Líderes indígenas dizem que missionários tentam convencer aldeias na Amazônia a não tomar vacina

Anthony Boadle
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Por Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - Equipes de profissionais de saúde que trabalham na campanha de vacinação contra o coronavírus em aldeias indígenas remotas na Amazônia brasileira encontram resistência feroz em algumas comunidades onde missionários evangélicos estão provocando o medo em relação à vacina, disseram líderes indígenas.

Em uma aldeia do sul do Estado do Amazonas, o povo Jamamadi expulsou profissionais de saúde com arcos e flechas em visita neste mês, disse Claudemir da Silva, líder apurinã que representa comunidades indígenas do rio Purus, afluente do rio Solimões.

"Não é em todas as aldeias, em aldeias que têm missionários ou igrejas evangélicas com pastores que estão fazendo a cabeça dos indígenas para não tomar vacina com essas histórias de que tem chip, que vai virar jacaré, umas desculpas doidas", disse o líder por telefone.

A questão acrescenta aos temores de que a Covid-19 pode assolar a população indígena brasileira de mais de 800 mil pessoas, cujos hábitos de vida em moradias compartilhadas e acesso à saúde muitas vezes precário a torna uma prioridade no programa nacional de imunização.

Líderes indígenas culpam o presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus apoiadores mais calorosos na comunidade evangélica por alimentarem o ceticismo em relação às vacinas contra o coronavírus, apesar do elevado número de mortes no país, que só fica atrás dos Estados Unidos.

"São várias comunidades que estão sendo influenciadas por esse fundamentalismo religioso de missionários que através de suas pregações estão colocando os indígenas contra a vacina", afirmou Dinamam Tuxá, líder da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), maior organização indígena do país.

A Associação Brasileira de Antropologia denunciou grupos religiosos não especificados em nota na terça-feira por espalharem teorias da conspiração falsas para "sabotar" a vacinação dos povos indígenas.

Muitos dos pastores das igrejas brasileiras urbanas estão pedindo que seus seguidores sejam vacinados, mas missionários em territórios remotos parecem não ter recebido a mensagem.

"Tem alguns pastores, infelizmente, são aqueles que não têm sabedoria e ficam passando essa desinformação a nossos irmãos", disse o pastor Mário Jorge Conceição, da igreja Assembleia de Deus Tradicional em Manaus.

O pastor Ronaldo Fonseca, ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência do governo Michel Temer e ex-deputado federal, disse que ele e os líderes com que conversa são "absolutamente a favor" da vacinação contra Covid-19, destacando-a a única forma para se livrar do vírus.

"Ela é boa para tudo, proteger a população e a economia do país. O Brasil só vai voltar com a economia 100% após metade da população vacinada. Ela é um avanço, não tem porque se desconfiar dela", disse.

O líder evangélico disse desconhecer relatos de missionários pregando contra a vacinação contra Covid-19 em aldeias da Amazônia. Mas não se esquivou de comentar a situação.

"Desconheço, mas acho um absurdo se tiver. Não é normal, indígenas precisam ser preservados, estão até muito expostos", afirmou.

A agência indígena de saúde Sesai disse à Reuters em nota que está trabalhando para conscientizar sobre a importância da imunização contra o coronavírus.

Bolsonaro já minimizou a gravidade do vírus e disse que não vai tomar a vacina. Ele criticou principalmente o imunizante mais disponível no país atualmente, fabricado pela chinesa Sinovac Biotech, citando dúvidas sobre suas origens.

Em evento em dezembro, o presidente criticou a Pfizer ao afirmar que a empresa se recusou a assumir a responsabilidade por possíveis efeitos colaterais em negociações com seu governo.

"Se você virar jacaré, o problema é seu. Se você virar o super-homem, ou nascer barba em mulher ou algum homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso", disse Bolsonaro.

(Reportagem adicional de Bruno Kelly, em Manaus, e Ricardo Brito, em Brasília)