Líder Kanamari explica canção cantada por Bruno Pereira em expedição na floresta

Amigo do servidor da Funai Bruno Pereira, a quem se refere como irmão, o presidente do Conselho Distrital de Saúde dos Kanamari, Aldair Kanamary, revela a música cantada pelo indigenista em meio à floresta, durante expedição em 2019, era a história de uma mãe arara chamando seus filhotes na porta do ninho para lhes dar comida no bico. A canção é uma das muitas compostas pelos próprios indígenas para o ritual da ayahuasca (chá medicinal), que a etnia, conhecida por ter fortes raízes mitológicas, mantém como tradição há milhares de anos. A cada ritual, novas composições são acrescidas ao acervo das aldeias. A canção, que era uma das que o indigenista mais gostava, faz parte de uma coletânea gravada em CD pelos Kanamari, que ganharam o Prêmio Cultura Indígena. Em 2013, aconteceu o IV Encontro de Lideranças e V Festival Cultural Kanamari, quando foi lançado o álbum duplo Tüküna Nawa Waik - Musicalidade Kanamari. O encarte apresentado pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI) é um trabalho minucioso de transcrições, traduções e textos sobre os cantos e rituais da etnia.

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Bruno, que considerava os Kanamari como sua família, participou de muitos desses rituais da ayahuasca, que para os indígenas é momento em que o futuro se revela a eles e também quando podem fazer contato com parentes distantes e ancestrais. Para o servidor da Funai, segundo Aldair, era uma forma também de se manter em contato com a família quando estava longe de casa ou participava de alguma expedição na Amazônia. O líder Kanamari diz que o servidor da Funai era uma pessoa extremamente doce e comprometida com os indígenas e os tratava como irmãos. Para eles, diz Aldair, era um protetor.

- Estamos devastados e sem rumo. Ele era a mãe arara que nos dava comida no bico. O Bruno não era um homem branco que chegava aqui para nos observar ou para nos ensinar. Ele gostava de se misturar com a gente, nos tratava como irmãos, comia a nossa comida, dormia como nós dormimos. Ele era um de nós apesar de ser branco, alto e barbudo. Às vezes, quando eu encontrava com ele na cidade, ele dizia que estava com saudade. Saudade da nossa popeca, que é um peixe enrolado em folhas que fazemos na fogueira. Ele era especial demais - diz Aldair, que acompanha os desdobramentos das buscas e informa que há indígenas Kanamaris envolvidos na operação que acontece na região do Vale do Javari para tentar localizar o paradeiro de Bruno e do jornalista inglês Dom Phillips, ambos desaparecidos desde domingo (05/06).

Segundo Aldair, desde que ouviu a música pela primeira vez, Bruno decorou a letra e passou a cantá-la, inclusive levando-a para outras aldeias, promovendo um intercâmbio cultural espontâneo entre as tribos. Era por isso que ele entoava a canção durante a expedição em que estava acompanhado por Korubos. Bruno, que chegava a passar dez dias com os Kanamari na floresta, costumava dizer para Aldair que ele era um deles.

- Ele protegia a todos. Mas os Kanamari têm uma cultura muito festiva, musical, estamos em contato com os homens brancos desde o período de exploração dos seringais. Muitos de nós falam português, o que também facilitava o nosso contato. Nós perdemos nosso grande protetor - diz Aldair, que é a voz da música "Wahanararai wahanararai/marinawa kinadih/hih hih hih", do CD dedicado à musicalidade dos Kanamari. A música começa com uma onomatopeia, uma imitação do que seria o canto da mãe arara.

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O indigenista e professor Sanderson Oliveira, da Universidade Federal do Amazonas, ajudou a desvendar o significado da canção. Ele estuda há anos as etnias da região. Ele explica que a música Kanamari reflete a forma como a etnia - e por conseguinte Bruno - vê a natureza. Sanderson conta ainda que, no início dos anos 2000, Bruno Pereira começou a fazer uma série de visitas a povos originários e teve papel importante na produção do CD com as músicas. Esse movimento, lembra, foi acompanhado de perto por vários indigenistas.

- Penso que o Bruno faz parte de um grupo (indigenistas) que chega em Atalaia com uma outra perspectiva indigenista. Havia muito indigenismo marcado pelos conflitos de demarcação de terras, ligado à política de garantia de terras. O Bruno e outros colegas começam a ter uma percepção de que indigenismo é também estar na aldeia, é aprender mais sobre os indígenas, como eles vivem, o que fazem. Isso também faz parte do indigenismo mais tradicional, mas talvez não fosse a marca principal dessa geração antes do Bruno. O Bruno faz parte desse novo movimento, ele vai para lá, aprende as músicas, não sei se já era ayahuasqueiro, mas ele passa a tomar ayahuasca com os indígenas. Os Kanamari fazem o ritual. Inclusive no protesto que fizeram (pelo desaparecimento do Bruno e do Dom, em Atalaia do Norte, ontem (14/06), eles cantam a mesma música do vídeo - observa.

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