Economia desloca ideologia na estratégia diplomática da nova Cuba

Lorena Cantó

Havana, 17 abr (EFE).- Os problemas econômicos de Cuba são o principal foco da diplomacia do novo governo, com prioridade na busca de alianças financeiras não necessariamente baseadas nas afinidades ideológicas que definiram os acordos internacionais da ilha durante décadas.

Se Fidel Castro colocou Cuba no mapa pelo desalinhamento com os Estados Unidos e o apoio militar à independência de países africanos, seu irmão Raúl abriu o leque multilateral para atrair capital estrangeiro, mas também buscou "reinserir" e reforçar as relações do país na América.

Agora, o sucessor dos Castro herda um cenário complicado, com apertos econômicos piorados pela crise na Venezuela, os erros internos de gestão, o fracassado reaquecimento das relações com os EUA e um embate com a Organização dos Estados Americanos (OEA) que piorou após a chegada de governos conservadores aos principais países da região.

Como já havia ocorrido com os subsídios da extinta União Soviética, os envios de petróleo da Venezuela, principal aliado da ilha, sustentaram a economia cubana durante mais de uma década, mas nos últimos dois anos caíram pela metade.

"Cuba evidentemente tem que continuar o que Raúl fez na diversificação das suas relações econômicas externas, não pode manter e nem repetir uma dependência de um só cliente principal", afirmou o ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray, que lembrou que o próprio presidente é crítico da "velha mentalidade".

Essa mentalidade significa ter certeza de que as alianças ideológicas e governamentais trarão consigo bons resultados econômicos.

"Isso não aconteceu", afirmou Alzugaray, que citou as relações políticas com a China, que não representaram "grandes investimentos" do gigante asiático em Cuba, onde a sua presença é ínfima em comparação com outros países latino-americanos.

Alzugaray lembrou que a lentidão das reformas econômicas do governo e a paralisação do setor privado são sinais "que os mercados recebem de que aqui as coisas caminham muito lentamente".

Um exemplo da preponderância de economia sobre a ideologia é que um dos últimos encontros oficiais de Raúl Castro foi com o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, um país ideologicamente oposto a Cuba.

Para o professor Arturo López Levy, da Universidade do Texas, o futuro da política externa cubana será continuista "dado que enfrenta um contexto internacional que não muda e se retêm as bases programáticas da política externa de Cuba ditada pelos interesses e valores do Partido Comunista".

Nesse contexto, continua sendo essencial a relação e "resistência" aos EUA, "que teve e terá a prioridade na atenção de qualquer equipe de governo entanto o embargo for mantido", destacou López Levy.

Alzugaray disse acreditar que o próximo líder cubano continuará a mesma relação com os EUA mantida por Raúl Castro, que "assim que assumiu o poder começou a ter uma relação internacional de um tom mais pragmático que o de Fidel".

Mas a chegada de Donald Trump à Casa Branca e misteriosos problemas de saúde de diplomatas americanos em Havana mudaram o rumo do degelo. Tudo indica que a situação não melhorará a curto prazo, até porque a relação com Cuba não é uma prioridade da política externa do líder republicano.

Além do vizinho do norte, para López Levy "é de se esperar que, como balanço à difícil relação com Washington, Cuba continue buscando relações especiais com as grandes potências rivais China e a Rússia".

É evidente o interesse da Rússia em Cuba, reforçado pela agora estancada aproximação entre a ilha e os Estados Unidos. Embora seja improvável que Moscou apoie Havana sem contraprestações, essa relação "é hoje para a Rússia um símbolo de projeção extracontinental e status", argumentou o especialista.

No entanto, nenhum dos dois especialistas acha que ocorrerá um afastamento da Venezuela por enquanto.

Com a Europa se abre um novo cenário após a recente assinatura do primeiro tratado entre Cuba e o bloco, que põe fim à limitante "posição comum" que durante duas décadas submeteu o diálogo político aos avanços nas questões dos direitos humanos.

Precisamente com a União Europeia, e também com Canadá e Japão, "existe grande potencial para uma relação mais fluente se a reforma econômica decolar", opinou López Levy.

Em relação ao continente americano, a reaproximação de Raúl Castro aconteceu por uma firme aposta na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em contraste com sua frieza em relação à Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual Cuba foi suspensa pouco depois do triunfo da Revolução.

Embora esse veto tenha sido suspenso em 2009, Cuba não planeja um retorno à OEA tão cedo, devido às discrepâncias com o secretário-geral da organização, Luis Almagro, em temas como a Venezuela e a dissidência cubana. EFE