Larissa Manoela estreia musical com o namorado Leo Cidade

Gustavo Cunha
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Bernardo Jaloto / Divulgação

Há pouquíssimos diálogos em “Os últimos cinco anos”. Sucesso no circuito off-Broadway desde o início dos anos 2000, o musical escrito por Jason Robert Brown tem a dramaturgia ancorada numa dezena de canções “não cartesianas”, como define Cláudio Botelho, tradutor de uma versão inédita para o espetáculo que estreia hoje, em formato virtual, com o casal de atores Larissa Manoela e Leo Cidade.

Base para tudo o que é dito (ou, melhor, cantado), as letras com métricas irregulares reforçam, a rigor, o que se vê: na ficção, dois jovens que formam um casal caminham em tempos opostos no relacionamento, sempre descompassados — enquanto ela dá o derradeiro adeus para o marido após cinco anos de casamento, ele se empolga e pula de alegria depois de passar a primeira noite com a mulher.

— A peça é um quebra-cabeça, pois os personagens andam em momentos cronologicamente alterados — diz Botelho. — É um texto difícil de traduzir, pois é todo cantado. A música é angular, e há páginas e páginas de letras sem rima.

Acrescente-se à peculiaridade temporal da trama o fato de que a história agora ganha embalagem adequada a este período pandêmico. Filmada no Teatro Multiplan, na Barra, a montagem com direção artística de Charles Möeller une aspectos de linguagens televisiva e cinematográfica, indo além da reprodução chapada de um tablado observado da plateia. Ao acompanhar, de maneira próxima, todos os passos dos personagens, as câmeras conduzidas por André Gress têm a pretensão de se colocar como uma lente voyeur diante do que se desenrola em cena.

O musical é um dos poucos do gênero neste 2020 marcado pela virtualização do teatro e, em consequência disso, pelo surgimento da seguinte dúvida, repetida à exaustão: afinal de contas, dramaturgias gravadas remotamente em dispositivos audiovisuais são consideradas teatro?

A pergunta já não faz tanto sentido para a dupla Möeller e Botelho, há 25 anos responsável por mais de 40 sucessos longevos, como “Beatles num céu de diamantes”, “Hair”, “O despertar da primavera, “Kiss me, Kate”, entre outros. Ambos creem que as ferramentas digitais “vieram para somar, e não para dividir”, como salienta Möeller.

— Da mesma forma que a TV não acabou com o cinema, e o cinema não acabou com o teatro, as novas tecnologias também não vão extinguir o que entendemos como teatro — ressalta o diretor. — Neste formato de agora, já que não podíamos apresentar uma peça presencialmente, pensamos em fazer com que a linguagem teatral ganhasse novos horizontes. O que estamos colocando em prática talvez seja a possibilidade de algo novo, coisa, aliás, que outras pessoas também seguem produzindo. Mas não é um “novo normal”.

Animado com o projeto idealizado por Larissa Manoela, atriz de 19 anos que é fenômenos entre o público jovem — e com quem ele já trabalhou em musicais como “A noviça rebelde” e “Gipsy” —, Möeller fala que agora vive como “um marinheiro voltando a sentir água salgada no rosto”.

Antes de a pandemia eclodir, ele estrearia uma versão do clássico “West Side story”, de Stephen Sondheim, no Theatro São Pedro, em São Paulo, ao lado do parceiro Claudio Botelho. Devido à quarentena, o musical foi adiado por tempo indeterminado. Para se manter ativo profissionalmente, o diretor se desdobrou como professor em classes on-line sobre a história do teatro. De março pra cá, ao longo de mais de seis meses, ele ministrou 35 aulas por semana para atores novatos e veteranos, em rotina frenética.

— Foi bem prazeroso. Mas ficava drenado pela tela. E eu me tornei, ali no Zoom, um misto de animador de festinha, psicólogo e também professor — brinca. — Na minha profissão, a aglomeração está muito vinculada ao sucesso. De repente, a possibilidade de aglomeração e sucesso foi ceifada. É difícil lidar com isso.

Apelo entre jovens

Narrativa que já foi adaptada para mais de 20 países —e que, em 2018, foi levada aos cinemas em longa-metragem homônimo com os atores Anna Kendrick e Jeremy Jordan —, “Os últimos cinco anos” aborda os altos e baixos de um casal de artistas afetados pelo sucesso e pelo infortúnio profissional.

Mote central, a relação entre os personagens desanda no momento em que a mulher, uma atriz que não ascende no mercado teatral, se debate com o triunfo do marido, um escritor que passa a conquistar espaços largos em sua área. Pronto, está aí o terreno fértil para a espécie de “discussão de relacionamento” musical, algo com apelo entre jovens.

— Tendemos a achar que uma pessoa que ama a outra não pode ter sentimentos de inveja e raiva. A peça põe isso em questão, e expõe os efeitos do tempo nas relações entre as pessoas. Não à toa, há o espelhamento constante entre o início e o fim do casamento — diz Möeller, que lamenta o fato de não haver previsão para novas apresentações da peça. — A trabalhaeira louca que tivemos para ter só um dia de sessão é algo que dá um aperto no coração. Mas espero que o projeto vingue em outra plataforma.