A lã, o ferro e o fogo: no centro de Portugal renascem as artes tradicionais

Alexandra Prado Coelho, do "Público"

Assim como acontecem com certas uvas e técnicas de vinificação, Portugal mostra que sabe preservar outras tradições que, em outros cantos do mundo, corriam o risco de desaparecer. No centro do país, descobre-se artes do tempo, da experiência e da paixão. Houve um tempo, antes das estâncias de ski e das casinhas que lembram chales suíços, que no cume da Serra da Estrela havia apenas pastores e ovelhas. O ponto mais alto de Portugal continental, no centro do país, era então um mundo desconhecido para a grande maioria dos portugueses. Mas as ovelhas percorriam os caminhos difíceis, por entre as pedras e os vales glaciares, e protegiam-se do frio e da neve com o seu pelo quente e áspero.

É esta lã da ovelha bordaleira que ainda hoje é usada para fazer um tecido muito especial: o burel. “A bordaleira e a mondegueira são duas lãs muito pobres. Antigamente eram queimadas ou enterradas. Poder usá-las hoje em materiais onde são super-preciosas é uma coisa extraordinária”, diz Isabel Costa, uma empresária que, juntamente com o marido, João Tomás, se apaixonou pela Serra da Estrela e se tem dedicado a fazer renascer as fábricas de lãs que estavam a morrer.

Visitar a Burel Factory – e há visitas guiadas todos os dias – é viajar no tempo para uma época de grandes máquinas industriais, estruturas metálicas que, no meio de um barulho muitas vezes ensurdecedor, trabalham a lã. Uma das máquinas, num trabalho delicado, separa-a em fios coloridos que depois, seguido complicados desenhos guardados em antigos cadernos quadriculados cheios de sinais misteriosos, vão ser cruzados em tecidos de diferentes padrões.

A lã é retirada das ovelhas e chega aqui em sacos de 200 ou 300 quilos. Para trabalhá-la, é preciso primeiro abri-la, separá-la, num processo chamado cardar e que é feito na máquina mais antiga da casa, de meados do século XIX. Depois é torcida em fios, mas o verdadeiro burel só nasce depois de ser batida, para prensar as fibras, e mergulhada em água, para encolher, num processo que foi trazido para Portugal no século XI pelos monges dominicanos, que usavam este tecido rústico nos seus hábitos. Mais tarde, os pastores da serra imitaram-nos, fazendo os tradicionais capotes que os protegem ao mesmo tempo do frio e do calor.

O burel – muito exportado durante as guerras mundiais para fazer capas para os soldados – tem excelentes propriedades de isolamento acústico e térmico e é muito resistente à água, e por isso é hoje muito usado para decoração – nos dois belíssimos hotéis que Isabel e João abriram na serra (a Casa das Penhas Douradas e a Casa de São Lourenço) há muitos exemplos da utilização do burel, nas paredes, nas almofadas, e até nos pequenos (e premiados, pelo seu design) bancos em forma de ovelhas.

E porque Portugal guarda ainda muitos destes saberes antigos, vale a pena ir da Serra da Estrela até às Caldas da Rainha, também no centro do país, para conhecer Paulo Tuna, o ferreiro. Das suas mãos saem facas artesanais que parecem nascidas numa forja dos tempos antigos. Foi, provavelmente, esse lado rústico que fascinou René Redzepki, o chef do Noma, o restaurante de Copenhague várias vezes considerado o melhor do mundo pela lista The World’s 50 Best Restaurants.

A encomenda de facas pelo Noma chegou há uns anos, em 2012, numa altura em que Paulo Tuna estava começando. Hoje passou para um atelier maior, sempre nas Caldas da Rainha (que é também a cidade do célebre artista, ceramista e caricaturista Bordallo Pinheiro). Trabalha para vários chefs portugueses, mas garante que faz facas da mesma maneira para um chef famoso ou para uma dona-de-casa. “Não considero as minhas facas objetos de arte. São ferramentas”, diz. O seu exemplo, e o sucesso que conseguiu, encorajou vários outros artesãos portugueses a lançar-se na arte da cutelaria.

Vê-lo trabalhar é uma viagem no tempo. A escolha do aço certo para cada tipo de faca (de mato, para caçar, para filetar peixe, para cortar legumes) a domesticação do metal pelo calor, as faúlhas que saltam, as marteladas ritmadas, moldando a lâmina da faca, o braço subindo e descendo – não é preciso tanta força como imaginamos, explica, é o próprio peso do corpo que impulsiona o movimento, numa dança intemporal entre o homem e o aço. A matéria molda-se ao desenho traçado há pouco numa folha de papel, as marcas dos golpes do criador a deixarem a sua assinatura na lâmina.

Com materiais pobres como a lã das ovelhas da Serra da Estrela e técnicas antigas como a forja, Portugal soube preservar tradições que corriam o risco de desaparecer. No centro do país descobrem-se artes do tempo, da experiência, da paixão.

Os ingressos para participar do Vinhos de Portugal estão à venda. Acesse o site e compre seus ingressos.

Vinhos de Portugal é uma realização dos jornais O Globo, Valor Econômico e Público, com parceria de ViniPortugal, apoio de Comissão Vitivinícola do Alentejo, Agência Regional de Promoção Turística do Centro de Portugal, Associação Portuguesa de Cortiça (APCOR), Mozak e AGO, participação de Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), Azeites Esporão e Comissão Vitivinícola do Dão, projeto da Out of Paper, rádio oficial CBN e apoio institucional do SindRio.

SERVIÇO

Vinhos de Portugal: de 23 a 25 de outubro. Programação e ingressos no site:vinhosdeportugal2020.com.br

Salão de Degustação (ingresso para os três dias): R$ 75 + taxa de 10% (sem vinho) e R$ 155 + taxa de 10% (com um vinho e brindes; RJ e SP). Assinantes O GLOBO têm 20% de desconto.

Provas (ingresso por live): R$ 90 + 10% (sem vinho) e de R$ 410 a R$ 950 + 10% (com três ou quatro vinhos e brindes; RJ e SP). Comprando o ingresso para a Sala de Provas com o kit de vinhos, o participante também pode acessar as lives do Salão de Degustação.

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