Kings of Convenience mostram no Brasil álbum feito ao longo de 12 anos

Há 21 anos, o duo norueguês Kings of Convenience sacudia o mundo do rock alternativo com o seu álbum de estreia, “Quiet is the new loud” (“O silêncio é o novo barulho”, em tradução livre), com delicadas canções entre o folk e a bossa nova, logo após uma década dominada pelos decibéis do grunge e dos eletrônicos. Depois de uma experiência nos palcos brasileiros em 2005, Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe voltaram ao país em 2011 com um pedido: para que o público não conversasse ou fizesse outros barulhos enquanto eles cantavam e tocavam.

— O mundo é bem mais barulhento hoje do que 20 anos atrás. Acho que aquela afirmação (“o silêncio é o novo barulho”) hoje é mais urgente do que antes. Vivemos muito distraídos, há muitas fontes de informação e entretenimento, é um tempo muito confuso para a humanidade — discorre Eirik, que volta ao Rio amanhã com Erlend para show no Vivo Rio, depois de 11 anos sem pisar no Brasil. — Nadamos em um oceano cheio de ondas e nunca sobra tempo para tentar ter uma visão geral de onde estamos e para onde queremos ir nas nossas vidas. É mais importante hoje do eu há 20 anos abrir espaço para o silêncio e criar tempo para nós mesmos.

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Na bagagem, desta vez, os Kings of Convenience trazem o repertório do álbum “Peace or love” (2021) — o seu primeiro em 12 anos.

— Na real, ficamos constrangidos que esse disco tenha demorado tanto a ficar pronto, é meio ridículo. Fica até parecendo que nós não trabalhamos, mas as minhas lembranças desses 12 anos é que a gente passou cada um deles focado em fazer o disco. Já em 2016 tínhamos todas as canções compostas, mas levou cinco anos para que conseguíssemos gravá-lo — conta Eirik Glambek Bøe. —A gente estava em busca do clima perfeito para a gravação, daquela mágica para o disco que queríamos lançar. Não queríamos que o disco soasse apenas legal, queríamos que ele fosse especial.

Depois dos meses passados no isolamento, por causa da pandemia, Eirik celebra a oportunidade de voltar à estrada e reencontrar os fãs dos Kings of Convenience:

— Temos sorte, me parece que nosso público é realmente dedicado à nossa música. Eles não gostam de uma canção apenas, eles ouvem nossos álbuns e conhecem várias das nossas canções, mesmo as mais antigas. Cada pessoa tem as suas favoritas, sinto que podemos tocar muitas canções em nossos shows, não temos aquela coisa do one-hit-wonder (artista de um hit só).

Segundo o cantor, violonista e compositor, os Kings of Convenience não foram talhados exatamente para produzir hits instantâneos:

— Os únicos ingredientes para fazer algo interessante são nossas vozes e nossos violões, esse é o desafio que nos propusemos. O que quer dizer que o resultado nem sempre será cintilante ou super cativante, mas algo que poderá ser apreciado por muitos e muitos anos. Às vezes leva um bom tempo para as nossas canções serem descobertas pelos fãs.

Enquanto os Kings of Convenience se esmeravam para completar “Peace or love”, Eirik Glambek Bøe gravou “Analog dance music” (2017), álbum da sua banda paralela, o Kommode (“é outro projeto que levou anos para ser completado, tudo que eu faço leva tempo”), com o qual fez shows com em 2018 e 2019 (“mas meu foco estava em completar esse álbum do Kings of Convenience”).

— Estatisticamente, as bandas não duram muito. Geralmente, uns cinco anos. É curioso que tenhamos conseguido manter os Kings of Convenience vivos por tanto tempo. Mas aprendemos muitas lições sobre isso — conta Eirik. — E a lição mais importante é que, quando um de nós não está a fim de fazer alguma coisa, a gente não faz, e não tem mais discussão. E se alguém quer fazer alguma outra coisa, está absolutamente livre para fazer. É por isso que temos tantos projetos paralelos (Erlend, por exemplo, tem e carreira solo, com a qual veio ao Brasil em 2018 e o grupo The Whitest Boy Alive).

Depois de 11 anos, Eirik Glambek Bøe exulta em estar de volta ao Brasil, país cuja música despertou uma paixão que ele acabou transmitindo, anos depois, para o parceiro Erlend Øye.

— Minha mãe ouvia jazz e um dos discos que eu lembro de ela tocar em casa era o de João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz ao vivo no Carnegie Hall (de 1964). Eu era adolescente, estava começando a aprender violão, e tocava em uma banda de indie rock psicodélico — revela. — Peguei aquele LP para mim e comecei a perceber o quanto você poderia fazer apenas com a voz e um violão. Foi a minha inspiração para começar a pesnar no violão como um elemento musical completo. Cheguei até a aprender algumas palavras em português para cantar algumas das canções.