Catar se reconcilia com seus rivais do Golfo em cúpula da 'solidariedade'

Corresponsales de la AFP en el Golfo
·4 minuto de leitura

As relações diplomáticas entre o Catar e os quatro países do Golfo que o boicotaram por mais de três anos foram totalmente restauradas, anunciou nesta terça-feira (5) o ministro saudita das Relações Exteriores, após uma cúpula regional na Arábia Saudita.

"Hoje foi decidido [...] virar a página e restabelecer todas as relações diplomáticas" com o Catar, declarou à imprensa o príncipe Fayzal bin Farhan Al Saud.

Os países do Golfo assinaram nesta terça um acordo "de solidariedade e estabilidade" e uma declaração final em uma cúpula destinada a diminuir as tensões entre Catar e vários de seus vizinhos, incluindo a Arábia Saudita.

"Os esforços (do Kuwait e dos Estados Unidos) nos ajudaram a chegar a um acordo (...) em que afirmamos a solidariedade e a estabilidade do Golfo e dos países árabes e muçulmanos", anunciou o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman, ao abrir esta cúpula realizada em Al-Ula (noroeste da Arábia Saudita).

Ele então se reuniu com o emir do Catar, xeque Tamim bin Hamad Al Thani. Um encontro bilateral dedicado, segundo a agência de notícias oficial saudita SPA, ao "desenvolvimento das relações entre os dois países e à ação comum dos países do Golfo".

Os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) assinaram este pacto - chamado "Declaração de Al-Ula" - na presença de Jared Kushner, genro e assessor do presidente dos EUA, Donald Trump.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif, reagiu parabenizando o Catar por "sua resistência à pressão" e garantiu a seus "outros vizinhos árabes que o Irã não é um inimigo nem uma ameaça". Também pediu que aceitassem a "oferta" iraniana "por uma região forte".

A reunião começou com grandes esperanças, depois que o Kuwait, mediador do Golfo, anunciou na noite de ontem que a Arábia Saudita reabriu seu espaço aéreo e todas as suas fronteiras com o Catar, após três anos e meio de boicote e mensagens hostis.

Em junho de 2017, a Arábia Saudita e três países aliados (Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito) romperam os laços com Doha, acusando-a de apoiar grupos islâmicos, de manter boas relações com seus adversários iranianos e turcos e de semear desordem na região.

Sempre negando todas as acusações, os catarianos dizem ser vítimas de um "bloqueio" e de um ataque à sua soberania.

O CCG nasceu há 40 anos com a ambição de aproximar seus membros política, econômica e militarmente. Fazem parte do grupo Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar, Omã e Kuwait.

- "Amigos como antes" -

Os Estados Unidos intensificaram a pressão sobre os países do Golfo para alcançar uma reconciliação, com o objetivo de isolar cada vez mais o Irã, dentro de sua estratégia de pressão máxima contra Teerã.

O príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman, afirmou que o objetivo da cúpula é criar uma frente comum diante dos "desafios", especialmente "o programa nuclear iraniano, seu programa de mísseis balísticos e seus projetos de sabotagem".

Nesta terça-feira, o emir do Catar foi recebido na pista do aeroporto com um sorriso e um abraço pelo príncipe Bin Salman. Um gesto que seria impensável algumas semanas atrás.

As respectivas mídias da Arábia Saudita e Catar, normalmente muito hostis com o lado oposto, mudaram radicalmente de tom.

"Veremos todos os sauditas aqui e, também, todos os catarianos irão à Arábia Saudita. Seremos amigos como antes e ainda mais", disse à AFP Hisham Al-Hashmi, um catariano vestido com uma túnica branca tradicional.

A ruptura com o Catar foi acompanhada de medidas de represália: fechamento das fronteiras e do espaço aéreo aos vizinhos do Catar e restrição aos deslocamentos de catarianos, o que provocou a separação de famílias mistas.

- "Negociações difíceis" -

O quarteto havia formulado 13 condições para a retomada das relações com Doha, em particular o fechamento da rede de televisão Al-Jazeera, desprezada por muitos regimes árabes, e compromissos de pôr fim ao financiamento de grupos extremistas, ou ainda o fechamento de uma base militar turca no Catar.

Doha não cedeu a nenhum desses pedidos.

Diplomatas, observadores e alguns artigos na imprensa sugeriram que nenhum desses temas de controvérsia será abordado durante a cúpula, o que parece afastar, por enquanto, a perspectiva de uma resolução geral da disputa.

"Como qualquer reconciliação, terá obstáculos e poderá levar a um impasse e tensões", declarou à AFP Bader Al-Saif, professor adjunto de história na Universidade do Kuwait.

bur-gw/aem/bfi/gk/bc/zm/age/tt/aa/ic/mvv