Lado B da onda portuguesa, 'Mister da Baixada' tem Jesus como inspiração e busca sucesso na B2 do Carioca

Marcello Neves
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João Mota obedece uma rotina bem estabelecida: acorda cedo, estuda todos os dias e dirige até Xerém, em Duque de Caxias, para treinar o Tigres. Português, o 'Mister da Baixada' vai na contramão da onda lusitana que invadiu o Brasil. Longe da idolatria de Jorge Jesus ou Abel Ferreira, o técnico de 54 anos tenta o sucesso nas divisões inferiores. Hoje, estreia no segundo turno da Série B2 do Campeonato Carioca, diante do Mageense, às 15h (de Brasília), no Atílio Marotti.

Nascido em Lisboa, o Mister teve passagem relevante pelo Sporting e foi convocado cinco vezes para a seleção portuguesa. Como treinador, porém, ainda busca se encontrar. Mesmo que seus principais trabalhos tenham sido nos Emirados Árabes e com o sub-20 da Arábia Saudita, foi no Brasil onde decidiu se estabelecer. Não apenas pelo esporte, mas por causa de sua família.

Durante passagem pela Aparecidense, em 2013, João Mota conheceu a fonoaudióloga Claudia Mota, com quem se casou e teve três filhos. "É mais fácil seguir como treinador no Brasil do que ela se estabelecer em Portugal", conta. Ele justifica essa "facilidade" exatamente pela entrada dos portugueses no país, algo que não era comum anos atrás.

— Como português, cresci vendo brasileiros. Colegas, treinadores... Luiz Felipe Scolari fez história em Portugal, por exemplo. Não vejo os treinadores portugueses melhores que os brasileiros, mas acredito que houve uma revolução na forma de entender o jogo e aconteceu uma estagnação na metodologia brasileira depois que foi pentacampeonato mundial. As pessoas acharam que não tinham que mudar nada — conta João.

Mota admite que não está na elite da categoria, mas não abre mão de sua filosofia "parecida com a de Jorge Jesus". O ex-técnico do Flamengo é uma inspiração entre os que passaram recentemente pelo Brasil, assim como Jesualdo Ferreira, ex-Santos. Já Ricardo Sá Pinto, do Vasco, é quem mais gera dúvidas ao treinador.

— Conheço o Jesus e somos muito parecidos na exigência. Ganhar tem que fazer parte nossa vida. O futebol é jogado por seres humanos. Com relação ao Sá Pinto, precisamos ver onde ele está dentro do futebol português. O Jesus é elite, o Jesualdo [Ferreira] é um mestre, nós aprendemos só de escutá-lo. O Abel [Ferreira] está caminho dos grandes. Mas tive dúvidas sobre a vinda do Sá Pinto porque sei como se pensa aqui. Fiquei na dúvida se ele daria certo pela dificuldade que o Vasco atravaessa atravasse e pela filosofia dele. Não é um treinador de elite assim como também não sou — declara.

Na Série B2, o Tigres ficou na 4ª colocação do Grupo B da Taça Maracanã, com apenas um de distância da zona de classificação. Para o Mister, a maior dificuldade é trabalhar com jogadores que você sabe que não seguirão no clube.

— O que fazem no Brasil é um crime. Não faltam treinadores que querem ganha dando chutão, mandando jogador cair no chão. Isso me deixa um pouco desanimado. Vejo o jogador brasileiro como um diamante que está todo sujo e precisamos limpá-lo. Isso se faz com formação. O atleta brasileiro tem uma boa relação com a bola, mas uma péssima relação com o jogo. Nós precisamos de pessoas que ensinem aos jogadores.