Líder de Belarus admite ter facilitado entrada de migrantes na UE, alimentando crise com o bloco

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Alexander Lukashenko
Lukashenko é acusado de usar a migração como retaliação contra sanções impostas pela UE

O líder autoritário de Belarus, Alexander Lukashenko, admitiu em entrevista exclusiva à BBC nesta sexta-feira (19/11) que é "absolutamente possível" que suas tropas estejam ajudando migrantes a entrarem irregularmente na União Europeia - o que tem desencadeado uma grande crise político-diplomática no bloco europeu.

"É absolutamente possível que nossos caras (tropas) estejam ajudando migrantes a entrar em território polonês. É perfeitamente possível. Nem vou investigar isso", declarou Lukashenko.

Belarus tem sido acusada - e, até agora, tinha negado - de estar estimulando a migração irregular, em sua fronteira com a Polônia, Letônia e Lituânia, de milhares pessoas desesperadas vindas de países sob conflito no Oriente Médio. Algumas delas morreram congeladas em áreas fronteiriças.

A crise migratória tem se desenrolado nos últimos meses, como uma aparente retaliação de Belarus por ter sido alvo de sanções impostas pela União Europeia.

A porta-voz da polícia alfandegária da Polônia, Anna Michalska, disse em entrevista coletiva que, na noite de quinta-feira (18/11,) oficiais de Belarus levaram de caminhão cerca de "500 pessoas" para a fronteira bilateral e cegaram guardas poloneses com lasers para estimular os migrantes a cruzar a fronteira.

Steve Rosenberg entrevista Alexander Lukashenko
Alexander Lukashenko (esq) durante a entrevista com a BBC: 'Se eles (migrantes) continuarem a vir, não vou impedi-los. Porque não estão vindo ao meu país, estão indo ao de vocês (Europa Ocidental)'

Alexander Lukashenko afirmou à BBC ter dito à União Europeia que não vai deter imigrantes na fronteira.

"Se eles continuarem a vir, não vou impedi-los. Porque não estão vindo ao meu país, estão indo ao de vocês (Europa Ocidental)", declarou, queixando-se de que "o Ocidente parou de falar conosco e de trabalhar conosco".

"Somos eslavos. Temos coração. Nossas tropas sabem que os migrantes estão indo para a Alemanha, o país mais rico da UE", prosseguiu ele.

Lukashenko negou, porém, a acusação da UE e da Otan de que Belarus estaria não apenas facilitando a entrada de imigrantes, como atraindo-os sob a falsa promessa de permitir uma entrada facilitada ao bloco europeu.

"Eu não os convidei (em referência aos imigrantes) para cá", disse o líder. "Para ser sincero, não quero que eles passem por Belarus."

Migrantes na fronteira entre Belarus e Polônia, em foto cedida pelas autoridades polonesas
Migrantes na fronteira entre Belarus e Polônia, em foto cedida pelas autoridades polonesas; região virou um novo foco de crise migratória na UE

No entanto, a julgar por dezenas de declarações dos próprios refugiados e migrantes e pelos vídeos que autoridades lituanas e polonesas têm divulgado, o órgão de fronteira de Belarus está apoiando diretamente os refugiados a cruzarem a fronteira ilegalmente.

Crise migratória

Em uma entrevista ao jornal local Nasha Niva, um oficial do órgão de fronteira descreveu, sob anonimato, as atividades de seu departamento como "uma desvalorização completa das leis e de seu juramento".

Além disso, desde 2020, as autoridades de Belarus cancelaram ou simplificaram os requisitos de visto para 76 países. Entre eles estão vários afetados por conflitos graves, como Síria, Líbia, Iraque e Afeganistão, de onde milhares de pessoas estão tentando sair.

Agências de viagens da Síria, Iraque e Turquia começaram a vender viagens para Belarus destacando a oportunidade de moradia e emprego em um país da União Europeia. Dezenas de mensagens desse tipo chegam também pelo WhatsApp, aplicativo de mensagens mais utilizado na região.

Essa viagem custa entre US$ 10 mil e US$ 20 mil (algo em torno de R$ 50 mil a R$ 100 mil), a depender das condições. Segundo investigação do veículo de imprensa alemão Deutsche Welle, os consulados de Belarus até delegaram o direito de colocar vistos de seu país em passaportes para essas agências de viagens.

Por fim, Belarus aumentou significativamente o número de voos de nações do Oriente Médio. Vários países da Europa denunciam que até as autoridades do país estão por trás dessas ofertas promovidas pelas agências de viagens.

Estima-se que ao menos 5 mil migrantes permaneçam em Belarus, nas áreas de fronteira, embora centenas tenham sido mandadas de volta ao Iraque em um voo de repatriação realizado na quinta-feira.

Autoritarismo em Belarus

Alexander Lukashenko ocupa o poder em Belarus desde 1994, mas sua reeleição à Presidência, no ano passado, foi envolta em acusações de fraude e não foi reconhecida pela UE, que impôs sanções ao país leste-europeu.

Manifestantes contra a reeleição de Lukashenko em Belarus
Manifestantes contra a reeleição de Lukashenko em Belarus; denúncias aponta que muitos foram detidos e sofreram tortura - o que foi admitido pelo presidente

Milhares de manifestantes e ativistas de oposição foram detidos por tropas do governo após protestos em massa. A líder da oposição, Svetlana Tikhanovskaya, foi forçada a deixar Belarus após reivindicar vitória na eleição.

Sua equipe criticou a BBC pela entrevista com Lukashenko, por "dar voz a um ditador".

Na entrevista, realizada no palácio presidencial, a BBC questionou Lukashenko a respeito de manifestantes pacíficos que foram golpeados durante protestos. A BBC também mostrou ao líder imagens de pessoas saindo do centro de detenção de Okrestina, em Minsk, com sinais de tortura.

"OK, eu admito, eu admito, as pessoas apanharam em Okrestina", afirmou Lukashenko na entrevista. "Mas houve policiais que também apanharam (de manifestantes) e isso vocês (imprensa) não mostraram".

A BBC também questionou Lukashenko a respeito da repressão a entidades da sociedade civil - o governo ordenou o fechamento de 270 organizações não-governamentais no país desde julho.

"Vamos massacrar toda a escória que vocês (Ocidente) têm financiado. Ah, você está chateado que destruímos as suas estruturas! As suas ONGs, o que quer que sejam, que vocês estão financiando", respondeu.

A UE acusa Lukashenko - que é próximo ao líder russo, Vladimir Putin - de adotar uma "abordagem desumana e mafiosa" em sua liderança de Belarus.

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