Líder da Al Qaeda foi morto por míssil com lâminas após meses de monitoramento

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Os primeiros sinais de que lideranças do grupo terrorista Al Qaeda estavam em segurança no Afeganistão vieram no ano passado, enquanto os Estados Unidos retiravam suas tropas do país após 20 anos de ocupação e deixavam vago um espaço para o Talibã retomar o poder.

Sempre houve receio de que a volta do grupo extremista islâmico ao governo criaria um porto seguro para terroristas no país da Ásia Central. Não deixou de surpreender, porém, que em menos de um ano Ayman al-Zawahiri, líder da Al Qaeda morto em operação no fim de semana, fosse encontrado vivendo em um bairro tranquilo da capital Cabul.

O egípcio, um dos responsáveis pelos atentados de 11 de Setembro ao lado de Osama bin Laden, foi alvo de uma operação culminada às 6h18 de domingo (31), noite de sábado no Brasil, atingido por um ataque de drone enquanto estava na varanda do terceiro andar de um prédio. O processo todo, no entanto, durou meses, como detalhou uma autoridade experiente da Casa Branca sob condição de anonimato.

Foi no começo deste ano que a inteligência americana identificou que a mulher, uma filha e netos de Zawahiri estavam escondidos em Cabul —segundo essa autoridade, por muito tempo os familiares do terrorista usaram técnicas para impedir que fossem seguidos.

Pouco depois, o próprio foi identificado no local. De acordo com o que foi relatado, o terrorista não foi visto mais saindo do esconderijo desde que chegou ao local, tendo sido observado uma série de vezes apenas na varanda.

Assessores e conselheiros de Biden, como Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional, foram informados em abril sobre a identificação do egípcio, que tinha a cabeça a prêmio de US$ 25 milhões. O presidente soube na sequência, e a Casa Branca decidiu que apenas um grupo muito seleto de pessoas seria informado do caso —a ponto de o Departamento de Defesa não se envolver na operação, que ficou a cargo da CIA, a central de inteligência.

As autoridades do governo acreditam que figuras importantes do Talibã estavam cientes da presença do chefe da Al Qaeda na capital afegã. Questionada sobre o conhecimento que a inteligência do Paquistão, onde se concentram células do grupo terrorista, teria do paradeiro de Zawahiri, a autoridade afirmou que não poderia não comentar.

Do abrigo, o médico egípcio continuava a produzir vídeos para apoiadores em que atacava os EUA —alguns deles ainda podem ser divulgados pela Al Qaeda, diz o governo americano. Nesta terça (2), o Departamento de Estado emitiu um alerta dizendo que o episódio pode levar a ameaças ou ataques da organização e de suas filiadas contra instalações ou cidadãos americanos no mundo.

A Casa Branca reforçou nos bastidores que o episódio deste fim de semana foi planejado de modo a evitar danos estruturais mais graves ao abrigo de Zawahiri, que pudessem deixar outras vítimas. A preocupação está ligada à pressão que se seguiu, no ano passado, a um ataque com drone a um imóvel em Cabul que matou dez civis; justificada como bombardeio a uma célula do Estado Islâmico, a ação foi, na verdade, "um erro trágico", os EUA admitiram depois.

Desta vez, a equipe de inteligência fez uma maquete do local, para ilustrar melhor as possibilidades de ataque e a apresentou a Biden durante uma série de atualizações do caso, entre maio e junho. Em 1º de julho, em reunião com o presidente e o diretor da CIA, William Burns, uma proposta de operação foi apresentada.

Havia um receio ainda de que o ataque atrapalhasse outras negociações em curso entre o governo americano e o Talibã, como o resgate do engenheiro Mark Frerichs, sequestrado em 2020, ou as tratativas para usar o espaço aéreo em operações contra o terrorismo.

Em 25 de julho Biden finalmente deu a autorização para a operação da CIA. Dias depois, na manhã de domingo, dois mísseis R9X​, um dos modelos Hellfire, atingiram o prédio e mataram o líder da Al Qaeda.

Esse tipo de míssil não explode e foi desenvolvido justamente para atingir alvos específicos; com 45 quilos, ele tem seis lâminas que giram em alta velocidade e podem dilacerar o corpo de alguém atingido —e, segundo a imprensa americana, romper paredes e tetos de carros. Outro líder da Al Qaeda, Ahmad Hasan Abu Khayr al Masri, tido como número dois da organização, já havia sido morto com uma dessas armas em 2017 na Síria, em uma operação da CIA, de acordo com o Wall Street Journal.

A família do terrorista estava em outras partes da casa e não foi atingida, segundo a autoridade da Casa Branca —que se disse "confiante, por meio de fontes e métodos de inteligência, que matamos Zawahiri e nenhum outro indivíduo". Depois do ataque, o Talibã retirou a família de Zawahiri do local e o esconderijo agora está vazio, segundo essa autoridade.

Os Estados Unidos, porém, não têm em mãos o corpo do terrorista —como ocorreu na morte de Osama bin Laden em 2011— nem nada que possibilite um exame de DNA. Mas a Casa Branca mantém informações de inteligência que garantem que o morto era mesmo o líder da Al Qaeda.

Zawahiri, 71, assumiu o comando da organização terrorista a partir da morte de Bin Laden. Ele fazia parte do grupo desde os anos 1990 e, à época do 11 de Setembro, era considerado um de seus principais líderes.

Egípcio de nascimento, também era tido como responsável por outros ataques a tropas e instituições americanas entre os anos 1990 e 2000. Ele é o segundo líder de organização terrorista morto com um drone americano em menos de um mês. Em julho, os EUA anunciaram que mataram Maher al-Agal, tido como um dos cinco líderes mais importantes do Estado Islâmico, na Síria.

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