'Língua negra' se forma nas areias de Copacabana após chuva

Uma "língua negra" provocada pelo extravasamento de esgoto de uma elevatória da Águas do Rio atingiu as areias da praia de Copacabana na noite desta quarta-feira por causa da chuva. Em nota, a concessionária afirma que todas as suas elevatórias estão em pleno funcionamento e que uma equipe que atua no local desde a noite de quarta-feira identificou que o extravasamento parou logo após a redução da intensidade da chuva. Na manhã desta quinta-feira, funcionários da empresa limpavam as areias da praia.

Ainda de acordo com a empresa, por causa da estrutura do sistema de drenagem e de esgotos da Zona Sul, é prevista ocorrência de extravasamentos de elevatórias em caso de chuvas fortes. A concessionária afirma que atua para que esses eventos sejam "cada vez mais raros e menos impactantes nos canais e praias da cidade". Segundo a Águas do Rio, a mancha escura não é formada de esgoto concentrado, mas do escoamento de água da chuva com presença de efluentes diluídos e sujeira de asfalto. A empresa diz que coletou amostras que vão passar por análises e que propõe ao INEA um novo protocolo de limpeza para situações de extravasamento.

Segundo o biólogo Mário Moscatelli, as "línguas negras" são um problema histórico e recorrente no Rio de Janeiro e que acontece por causa da mistura da água da chuva com o esgoto.

— Quando chove, ocorre uma mistura das águas da lavagem das ruas com o esgoto que extravasa para as galerias de águas pluviais e tudo escoa para a praia. É um problema histórico que desde que nasci em 1964 e mesmo antes, acontecia. A expectativa é que esse e tantos outros problemas sejam finalmente equacionados. O que não pode é uma cidade que tem como seu principal produto econômico o ambiente, isto é, suas praias, continuar a tratar esse problema da forma que vinha tratando. Línguas negras são péssimas para o ambiente, para a economia e para a saúde das pessoas — afirma o especialista.

O biólogo sugere duas medidas que podem ajudar a resolver o problema: o levantamento de quais são as fontes poluidoras a partir de ligações clandestinas, e a neutralização dessas emissões, e a "viabilização de uma galeria que possa suportar a carga de águas poluídas pela lavagem das ruas e encaminhá-las para o interceptor oceânico".

— Seria basicamente um interceptor que evitaria que a água das chuvas, contaminadas pela sujeira das ruas e potenciais conexões clandestinas de esgoto, chegassem na praia. Ou seja, não haveria mais chegada de águas pluviais na praia — explica.

Segundo o professor de Engenharia Costeira da Coppe UFRJ, Paulo Rosman, a obra feita no coletor de Copacabana na década de 1970 teve como objetivo resolver o problema da língua negra, e tem cumprido sua função. Ele classificou o acontecimento de raro e disse que o extravasamento já é previsto.

— Não resolve 100%, porque dependendo da intensidade da chuva e da duração não dá tempo de a galeria acumular tudo. Essa solução já foi feita nos anos 1970 e tem funcionado muito bem por 50 anos. Eventualmente, em uma chuva excepcional, em uma condição incomum há um extravasamento. Esse extravasamento é um problema sim, que ocorre com que frequência? Raramente. E que depois de ocorrido, é resolvido em pouco tempo. Se quiser construir uma mega obra, reformar todo o sistema, o custo é desproporcionalmente alto em relação ao tamanho do problema. Essa possibilidade de extravasamento eventual ela já está na conta — argumenta.

Mas o problema afeta os moradores da região, que reclamam do mau cheiro, além da poluição. O presidente da associação de moradores de Copacabana, Horácio Magalhães, participa de discussões sobre o tema desde o início dos anos 2000 para a resolução das línguas negras na praia.

— É preciso que a concessionária discuta soluções para mitigar esse problema, porque acaba por ofuscar nosso cartão-postal, que é a praia de Copacabana. A gente fica muito triste, primeiro porque é um impacto visual, um cartão-postal sendo ofuscado por um cenário daqueles. E segundo, é o impacto ambiental. As medições ali sempre atestaram que a qualidade da areia era muito ruim, por causa da ocorrência dessas línguas negras — afirma o morador.

A Águas do Rio afirma que está desenvolvendo com o INEA a criação de um convênio para fiscalizar o despejo irregular de esgoto na galeria de água pluvial, que deve começar no próximo mês.

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