Líbia tem exportações de petróleo bloqueadas antes de reunião de cúpula

Por Imed LAMLOUM
1 / 2
(17 jan) O marechal Jalifa Haftar, em Atenas

As forças pró-Haftar bloquearam neste sábado (18) os principais terminais de petróleo do leste da Líbia, horas antes de uma reunião de cúpula internacional em Berlim para relançar o processo de paz naquele país, mergulhado em uma guerra civil.

A interrupção das exportações de petróleo, quase única fonte de receita da Líbia, é um ato de protesto contra a intervenção da Turquia naquele país, indicaram as tribos e forças leais ao general Khalifa Haftar, homem forte do leste líbio, e que está em conflito com o Governo de União Nacional (GNA), reconhecido pela ONU e instalado na capital, Trípoli.

Os pró-Haftar consideram que a receita do petróleo distribuída pelo GNA serve para pagar combatentes do exterior, principalmente da Turquia.

A Companhia Nacional de Petróleo (NOC) anunciou a paralisação das exportações nos terminais de Brega, Ras Lanuf, Al-Sedra e Al-Hariga. O bloqueio provocará uma queda da produção do país do 1,3 milhão de barris diários atuais para 500 mil barris diários, e um prejuízo de cerca de 55 milhões de dólares por dia, segundo a empresa.

O marechal Haftar, que realiza desde abril de 2019 uma ofensiva para tomar Trípoli, deveria participar amanhã da conferência internacional sobre a Líbia organizada pela ONU, bem como seu rival, Fayez Al-Sarraj, chefe do GNA.

Antes desta conferência, Sarraj defendeu uma "força militar internacional" na Líbia para proteger a poulação civil se Haftar manter a ofensiva.

Se Haftar "não pôr fim à sua ofensiva, a comunidade internacional terá que intervir com uma força internacional de proteção da população civil líbia", afirmou em entrevista ao jornal alemão Die Welt.

"Saudaríamos uma força protetora não porque tenhamos que estar protegidos como governo, mas pela proteção da população civil líbia, que foi bombardeada durante nove meses", acrescentou.

A Turquia apoia Sarraj, inclusive militarmente, enquanto suspeita-se de que a Rússia, apesar de suas negativas, apoie o general Haftar com armas, dinheiro e mercenários.

O ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, criticou por sua vez a decisão da Grécia de convidar o marechal na véspera da conferência porque, segundo ele, é "sabotar" os esforços de paz.

- 'Chantagem' -

Ahmad Al-Mismari, porta-voz dos pró-Haftar, indicou neste madrugada que "o fechamento dos campos e terminais de petróleo é uma decisão puramente popular, o povo decidiu".

Mas segundo Jalal Harchaoui, pesquisador no Instituto Clingendael de Haia, "trata-se de uma lógica de chantagem que pode funcionar, mas há o risco de que Washington reaja mal. O governo Trump é muito contrário aos bloqueios das exportações de petróleo líbio", que levariam a um aumento do preço do óleo.

Em entrevista à AFP neste sábado, em Berlim, o enviado da ONU à Líbia, Ghassan Salame, não descartou uma motivação política, antes da reunião na Alemanha. "Digamos que o momento é um pouco suspeito. Na ONU, nossa linha é clara. Não se deve brincar com o petróleo, porque é o sustento dos líbios. Sem petróleo, os líbios morrem de fome", advertiu.

Salame também pediu aos outros países que abandonem a interferência no conflito, que mescla rivalidades políticas e econômicas motivadas pelas importantes reservas líbias.

A presença de militares turcos no país e as suspeitas de que também haja mercenários russos gera o temor de que a Líbia se converta em uma "nova Síria", um conflito complexo, com a presença de vários países.

- 'Aspirina' -

"Qualquer tipo de interferência estrangeira pode ter o efeito de uma aspirina a curto prazo", disse Salame em Berlim, referindo-se ao cessar-fogo que entrou em vigor em 12 de janeiro na Líbia, por iniciativa da Rússia e Turquia.

A reunião de amanhã terá o objetivo principal de consolidar a trégua, ainda frágil, com um embargo à entrega de armas. Os dois campos rivais da Líbia se acusam mutuamente de "violações".

Apesar de seus interesses divergentes, Rússia e Turquia se impuseram nas últimas semanas como personagens-chave na Líbia, em detrimento da Europa.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que estará amanhã em Berlim, advertiu hoje sobre o perigo de ressurgimento de grupos jihadistas se o GNA for derrubado. "A Europa enfrentará uma nova série de problemas e ameaças em caso de queda do governo legítimo líbio", publicou Erdogan no site de notícias Politico.

A Tunísia, por outro lado, anunciou que não vai participar da conferência porque foi convidada com atraso pela Alemanha.