Lançamentos on-line e livrarias no e-commerce: como será o mercado editorial pós-pandemia

Ruan de Sousa Gabriel*

SÃO PAULO – Quem está ansioso para passear entre estantes de livros, entrar na fila de autógrafos e aproveitar indicações de livreiros, se prepare. Quando as livrarias reabrirem, será preciso lambuzar as mãos com álcool gel antes de folhear os livros. Mesmo passado o pico da pandemia, os eventos de lançamento continuarão sendo virtuais, e a conversa com os livreiros será à distância, às vezes por aplicativos de mensagem. Lá estarão os lançamentos já previstos, mas, por um tempo, a oferta de novos títulos será menor que o normal. Festivais literários? Com público reduzido e talvez ao ar livre.

Por enquanto, não há data para a reabertura das livrarias no Brasil. Mas Rui Campos, proprietário da Livraria da Travessa, está animado. O desconfinamento em Portugal permitiu a reabertura da Travessa de Lisboa em 4 de maio — com horários reduzidos, funcionários mascarados, restrição de público, muito álcool gel e outras medidas adotadas na Europa e nos Estados Unidos, onde o comércio já volta a funcionar.

— Foi a melhor segunda-feira do ano — comemora Campos. — O movimento tem sido bom, o que nos dá esperança para a reabertura das nossas nove lojas brasileiras. Estocamos álcool gel e vamos reorganizar as lojas para aumentar o espaço de circulação das pessoas.

De portas fechadas, livrarias acostumadas a conquistar o público do bairro com boa curadoria, eventos e cafezinho investiram em vendas virtuais. O e-commerce da Travessa, que representava cerca de 12% do faturamento da rede, cresceu 50%. A Livraria Mandarina, em São Paulo, antecipou o lançamento de seu e-commerce para o final deste mês e, enquanto isso, recebe pedidos por telefone, e-mail, redes sociais e aplicativos de mensagem. Há encomendas de diversos estados.

— Sacamos que dá, sim, para vender on-line — afirma Daniela Amendola,sócia da Mandarina. — Com o e-commerce, esperamos vender para todo o Brasil. Vamos continuar indicando livros, só que de máscara e às vezes por WhatsApp, não cara a cara.

A Mandarina exemplifica o que Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) chama de “modelo híbrido” a ser adotado por pequenas livrarias no pós-pandemia: investir em vendas on-line sem descuidar do atendimento presencial.

— Alguns leitores vão correr para as lojas. Já outros vão continuar, como nos últimos meses, comprando on-line — diz Gurbanov, que ressalta a importância da abertura de linhas de créditos para socorrer livrarias e editoras em dificuldade.

Projeto de auxílio

No último mês, chegaram ao Congresso dois projetos de lei para auxiliar editoras e livrarias. O senador Jean Paul Prates (PT-RN) e a deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) propõem abertura de linhas de crédito a juros camaradas e o envio de livros subsidiado pelos Correios.

As vendas, aliás, despencaram durante a quarentena. Segundo o Painel do Varejo de Livros no Brasil, o faturamento do mercado editorial encolheu 47,61% em abril. Segundo fontes das editoras, mesmo que haja uma retomada, essa queda deve se reverter em enxugamento de estrutura e mais seletividade nos lançamentos, adiando, por ora, projetos de retorno incerto.

Por outro lado, a compra de e-books cresceu. Entre 9 de março e 26 de abril, a Bookwire distribuiu 9,5 milhões de livros digitais — quase 80% dos 12 milhões vendidos em 2019. Segundo Marcelo Gioia, CEO da Bookwire, a quarentena acelerou a formação de leitores “multiformato”, que leem no papel e na tela. As editoras, muitas das quais têm disponibilizado livros gratuitos ou a preços irrisórios na rede, se preparam para garantir o estoque de e-books dos leitores “multiformato” quando passar a pandemia.

— Não tínhamos muita intenção de migrar para o digital, mas decidimos oferecer e-books em um e-commerce próprio até setembro – diz Florence Curimbaba, fundadora da Temporal, dedicada a textos teatrais.

Como as noites de autógrafo não vão voltar tão cedo, as editoras pretendem continuar investindo em eventos virtuais em parceria com livrarias. Durante a quarentena, as lives aproximaram escritores do público leitor e, com alguma frequência, resultaram no aumento das vendas on-line.

FESTA DISTANCIADA

Otavio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, aposta na proliferação de festivais literários virtuais organizados pelas editoras para divulgar os seus autores. Neste fim de semana, a Companhia apresenta a segunda edição do festival Na Janela, uma parceria com a Amazon transmitida pelo YouTube. A primeira edição ocorreu em abril.

— Para as editoras, é muito desejável estabelecer contato direito com o leitor por meio desses festivais, especialmente num momento em que aumentam as vendas virtuais. Não teremos nada presencial até, no mínimo, agosto, e planejamos outros festivais. Os nossos, é claro, não substituem os festivais independentes.

A pandemia adiou para novembro a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e a Feira Literária de Poços de Caldas (Flipoços). Segundo a curadora Gisele Corrêa Ferreira, em respeito ao distanciamento social, o público da Flipoços será reduzido. Ela não descarta realizar conversas com autores ao ar livre. Uso de máscaras? A conferir.

A Flip informa que a organização da próxima edição levará em conta os “novos protocolos de saúde” e as experiências compartilhadas na Global Association of Literaty Festivals (Associação Global de Festivais Literários), entidade recém-fundada para pensar as festas literárias pós-pandemia.

Se serve de consolo aos leitores, ainda que encontros em livrarias e as festas literárias demorem a voltar, não vão faltar livros no mundo pós-pandemia — livros digitais ou de papel, devidamente desinfetados com álcool gel.

— Durante a quarentena, redescobrimos o prazer da leitura — diz Mauro Palermo, diretor da Globo Livros. — Obrigados a ficar sozinhos e ao lazer indoor, constatamos que o livro é uma companhia excepcional.

*Colaborou Emiliano Urbim