Lama e casas inundadas em cidade do sul da Ucrânia após ataque russo contra represa

No porão da casa de Lyubov Adamenko, dezenas de jarros flutuam em água suja. A lama cobre seu bairro em Kryvyy Rih, uma cidade do sul da Ucrânia, depois que o exército russo explodiu outra represa.

"Consegui salvar todas as minhas compotas", conta a mulher, mas ainda faltam muitas peças. Durante o verão, conta a idosa, ela coloca em jarros de vidro as frutas e verduras que pretende comer no inverno.

Uma tradição de pessoas humildes, que permite garantir a alimentação, assim como economizar dinheiro, quando o frio aperta, explica.

Seus avós, que construíram a casa modesta onde ela mora na época da União Soviética, faziam ao mesmo, graças a uma pequena horta no jardim.

No próximo inverno, porém, a comida que preparou durante o verão terá um sabor amargo. O exército russo explodiu na quarta-feira a represa de Karachun, construída na década de 1930, quando Ucrânia e Rússia eram parte do mesmo país.

A represa ficava a poucos quilômetros de sua casa. "Eu costumava jogar lá quando era jovem", lembra a mulher, que completa 70 anos na próxima semana. "Os russos são piores que porcos", afirma com amargura.

- "Guerra contra os civis" -

Oito mísseis de cruzeiro destruíram na quarta-feira um muro do reservatório de Karachun, de acordo com Kiev.

O rio Inhulets, no limite do bairro de Lyubov Adamenko, subiu vários metros, inundando mais de 100 casas, segundo autoridades locais. Na tarde de sexta-feira, algumas ruas em Kryvyy Rih permaneciam cobertas de lama.

"O Estado terrorista (russo) continua a executar uma guerra contra os civis", disse o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que nasceu nesta cidade. Moscou quer "espalhar o pânico, deixar as pessoas sem energia elétrica, aquecimento, água e comida", acrescentou.

Poucos dias antes, as autoridades ucranianas haviam denunciado bombardeios russos contra infraestruturas estratégicas, que provocaram grandes cortes de energia elétrica em muitas regiões.

"(Os rusoss) estão irritados porque nosso exército está provocando o recuo deles com nossa contraofensiva", que tem muito êxito no leste, mas um pouco menos na região de Kherson (sul), vizinha de Kryvyy Rih, disse Svitlana Chpuk, moradora de 42 anos.

"É a guerra. Decidiram simplesmente nos inundar, a nossa cidade", suspira a mulher, com botas de borracha e que também teve a casa atingida.

Ao destruir a represa, Moscou "queria elevar o nível da água no rio Inhulets para afetar as pontes flutuantes instaladas pelo exército ucraniano no sul", afirmou à AFP Sergui Zgurets, analista militar baseado em Kiev.

- 'Desmoralizar' -

O Instituto para o Estudo da Guerra, um centro de pesquisas independente com sede nos Estados Unidos, tem a mesma opinião. O rio Inhulets é "uma parte importante da contraofensiva" no sul, porque as tropas ucranianas tentam avançar a partir do rio, aponta.

A questão da água também é uma "ferramenta chave da guerra" na Ucrânia, destaca uma analista do centro britânico de pesquisas Janes.

Em 2014, depois que a Rússia anexou a Crimeia, Kiev construiu uma represa no rio Dnipro, privando este território russo de 85% de seus recursos hídricos. A estrutura foi destruída pelas tropas russas no primeiro dia da guerra este ano, afirma a mesma fonte.

As forças ucranianas também abriram uma barragem perto de Irpin no final de fevereiro, inundando a cidade de Demydyv, para desacelerar o avanço russo em direção a Kiev, que parecia iminente na época.

A partir de agora, um dos principais objetivos do Kremlin é "eliminar a resistência da população ucraniana, desmoralizá-la e, inclusive, estimular potencialmente os distúrbios" contra suas autoridades com a privação de água ou energia elétrica, observa o analista do centro Janes.

Observada em Kryvyy Rih a manobra não parece ter sucesso. Ao ser questionada sobre o exército russo, Lyubov Adamenko, com um pequeno gato no colo, parece ainda mais irritada. Ela deseja que tenha o "mesmo destino do 'Moskva'", o navio símbolo do Kremlin que afundou em abril na costa da Ucrânia.

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