Líder de Bolsonaro na Câmara culpa Anvisa por atraso na vacinação contra Covid

Eduardo Simões
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Entrada da Anvisa, em Brasília

Por Eduardo Simões

(Reuters) - O líder do governo do presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), culpou nesta quinta-feira a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pelo atraso no cronograma de vacinação contra a Covid-19 no Brasil.

Em discurso no plenário da Casa, Barros disse que o cronograma de vacinação não foi cumprido pois a agência não deu, até o momento, seu aval para as vacinas Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, e Sputnik V, do instituto estatal russo Gamaleya.

"Muitos bilhões de reais foram disponibilizados para o combate à Covid, vacinas compradas, contratadas, ainda com poucas vacinas autorizadas pela Anvisa e, portanto, atrasando o nosso cronograma de vacinação. Mas o governo fez e assinou os contratos. Nós temos 560 milhões de doses de vacinas contratadas", discursou o líder do governo, que recentemente falou em "enquadrar" a Anvisa -- uma agência reguladora independente do governo e que é um órgão de Estado.

"E contratará mais, porque, como estamos vendo, a programação de entrega de vacinas não pode ser cumprida porque não houve a liberação por parte da Anvisa nem da Covaxin, nem da Sputnik nem de outras vacinas que estão lá com pedido de uso emergencial", acrescentou, sem mencionar quais seriam essas outras vacinas.

Até o momento, a Anvisa autorizou a aplicação no Brasil da CoronaVac, vacina do laboratório chinês Sinovac que está sendo envasada pelo Instituto Butantan, e os imunizantes da AstraZeneca --envasado no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz-- e das norte-americanas Pfizer e Janssen, subsidiária farmacêutica da Johnson & Johnson.

A CoronaVac foi oferecida pelo Butantan ao Ministério da Saúde desde julho do ano passado, mas o contrato com a pasta foi assinado apenas em janeiro. Por várias vezes o imunizante foi criticado por Bolsonaro, que chegou a dizer que seu governo não o compraria e que ele não inspirava confiança por causa de sua origem.

Atualmente, a CoronaVac responde pela esmagadora maioria das doses de vacina contra Covid-19 aplicadas no Brasil e o Butantan, vinculado ao governo do Estado de São Paulo, entregou 41,4 milhões de doses da CoronaVac. A vacina da AstraZeneca, a única outra vacina contra Covid-19 sendo atualmente aplicada no país, teve 20 milhões de doses entregues ao ministério pela Fiocruz, vinculada ao governo federal.

A Pfizer afirma que em agosto do ano passado ofereceu um acordo para 70 milhões de doses de sua vacina contra Covid-19 ao Ministério da Saúde e não recebeu resposta. A pasta assinou somente em março contrato com a farmacêutica para compra de 100 milhões de doses. A primeira leva, de 1 milhão de doses, chegará ao Brasil nesta quinta.

Também somente em março o ministério assinou contrato para compra de 38 milhões da vacina da Janssen, com entrega a partir do segundo semestre.

A pasta também fechou acordos com o Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF), que comercializa a Sputnik V, e com a Bharat.

No final de março, a Anvisa negou certificado de boas práticas à fábrica da Covaxin na Índia e rejeitou pedido do ministério para importar doses da vacina. Entre os problemas apontadas pela agência reguladora estavam questões ligadas a esterilização e a falta de documentação e de dados necessários.

Nesta semana, a Anvisa também rejeitou pedido feito por governadores para importação de doses da Sputnik V, apontando que o vírus usado na vacina para carregar dados do coronavírus e gerar resposta imune do organismo pode ser replicar dentro do corpo humano --o que classificou de uma falha grave--, além da falta de dados e documentos que garantam a eficácia e segurança da vacina.

Nos dois casos a decisão da diretoria colegiada da Anvisa foi tomada por unanimidade e a agência esclareceu que tanto a Covaxin quanto a Sputnik V podem obter aval da agência no futuro, caso os problemas apontados pela área técnica do órgão regulador sejam sanados.

(Reportagem de Eduardo Simões, em São Paulo)