Ladrões de Cinema, um legado do cinema brasileiro interpretado por Milton Gonçalves

Cena do filme de Fernando Coni, estrelado por Milton Gonçalves (segundo da esquerda para a direita) / Imagem: Reprodução/ MUBI
Cena do filme de Fernando Coni, estrelado por Milton Gonçalves (segundo da esquerda para a direita) / Imagem: Reprodução/ MUBI

O ator e diretor Milton Gonçalves morreu no Rio de Janeiro nesta segunda-feira (30), aos 88 anos. Ícone da TV, com mais de seis décadas de carreira na dramaturgia, o ator natural de Minas Gerais participou de mais de 40 novelas e mais de 50 filmes, como o "Cinco vezes favela" (1962), "A rainha Diaba" (1974), "O beijo da mulher aranha" (1985), "O Que é isso, companheiro?" (1997) e "Carandiru" (2003), entre outras produções. Mas foi em "Ladrões de Cinema" (1977) que muito do que Milton pregava foi discutido.

O longa-metragem do cineasta baiano Fernando Coni retrata a história de um grupo de ladrões que rouba durante o Carnaval, no Rio, o material de filmagem de uma equipe de cineastas norte-americanos que estavam documentando um bloco da folia. Os ladrões, moradores do Pavãozinho, resolvem fazer um filme, em vez de vender os equipamentos, e buscam expressar a realidade do Brasil - com o tema da Inconfidência Mineira.

O filme tem influência do movimento da antropofagia cultural, onde o país passava pela ditadura militar. Milton Gonçalves interpretou o personagem Luquinha, líder do grupo, que se propôs a dirigir a obra e organizar todas as cenas e a equipe, formada por moradores da comunidade e os outros ladrões, nas “locações” de filmagem. Outros artistas no elenco eram Antônio Pitanga, interpretando Fuleiro, Wilson Grey ("Guerra do Sexo" e "O Rei do Baralho") como Urso, a dama da dramaturgia Ruth de Souza ("Sinhá Moça") faz uma ponta como a Rainha Louca e Léa Garcia ("Escrava Isaura") interpreta Carlota Escrava.

A produção traz toda a energia de um carnaval, sendo um dos filmes brasileiros mais simbólicos no que tange à metalinguagem. Com cenas que remontam o Brasil, se recria o mito do herói, no filme sendo representado por Tiradentes.

Muito antes de obras como Cidade de Deus (2002) e Bacurau (2019), em que atores formados se misturam com a população residente dos locais de filmagem, Ladrões de Cinema já conversava com um Brasil marginalizado, contando com moradores da favela do Pavãozinho dando um tom mais realista e menos caricato ao filme.

No final do longa, os policiais prendem os meliantes e acabam devolvendo os equipamentos e a filmagem para os norte-americanos, que levam o filme para os Estados Unidos, lançando-o com o nome “Sweet Thieves” (Ladrões Doces), com sucesso de público e crítica.

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