Istambul, na presença do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, dos ministros da Defesa turco e russo, assim como do ministro ucraniano das Infraestruturas.

A cerimônia aconteceu sob as bandeiras dos protagonistas, Rússia e Ucrânia, cuidadosamente separadas pelas bandeiras azuis da ONU e vermelhas da Turquia, que se ofereceu como mediadora desde o início da invasão russa.

Este acordo, negociado ferozmente desde abril sob a liderança de Guterres, aliviará os países dependentes dos mercados russo e ucraniano – inclusive 30% do comércio mundial de trigo. O chefe da ONU agradeceu à Rússia e à Ucrânia que “superaram suas diferenças para dar lugar a uma iniciativa ao serviço de todos”. Agora o acordo "deve ser totalmente implementado", defendeu.

Erdogan reconheceu que "não foi fácil" chegar ao objetivo, e que espera que a assinatura deste acordo, quase cinco meses após o início do conflito, "fortaleça a esperança de acabar com a guerra".

Na esteira das negociações, a Turquia revelou que estaria "pronta" para ajudar na remoção de minas no Mar Negro para facilitar a implementação do acordo, quando mais 47 milhões de pessoas estão expostas à "fome aguda" desde o início da guerra, apontam os dadosdo Programa Alimentar Mundial (PAM).

Poucas horas antes da cerimônia, a Ucrânia havia especificado que não assinaria "nenhum documento com a Rússia", mas apenas com a Turquia e a ONU. Russos e ucranianos rubricaram um acordo idêntico com essas duas partes.

Acordo "sem precedentes"

Guterres, no entanto, observou a natureza “sem precedentes” deste acordo concluído entre dois países em guerra. O documento prevê um corredor seguro que permitirá a circulação de navios mercantes no Mar Negro, e que "ambas as partes se comprometeram a não atacar", revelou um funcionário da ONU que pediu anonimato.

Os negociadores desistiram de retirar as minas do Mar Negro – colocadas principalmente pelos ucranianos para proteger suas costas: "A remoção de minas levaria muito tempo", justificou a ONU, que especificou que "pilotos ucranianos" abririam caminho para os navios de carga em águas territoriais. A Ucrânia sugeriu que suas exportações comecem a partir de três portos - Odessa, Pivdenny e Chornomorsk - e espera aumentar esse número.

O acordo será válido por quatro meses, tempo para a saída das cerca de 25 milhões de toneladas empilhadas em silos na Ucrânia, à medida que uma nova colheita se aproxima. Um Centro de Coordenação Conjunta (CCC) deve ser estabelecido neste fim de semana em Istambul com representantes de todas as partes e das Nações Unidas.

As inspeções dos navios que partem e se dirigem aos portos ucranianos ocorrerão sob a supervisão deste CCC, a fim de atender às preocupações de Moscou, que quer ter certeza de que os navios de carga não trarão armas para a Ucrânia.

"Resposta militar imediata"

Uma primeira rodada de negociações entre especialistas militares dos três países envolvidos e a ONU ocorreu em 13 de julho, em Istambul, quando emergiu certo otimismo. Mas a incerteza ressurgiu após as exigências feitas por Moscou ao final da cúpula tripartite Irã-Rússia-Turquia na terça-feira (19) em Teerã.

A Rússia finalmente obteve garantias de que as sanções ocidentais não se aplicarão, direta ou indiretamente, às suas próprias exportações de produtos agrícolas e fertilizantes. Além disso, de acordo com um diplomata em Nova York, os Estados Unidos ofereceram "garantias" para que navios de grande porte sejam fornecidos à Rússia para facilitar a exportação de seus grãos e fertilizantes.

Devido às sanções, as empresas internacionais de logística relutam em trabalhar para Moscou. Os Estados Unidos saudaram o acordo desta quinta-feira e alertaram que consideram "a Rússia responsável por (sua) implementação".

Mas a desconfiança permanece em Kiev: "Nenhuma escolta russa e nenhuma presença russa em nossos portos. Em caso de provocação, resposta militar imediata", tuitou nesta sexta-feira Mikhaïlo Podoliak, conselheiro da presidência ucraniana.

(Com informações da AFP)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos