Líder da Al Qaeda reaparece, mas para lançar livro de 850 páginas sobre corrupção

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Era um bom momento para Ayman al-Zawahiri, líder da organização terrorista Al Qaeda.

Com a retomada de Cabul pelo Talibã, sua rede pode ter encontrado novo refúgio nas montanhas afegãs. Os 20 anos dos atentados de 11 de Setembro, além disso, voltaram a recordar o mundo de sua ameaça.

O que Zawahiri fez, porém, foi publicar um livro de 852 páginas sobre a história da corrupção no mundo islâmico.

"Uma oportunidade perdida", diz o cientista político Barak Mendelsohn, um dos grandes especialistas em Al Qaeda. A nova obra é "patética e entediante", segundo ele, e tão ruim que "entorpece a mente" do leitor. O estilo é rebuscado, embolado. E, para piorar, Zawahiri apresenta o livro como apenas a primeira parte de um trabalho mais extenso.

A grande lição do tomo talvez seja a de que o líder dessa organização --um dos símbolos do terrorismo internacional-- não esteja conseguindo mais se conectar com seus seguidores.

Zawahiri é um veterano radical. O egípcio passou boa parte de seus 70 anos na militância. Entrou para a Irmandade Muçulmana ainda na adolescência e fundou o grupo terrorista Jihad Islâmica em 1979. Foi preso por planejar um atentado ao então presidente egípcio, Anuar Sadat. Uniu seu grupo à Al Qaeda nos anos 1990, projetando seu nome ainda mais.

Tamanha é sua importância que, hoje, os Estados Unidos oferecem uma recompensa de US$ 25 milhões (R$ 134 milhões) por sua cabeça.

Mas Zawahiri não tem o mesmo carisma de seu antecessor, Osama bin Laden, morto em 2011. Tampouco o apelo de Abu Musab al-Zarqawi, líder do braço da Al Qaeda no Iraque morto em 2006.

Foi sob o mando disfuncional de Zawahiri, aliás, que na última década a Al Qaeda perdeu espaço para o Estado Islâmico, uma organização terrorista que chegou a controlar partes da Síria e do Iraque.

Uma das explicações para a dificuldade do egípcio de se conectar com sua base radical pode ser a saúde frágil. O líder da Al Qaeda já foi dado por morto diversas vezes. Talvez um dos maiores impactos de seu novo livro, inclusive, tenha sido servir de prova de que Zawahiri segue vivo, produzindo.

Pode ser, também, que ele esteja acuado e não tenha condições técnicas de produzir uma mensagem de mais impacto. Mesmo seus vídeos mais recentes têm qualidade bastante baixa.

Mas a principal explicação parece ser mesmo o descompasso entre uma geração de veteranos liderando jovens que vivem em outro tempo. "Ele não vê que o mundo mudou", diz Mendelsohn.

Outras organizações terroristas estão investindo em mensagens curtas, circuladas em redes sociais. Vídeos com cenas de explosões, trilhas sonoras dramáticas, na linguagem dos videogames.

O Estado Islâmico, em especial, entendeu bastante bem o poder da comunicação dinâmica nas redes. Zawahiri, porém, ainda grava discursos longos, monótonos -e publica catataus de centenas de páginas que não geram burburinho nem mesmo entre seus seguidores mais fiéis.

Outro problema é o fato de a mensagem da Al Qaeda não mover mais os militantes como antes. O grupo foi construído em cima da ideia de atacar os Estados Unidos, seu grande inimigo, mas esse lema está desconectado da realidade, afirma Mendelsohn.

Organizações terroristas têm feito outros cálculos. O atentado em 2001 foi sem dúvida uma vitória simbólica. Por outro lado, fez com que o governo americano derrubasse o Talibã no Afeganistão, desmembrasse a Al Qaeda e matasse Bin Laden.

Nesse contexto, grupos radicais têm estrategicamente se concentrado nos inimigos domésticos. Não por acaso o Talibã, de volta em Cabul, tem investido em uma mensagem menos agressiva em relação a Washington.

A ineficiência de Zawahiri, no entanto, não significa que a Al Qaeda tenha deixado de ser uma ameaça. Talvez não represente o mesmo perigo que no passado, mas o grupo ainda existe e pode aproveitar esse momento para se reorganizar no Afeganistão. Agências de inteligência já apontam o movimento de militantes na região.

Ademais, o enfoque apenas na liderança de Zawahiri pode enganar, segundo Alia Brahimi, do Atlantic Council. Ela é especialista na ideologia do terrorismo. "Zawahiri não é o coração pulsante da Al Qaeda", afirma. A organização ainda se sustenta no mito do 11 de Setembro e nas operações de suas franquias regionais, que funcionam com bastante autonomia.

Com isso, o grupo não está tão vulnerável assim à fragilidade e ao descompasso de seu líder.

Zawahiri não se proclamou califa nem disse ser o líder de todos os muçulmanos do mundo. Ele é diferente, assim, de Abu Bakr al-Baghdadi, antigo chefe do Estado Islâmico, morto em 2019. Sua sorte ou seu revés, dessa maneira, podem afetar pouco as operações diárias da organização.

"Devemos, sim, nos preocupar com a Al Qaeda, mas sem que seja de uma maneira desproporcional à ameaça deles", diz Mendelsohn. "O risco de um atentado vai continuar a existir por bastante tempo. A pergunta é que tipo de ataque. Não deve ser na escala do 11 de Setembro. Mas seguiremos vigilantes."

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