Laços de família: Mãe e filho, marido e mulher e irmãos gêmeos contam como é trabalhar juntos num hospital

O que a vida uniu, nem o trabalho separa. Bem que esse poderia ser o lema de Marcela e Yuri Neves, Flávio e Carolina Bonfim, e Iago e Felipe Carega. Os sobrenomes iguais nos crachás revelam o parentesco que une os profissionais do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, na Zona Norte. Respectivamente, mãe e filho, marido e mulher, e irmãos gêmeos, eles contam como é a experiência de compartilhar o ambiente doméstico e de trabalho. E também como foi estar no olho do furacão durante o auge da pandemia, na unidade destacada pela prefeitura do Rio para ser referência no município no atendimento aos pacientes com Covid-19.

— Trabalhei a pandemia toda no CTI de pacientes graves. Foi tenso, porque a doença surgiu abruptamente, com uma gravidade importante e letalidade alta, com pacientes evoluindo mal, e ainda havia o temor da contaminação. Mas era importante também que houvesse pessoas que tratassem daquelas que estavam com a doença — conta a médica Carolina Ramos Bonfim, de 41 anos.

Plantonista do CTI, Carolina divide o ambiente de trabalho com o marido Flávio Miranda de Bonfim, também de 41. Os dois se conheceram na adolescência, quando cursavam o ensino médio, antigo 2º grau. Naquela época ambos já tinham planos de estudar Medicina. O caminho dos dois se desencontrou e só veio se cruzar novamente anos depois.

Nesse meio tempo, Carolina cursou Odontologia e chegou a atuar na área. Só após formada reencontrou Flávio, que estava concluindo a faculdade de Medicina. Iniciaram o namoro, se casaram em 2006 e tiveram dois filhos. Há dois anos ela também se tornou médica, e surgiu a oportunidade de trabalhar ao lado do marido em plantões semanais.

— Como minha esposa está formada há menos tempo e eu tenho uma prática de 16 anos, sempre estive presente (ao lado dela), tirando dúvidas no sentido de prestar um bom serviço para o paciente— afirma Flávio sobre a parceria profissional com a mulher.

O desafio da pandemia

Yuri Neves, de 23, trabalha há cerca de um ano como maqueiro no Ronaldo Gazolla. Quem o levou para o hospital foi sua mãe Marcela, de 48, que chegou à unidade um ano antes e é auxiliar de serviços gerais. Mãe e filho já trabalharam no mesmo horário e plantão. Desde novembro ela trabalha de dia, e ele, à noite.

— Não vejo desvantagem de trabalhar com a mãe. Tem gente que não gosta. Eu adoro. Como somo amigos, dá tudo certo. Quando éramos do mesmo plantão, íamos e voltávamos e também almoçávamos juntos — diz.

Como os dois moram sozinhos em Coelho Neto, na Zona Oeste, não havia grandes preocupações de levar o vírus para casa. Era só tomar os mesmos cuidados adotados no hospital. A preocupação maior era com uma tia idosa que mora em outra residência, no mesmo quintal. Por estarem no olho do furação, a situação foi tensa no começo.

— Apesar de todo os cuidados e aparatos de EPI, dava medo. Mas encarei e tirei numa boa. Não peguei uma gripe — diz Marcela.

Os médicos Iago e Felipe Carega, de 29 anos, sempre tiveram um a companhia do outro. Na infância e na adolescência, passadas no interior da Bahia, estudaram na mesma escola. Quando chegou a hora de escolher o caminho profissional, ambos optaram por medicina e se prepararam para o vestibular no mesmo cursinho, já no Rio. Mas acabaram passando para faculdades diferentes.

Depois de formados, a atuação profissional que os separou no início — Felipe foi para Macaé e Iago permaneceu no Rio — acabou por reuni-los novamente. Desde o fim do ano passado, Felipe dá plantão uma vez por semana na equipe chefiada pelo irmão gêmeo no Ronaldo Gazolla:

— Como eu moro em outra cidade, é um incentivo a mais sair para trabalhar sabendo que vou encontrar o meu irmão. Vou mais animado do que iria normalmente, e é bom porque a gente compartilha ideias, questões de conduta de pacientes, e um ajuda o outro. É muito bom.

Iago está no hospital há dois anos, aonde chegou no começo da pandemia. Ele revela que havia dias em que o plantão era cansativo e com muita rotatividade nos leitos, devido às mortes. A que mais o marcou foi a de um paciente de 24 anos.

— Ele não tinha comorbidades. Um dia olhou para mim, perguntou se ia ficar bem, e em menos de 24 horas morreu. Nesse momento, o sentimento é de impotência — lamenta o clínico geral.

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