Líder do AfroReggae estimula projetos na área de tecnologia e games para crianças e adolescentes

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“Preto, confiante, abusado. Meu nome, minha religião”. A frase inspirada no peso-pesado Muhammad Ali estampa o peito de William Reis, de 35 anos, coordenador executivo do AfroReggae, desde 2017. As infinitas tatuagens (nem ele sabe quantas são) que cobrem quase toda a pele do professor de educação física, criado entre o morro e o asfalto, denunciam sua personalidade, em boa parte moldada pelo trabalho na organização. Hoje um conhecido ativista antirracista, que carrega a desafiadora missão de reerguer a ONG, William pisou há 12 anos pela primeira vez no grupo sem qualquer causa na cabeça. Essa história começa quando ele estabelece uma amizade improvável com José Junior, fundador do AfroReggae. O então universitário estagiava numa academia da Gávea, e Junior era aluno de lá.

— O primeiro contato nosso não foi muito legal, não. Quando eu o vi pela primeira vez, achei aquela figura estranha para a Gávea. Um cara todo tatuado, careca, de short curto, um tipo muito diferente. Ele estava correndo na esteira, e fui lá falar. Só que ele não me deu muita atenção. Fiquei com uma imagem dele de antipático — lembra William, que nunca havia participado de qualquer projeto da ONG. — Um dia, estava montando uma série para uma aluna, e ela: “aquele cara é o líder do AfroReggae”. Ele estava na esteira de novo, e fui lá. Eu: “Você é do AfroReggae. Sou cria do Complexo do Alemão”. Ele abriu um sorriso e quase soltou fogos na academia.

Da empatia que foi crescendo a partir daí surgiu a primeira oportunidade de trabalhar na ONG. William passou por vários degraus lá: mergulhou nos debates sobre questões raciais e virou palestrante do tema, viajando assim pelo Brasil e por outros setes países, coordenou núcleo comunitário e também um projeto junto ao BID envolvendo dez favelas. Até que em 2017 José Junior o chamou para substituí-lo na ONG, fundada há 28 anos e que ganhou fama internacional a partir de Vigário Geral. São anos de ações na área cultural junto à população jovem e pelo trabalho de ressocialização de egressos do sistema penal, além de dar a mão a pessoas que querem deixar o mundo do crime.

A organização chegou a atuar com as mesmas iniciativas fora do Rio e do país, como em Cabo Verde. Mas, há quatro anos, precisou interromper suas atividades abalada pela crise econômica, que afugentou patrocinadores.

— A ONG caiu no ostracismo com a crise, o que nos fez perder muitos patrocinadores. A gente diz que o AfroReggae viveu sua pandemia entre 2017 e 2018 — afirma Junior, que, antes disso, em 2016, decidiu encerrar seu ciclo na ONG e criou o AfroReggae audiovisual, produtora que hoje toca grandes projetos como filmes e séries para a Globoplay (“A Divisão” e “Arcanjo renegado”). — Ao longo desses anos todos, sempre pensei em possíveis substitutos para mim. Confesso que ninguém deu certo até o William, que não foi escolha minha. Digo que ele me escolheu. Ele sempre me dizia: “vou ser seu substituto”.

Depois de um ano de paralisação das ações, William voltou a negociar patrocínios e a movimentar a cena. Lançou o AfroGames (atual menina dos olhos), com aulas de games e de programação para a garotada de Vigário. Mas, quando tudo parecia caminhar, veio o coronavírus. O grupo de ex-detentos que atuava no projeto Segunda Chance, de inclusão de egressos do sistema penitenciário no mercado de trabalho, acabou se voltando para a distribuição de cestas básicas em 20 favelas. Mas as metas de William para 2021 incluem o fortalecimento do Segundo Chance e expandir o AfroGames, que hoje beneficia cem jovens de Vigário Geral, a partir dos 12 anos. Até o fim deste ano, será aberto um centro no Morro do Cantagalo.

— Temos criança de 12 anos criando games. Estamos preocupados em inserir esses jovens num dos mercados que mais crescem no mundo. E, dentro desse projeto, com atividades de segunda a sábado, ensinamos inglês — conta William, também empolgado com o time de seis e-atletas do AfroReggae, que começam a agora a participar de competições e ganham um salario mínimo mensal cada um. —O time tem acompanhamento psicológico, aulas de educação física e de consciência racial comigo. O AfroGames combate a desnutrição digital.

Para William, enquanto Junior tem um discurso baseado no social, o seu tem foco no racial. Ao entrar para o AfroReggae, a tomada de consciência foi tão grande que mudou seu corpo, mente e alma. Para se ter uma ideia, ele só tinha tatuado até então um desenho tribal sem grande significado. Hoje, o líder da ONG é coberto por referências a nomes como Malcom X, Martin Luthher King e Mandela. Ler Malcom X fez ele virar a chave sobre questões que sentia na pele desde criança:

— Eu começo as palestras contando minha trajetória, que passa pela falta de informação. Não é alienação: jovem da favela não tem essa cabeça sobre o racismo, a não ser que cresça numa família que seja consciente. Eu falo da escola, onde a criança mais sofre ataque racista.

William nasceu no Andaraí, na casa dos patrões de sua mãe, Antônia, empregada doméstica, nascida em Natal. Seu pai, Willis, vivia na Vila Cruzeiro, no Alemão, e é funcionário da Cedae. Dos 6 aos 17, o garoto morou no Alemão. Mas nunca se desligou da “família branca de classe média”, como diz, do Andaraí. Tanto que desde a adolescência vive com eles. Para a fotógrafa Luciana Alves, ele é um “anjo da guarda, um parceiro de vida”. Luciana é filha da ex-patroa de Antônia, madrinha de William e sua segunda mãe.

— Passamos inúmeros casos de racismo juntos. Uma vez estávamos voltando de um shopping na Barra, e eu dirigia com ele na frente do carro. Minha filha estava dormindo atrás no colo do pai. O carro da polícia passou, olhou para a gente, ligou a sirene e me mandou parar. Quando parei, eles já vieram com a arma na cabeça dele, achando que William estava me assaltando ou sequestrando — lembra Luciana, mãe de duas filhas, uma de 12 e outra de 20. — Ele diz que sou faixa preta. Mas quando mexem com um filho meu viro bicho.

A fotógrafa atribui a ascensão de William muito ao carisma, ao senso de responsabilidade e à ousadia. Ele foi um garoto que não tinha vergonha de nada e cercado de amigos. O coordenador executivo fala que tem a facilidade do diálogo e de construir pontes entre personagens de diferentes mundos. Tanto que ele acaba de criar um conselho consultivo para o AfroReggae recheado de notáveis, como o economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, a filósofa e escritora Sueli Carneiro e o jogador Éverton Ribeiro, do Flamengo.

—O William tem um jeito mais doce do que o José Junior e se expressa com leveza. E, desde o início, me passou confiança e comprometimento com a agenda — diz Eliana Sousa Silva, pesquisadora, diretora da ONG Redes da Maré e membro do conselho.

Com William, o AfroReggae, que teve 400 funcionários e duas mil pessoas atendidas no passado, hoje caminha para uma versão mais enxuta, porém mais tecnológica. Mesmo assim, cem crianças seguem tendo aulas de percussão e balé duas vezes por semana em Vigário. E o atual líder tem nas mãos o projeto de reforma de cinco campos de futebol em favelas (só falta a liberação do dinheiro via incentivos fiscais) e de um circuito de shows de pagode em comunidades para quando a pandemia der trégua.

Eclético em termos de religião e música, fã de cinema e adepto do boxe, William, que está solteiro e não tem filhos, é meio “ídolo fashion” da meninada da comunidade. Hoje ele usa cabelo branco e barba, mas amanhã já pode desfilar com outro visual.

— Estou sempre no estilo para mostrar ao jovem que existem outras referências além do cantor de pagode e do jogador — diz ele, logo se adiantando para explicar que não se trata de preconceito,mas de mostrar outros caminhos possíveis.

Na análise de Luciana, o menino que já chegou em casa chorando porque viu pessoas atravessando a rua com medo dele, canalizou a tristeza para que outras pessoas não se sintam assim:

—Ele começou a ler muito sobre isso. E decidiu que ia ensinar as pessoas negras a se aceitarem como são. Antes, alisava o cabelo. Hoje, tem autoestima na lua.

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