Kyle Rittenhouse é inocentado após matar dois em ato antirracista nos EUA

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O jovem branco de 18 anos que atirou em três homens e matou dois deles durante um ato antirracista em Kenosha, nos EUA, em agosto de 2020, foi considerado nesta sexta (19) inocente de todas as acusações.

Kyle Rittenhouse foi julgado por ter atirado com um fuzil AR-15 em Joseph Rosenbaum, Anthony Huber e Gaige Grosskreutz —os dois primeiros morreram devido aos ferimentos. À época, ele tinha 17 anos.

O julgamento, que opôs o argumento da promotoria de que Rittenhouse atirou de forma imprudente nos homens à afirmação do adolescente de que agiu em legítima defesa, polarizou os EUA, expondo feridas abertas na sociedade americana em torno de questões controversas como direitos às armas.

Após mais de três dias de deliberações, o júri composto por 12 integrantes anunciou o veredito do caso.

Assim, ele foi inocentado de duas acusações de homicídio, uma de tentativa de homicídio e duas de ameaça à segurança pública. Rittenhouse chorou após o anúncio, caiu no chão, recebeu ajuda para voltar à cadeira e abraçou seu advogado. Dezenas de manifestantes protestaram do lado de fora do tribunal, alguns com cartazes em apoio ao réu e outros expressando decepção.

"Estamos muito felizes de que Kyle possa viver sua vida como um homem livre e inocente, mas nessa situação não há vencedores. Duas pessoas perderam suas vidas e isso não passou despercebido de forma alguma para nós", disse David Hancock, um porta-voz da família Rittenhouse, à agência Reuters.

O presidente Joe Biden, que durante a campanha eleitoral do ano passado tuitou um vídeo que parecia ligar Rittenhouse a supremacistas brancos, disse nesta sexta-feira que apoiava a decisão do júri.

Mas o resultado do julgamento foi tratado com indignação por muitos no espectro político de esquerda.

"É inescrupuloso que nosso sistema de Justiça permita que um justiceiro armado... saia em liberdade", afirmou um comunicado do Congressional Black Caucus, bancada de parlamentares negros.

A questão racial também pairava sobre o caso, embora Rittenhouse e os homens em quem ele atirou fossem todos brancos. Alguns ativistas negros disseram nesta sexta-feira que a polícia e os tribunais teriam tratado o adolescente de forma mais dura se ele fosse negro.

Já os conservadores viram o veredicto como uma validação da Segunda Emenda da Constituição dos EUA, que concede aos americanos o direito de portar armas.

O congressista Madison Cawthorn, representante republicano da Carolina do Norte, escreveu no Instagram: "Kyle Rittenhouse não é culpado, meus amigos. Vocês têm o direito de se defender. Estejam armados, sejam perigosos e sejam morais."

ENTENDA O CASO

Os atos em Kenosha, em Wisconsin, começaram após Jacob Blake, um homem negro, ser baleado pelas costas por um agente branco durante uma abordagem policial dois dias antes, em uma ação filmada por testemunhas. Três meses antes, George Floyd havia sido assassinado por um outro policial branco.

Rittenhouse morava em Antioch, no estado de Illinois, a cerca de 33 km de Kenosha. Ele cruzou a divisa até o estado vizinho em resposta ao chamado de grupos civis, formados majoritariamente por pessoas brancas, que se organizaram nas redes sociais para convocar ativistas contrários à pauta dos protestos.

Esses grupos alegavam proteger propriedades de saques e depredações durante as manifestações.

Imagens gravadas por testemunhas registraram o momento em que manifestantes tentam desarmar Rittenhouse após ele atirar em um deles. O adolescente então fez disparos à queima-roupa contra seus perseguidores, o que resultou em duas mortes. Ao apresentar sua defesa no tribunal, na quarta (10), Rittenhouse chorou copiosamente. Disse que havia sido ameaçado duas vezes de morte por Rosenbaum, 36, e que estava no ato para proteger uma concessionária de carros usados com outros homens armados.

O agora inocentado também afirmou que seu objetivo era oferecer ajuda médica a feridos —ainda que estivesse com um fuzil AR-15, de porte proibido para menores de 18 anos em Wisconsin. Questionado, ele respondeu que havia levado a arma para proteção própria.

No entanto, para o promotor, o réu "estava procurando emoção" e "sabia que haveria violência naquela noite". Ele afirmou que o acusado "causou o incidente" e que, de acordo com a lei vigente no estado de Wisconsin, "não se pode reivindicar legítima defesa contra um perigo que você próprio cria".

Um vídeo exibido na corte mostrou o momento em que Rittenhouse atirou quatro vezes em Rosenbaum. Na cena, é possível ver que, na hora dos tiros, o acusado era seguido pelo manifestante antirracista, mas, conforme noticiou o canal NBC News, o especialista forense Doug Kelley afirmou ao tribunal ter concluído que Rosenbaum não era uma ameaça naquele momento.

No final de outubro, o juiz do condado de Kenosha, Bruce Schroeder, determinou que a acusação não poderia se referir aos baleados como vítimas, porque, em sua visão, o termo está carregado de pré-julgamento. Em contrapartida, o promotor Thomas Binger pediu que a defesa de Rittenhouse fosse proibida de descrever Rosenbaum, Huber e Grosskreutz como "desordeiros, saqueadores ou incendiários".

Para ele, os termos são tão ou mais carregados de juízo de valor do que "vítimas" e deveriam ser banidos, porque não há evidências de que os baleados estavam cometendo crimes quando foram atingidos.

O juiz Schroeder negou o pedido, mas condicionou o uso dos adjetivos considerados pejorativos à apresentação de elementos que comprovassem as afirmações dos advogados do réu.

O advogado de defesa criminal de Wisconsin, Daniel Adams, que acompanhou de perto o julgamento, disse à Reuters que considerou o veredicto "muito dramático, mas não totalmente surpreendente".

Segundo ele, a maioria dos advogados que olharam para as evidências tiveram a sensação "de que o estado não seria capaz de refutar a legítima defesa além de qualquer dúvida".

Transmitido ao vivo e dissecado por especialistas da TV a cabo diariamente, o julgamento se desenrolou em um momento de polarização social e política nos Estados Unidos. Os direitos sobre armas são valorizados por muitos americanos e estão consagrados na Constituição, ainda que o país passe por um alto índice de violência armada, ligada à fácil disponibilidade de armas de fogo.

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