Lázaro Ramos, diretor de 'Falas negras', diz não ter sido fácil escolher personagens para especial

Amanda Pinheiro
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O sistema racista fez com que a história da população negra fosse praticamente apagada. Ao longo dos anos, porém, esse cenário tem mudado, e uma das ferramentas na luta antirracista é o resgate dos saberes, da cultura, e da ancestralidade. “Falas negras”, especial exibido hoje, no Dia da Consciência Negra, após “A força do querer’’, traz a história de grandes personalidades contadas por atores que as interpretam, levando o protagonismo negro à TV.

Dirigido por Lázaro Ramos, com preparação de Tatiana Tiburcio (que também dá vida a Mirtes Souza) e idealizado por Manuela Dias, o projeto exalta as trajetórias de Lélia Gonzalez (Mariana Nunes), Muhammad Ali (Babu Santana), Malcom X (Samuel Melo) e outras figuras, num total de 22 personagens (veja alguns ao longo da página).

— Eu me sinto mais conhecedor. Não é porque eu me interesso por esse assunto que sei tudo. Descobri aspectos e características nas palestras que fizemos, mesmo tendo pesquisado antes. É um projeto formado de fragmentos. E acho que quem assistir vai ter vontade de mergulhar e pesquisar sobre a vida de cada um desses destaques depois — afirma Lázaro Ramos.

O ator e diretor confessa que a escolha dos nomes não foi nada fácil. Mas diz ter um truque para quem sentir falta de alguém:

— No fim do meu espetáculo “O topo da montanha’’, a gente fala o nome de algumas personalidades negras como homenagem. Sempre digo para o público: “Quem faltou e está no seu coração, fale o nome agora’’. Essa construção pode ser coletiva.

Para Lázaro, as histórias contadas são uma oportunidade de se inspirar e repensar o futuro.

— Há uma compreensão da importância de levarmos essas figuras ao público. E mostrar que o processo de libertação e de luta contra o racismo vem de muito tempo. A partir disso, podemos construir nossas ações.

Nzinga, a rainha combatente

Nascida em 1582, em Angola, Nzinga Mbandi, interpretada por Heloisa Jorge, foi a rainha do Reino do Dongo e Matamba. Ainda criança, ela foi treinada para o combate e, na vida adulta, comandou um exército até os seus 73 anos de idade. Além de uma grande líder militar e política, lutou contra a colonização e a comercialização de escravos praticadas pelos portugueses.

Angela Davis: a grande líder

Ativista, abolicionista e feminista negra, Ângela Davis (Naruna Costa) é uma das referências na luta antirracista. Nascida em 1944, nos Estados Unidos, desde adolescente já era perseguida pela polícia por organizar grupos de estudos. Após a prisão sem provas por associação com o Partido Comunista Americano e com os Panteras Negras, passou a lutar contra o sistema carcerário.

A corajosa e engajada Marielle

Ativista de direitos humanos, socióloga e defensora das causas das mulheres, dos negros, LGBTs e favelados. Nascida em 1979, no Rio de Janeiro, no Complexo da Maré, Marielle Franco (Taís Araujo) foi eleita vereadora em 2016. Presidiu a Comissão de Defesa das Mulheres até que, em março de 2018, foi executada. O crime até hoje não foi desvendado e sua morte gerou protestos mundiais.

Psicanalista pioneira

Virgínia Leone Bicudo (Aline Deluna) foi socióloga, a primeira psicanalista brasileira e cofundadora da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Neta de uma escrava alforriada e nascida em São Paulo, ela viveu entre os anos de 1910 e 2003 e foi uma das primeiras cientistas a abordar a temática racial no campo da psicanálise.

A não-violência como arma

Pastor e ativista político, Martin Luther King (Guilherme Silva) viveu entre 1929 e 1968. Grande nome do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, na luta pela igualdade entre negros e brancos, ficou conhecido por defender a estratégia da não-violência e da não desobediência civil, inspirado pelas ideologias cristãs. Antes de ser assassinado, em 1968, ganhou o Nobel da Paz.

Da Bahia para o mundo

Reconhecido pelo mundo inteiro como um dos maiores geógrafos brasileiros, Milton Santos (Ailton Graça) também foi jornalista, escritor, advogado e professor universitário. Nascido na Bahia, viveu entre 1926 e 2001, e tem mais de 40 livros publicados em sete línguas. Em 1994, ganhou o Prêmio Vautrin Lud, conhecido como o “Nobel da Geografia”.

A música como instrumento

Nascida em 1933, nos Estados Unidos, Eunice Kathleen Waymon, mais conhecida como Nina Simone (Ivy Souza), foi uma cantora, musicista, compositora e ativista pelos direitos civis. Morreu em 2003. Sua voz e suas canções potentes, por meio do Jazz, R&B e Blues, foram grandes instrumentos para expressar sua revolta com os conflitos raciais vividos desde a infância.

Choro por justiça

Empregada doméstica, Mirtes Souza (Tatiana Tiburcio) luta por justiça até hoje. Em junho deste ano, ela deixou seu filho, Miguel Otávio, aos cuidados de sua então patroa, Sari Corte Real, enquanto foi passear com o cachorro da família. O garotinho, que tinha 5 anos, morreu após cair do prédio onde a mãe trabalhava. Sari foi presa, mas pagou a fiança e foi liberada.

Grande líder haitiano

Apesar de ter sido escravizado até os 30 anos, Toussaint Louverture (Izak Dahora) aprendeu a ler e escrever. Ele viveu entre 1743 e 1803 e é considerado o líder da Revolução Haitiana. Após ser alforriado em São Domingos (atual Haiti), Toussaint liderou o movimento que conduziu os africanos escravizados a uma vitória sobre os colonizadores franceses e aboliu a escravidão no local.

Um mundo sem segregação

Nelson Mandela (Bukassa Kabengele) foi presidente da África do Sul e advogado. Nascido em 1918 e chamado de Madiba, ele liderou o movimento contra o Apartheid, um regime de segregação racial implantado em seu país. Após ser condenado, em 1964, só foi libertado em 1990. Antes da sua morte, em 2013, ganhou o Prêmio Nobel da Paz.