Kyle Rittenhouse, jovem que matou dois manifestantes antirracistas nos EUA, é absolvido

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(ARQUIVO)Kyle Rittenhouse durante seu julgamento no Tribunal do Condado de Kenosha em Kenosha, Wisconsin, em 17 de novembro de 2021 (AFP/Sean Krajacic)

O americano Kyle Rittenhouse, que matou duas pessoas com um fuzil semiautomático e feriu uma terceira durante as manifestações antirracistas em agosto de 2020 no Wisconsin, foi absolvido nesta sexta-feira (19) em um julgamento que revelou as fraturas existentes no país sobre as armas de fogo e o movimento Black Lives Matter.

No quarto dia de deliberações, todos os doze jurados consideraram Rittenhouse, um jovem branco de 18 anos, "inocente" das cinco acusações contra ele, inclusive de homicídio.

Rittenhouse, que enfrentava uma sentença de prisão perpétua, alegou ter agido em legítima defesa.

Quando o veredicto foi lido, ele soluçou antes de sair rapidamente do tribunal. Gritos de alegria dos apoiadores do Rittenhouse foram ouvidos do lado de fora.

O presidente dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden, disse estar "preocupado e zangado". Mas, em nota, pediu aos americanos que respeitem a decisão do tribunal. “Faço um apelo a todos para que expressem suas opiniões de forma pacífica, em respeito à lei”.

Seu antecessor, o republicano Donald Trump, que já tinha defendido Rittenhouse publicamente após o ataque, voltou a lhe declarar seu apoio na noite desta sexta-feira.

"Parabéns a Kyle Rittenhouse por ser declarado INOCENTE", manifestou-se Trump em uma nota divulgada por seu porta-voz. "Se isso não é legítima defensa, nada é", acrescentou.

Para evitar confusões, o governador de Wisconsin, Tony Evers, pediu a 500 soldados da Guarda Nacional que estivessem prontos para intervir em Kenosha. Biden ofereceu o apoio das forças federais.

Um grupo expressou sua indignação no tribunal. “Culpado, culpado, o sistema é duplamente culpado”, gritaram. "É um dia triste para os Estados Unidos", disse Will Diaz, um trabalhador de 44 anos, à AFP.

- "Turista do caos" -

Em 23 de agosto de 2020, esta cidade na região dos Grandes Lagos foi palco de tumultos depois que a polícia feriu gravemente um jovem negro, Jacob Blake, que foi baleado nas costas durante uma tentativa de prisão.

Rittenhouse, que tinha 17 anos na época, armou-se com um fuzil semiautomático e se juntou a grupos armados que afirmavam agir para "proteger" os comércios.

Em circunstâncias confusas, ele abriu fogo, matando dois homens e ferindo um terceiro. Todas as suas vítimas são brancas.

"Não fiz nada de errado, apenas me defendi", disse o jovem soluçando durante o julgamento, e garantiu que atirou depois de ser perseguido e atacado pelos três homens, também brancos.

O réu era "um turista do caos" que "buscava excitação" e "voluntária e conscientemente se colocou em uma situação perigosa", afirmou o promotor Thomas Binger na acusação.

Durante as duas semanas de duração do julgamento, Rittenhouse apareceu em liberdade, depois que seus amigos próximos pagaram uma fiança de 2 milhões de dólares.

O jovem tornou-se uma referência para os círculos de direita segundo os quais a grande mobilização contra a violência policial no verão de 2020 foi obra de "antifascistas" e "anarquistas".

Assim, foi descrito como um "herói" pela mídia ultraconservadora e, na sexta-feira, vários legisladores republicanos saudaram sua libertação. "A justiça foi feita", tuitou o senador Ron Johnson, de Wisconsin.

- "Justiça a duas velocidades" -

Ao contrário, para a esquerda, ele encarna os excessos da cultura das armas e do direito à autodefesa.

No Twitter, o movimento Black Lives Matter anunciou que não ficou surpreso com o veredicto. "O sistema funciona exatamente como se supõe que faz (...) Para proteger a supremacia branca".

"Para um adolescente ser capaz de atirar em três pessoas, matando duas, sem consequências criminais é uma negação de justiça", disse Shannon Watts, fundadora do grupo de ação Moms demand.

“Estes também são os Estados Unidos que criaram a NRA”, disse ele, referindo-se ao poderoso lobby de armas da Associação Nacional do Rifle, que faz campanha pelo direito ilimitado ao porte de armas.

Entre os defensores da comunidade afro-americana, a amargura era igualmente palpável.

“Este é um novo exemplo de justiça a duas velocidades na América”, disse o advogado Ben Crump, que defendeu inúmeras vítimas de violência policial e suas famílias.

Se Rittenhouse "fosse negro, os debates no tribunal e seu resultado teriam sido muito diferentes", afirmou.

"Acabamos de assistir à validação de atos terroristas por um sistema baseado na supremacia branca", acrescentou Colin Kaepernick, o ex-astro do futebol conhecido por se ajoelhar durante o hino nacional em solidariedade aos afro-americanos mortos pela polícia.

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