Larvas de moscas e até baba de caracol podem ajudar a curar ferimentos

Daniel Galilea, da EFE
31 de janeiro de 2012


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As larvas de mosca contribuem para curar as feridas. Os mosquitos com seus genes modificados ajudam a combater a malária. A baba do caracol é útil para regenerar a pele. A fauna se transformou em uma grande aliada da Medicina.

Médicos, enfermeiros, técnicos de laboratório e profissionais de saúde contam com o desconhecido apoio de uma verdadeira legião de “auxiliares” e “colaboradores” em sua árdua tarefa de curar as doenças e reparar as lesões: os animais e insetos apresentam substâncias e ferramentas terapêuticas.

Cada vez mais especialistas estão solicitando às autoridades de saúde que se divulgue o uso de larvas de mosca para curar as infecções, gangrenas e úlceras, porque estas criaturas são capazes de limpar uma ferida 18 vezes mais rápido que os tratamentos farmacológicos comuns.

Em alguns casos, a “tratamento larval”, usado no Reino Unido, Israel, Suíça e Alemanha pode ser uma alternativa mais eficaz e econômica que os antibióticos, e se aplica em feridas infectadas sem problemas, segundo o médico José Contreras Ruiz, do Hospital Geral Dr. Manuel Gea González (México) e pioneiro na América Latina desta técnica que usada no México, Colômbia, Argentina e Chile.

Segundo o dermatologista mexicano, as larvas da mosca Lucilia sericata ou "mosca verde" são colocadas em uma rede de nylon na ferida durante dois ou três dias e ingerem a carne infectada, matando as bactérias e estimulando o crescimento do tecido saudável.

Entre as desvantagens da “larvaterapia” estão que se dispõe de pouco tempo para aplicá-la, porque as larvas se transformam em moscas em três dias, assim como a rejeição psicológica que este método pode causar no paciente e no profissional de saúde.

No entanto - segundo Ruiz - as vantagens compensam amplamente estes inconvenientes, já que "a seletividade e rapidez com que as larvas trabalham, comendo tudo o que está morto e deixando intacto o tecido vivo, permitem uma limpeza profunda da ferida".

Insetos antimalária
Cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, desenvolveram uma variedade de mosquito com seus genes modificados artificialmente, o que fez com que esses insetos sejam resistentes a um dos tipos de parasitas causadoras da malária, uma doença que mata milhões de pessoas a cada ano.

Os mosquitos modificados geneticamente se alimentaram de sangue de rato contaminado, mas seu organismo foi capaz de combater a doença, além de serem mais férteis e sobreviver muito mais tempo que os mosquitos normais.

Isso representa para os insetos transgênicos uma vantagem sobre os não modificados, segundo os autores do estudo, que antecipam que "o próximo passo é criar um mosquito anófeles resistente ao parasita da malária que afeta os seres humanos e ver o modo de introduzi-los no meio ambiente natural”.

De acordo com Marcelo Jacobs-Lorena, um dos cientistas participantes do estudo, dirigido pelo médico Jason Rason, os mosquitos se alimentaram do sangue de ratos infectados com o parasita P. berghei, um dos que causa a doença.

O principal parasita que causa a malária nas pessoas é o Plasmodium falciparum, do qual a fêmea do mosquito anófeles é portadora e que é responsável por 80% das infecções e de 90% das mortes por esta doença.

Em contrapartida, alguns dermatologistas aprovam a eficácia dos produtos elaborados com a secreção antioxidante do caracol. A “baba” deste molusco é útil para regenerar a pele envelhecida ou danificada pela radiação solar, agressão ambiental, queimaduras e marcas de acne, sempre que sua composição e processamento reúna certos requisitos.

"Seus compostos estimulam a formação de colágeno, elastina e componentes dérmicos que reparam os sinais do fotoenvelhecimento, e minimizam o dano gerado pelos radicais livres que envelhecem a pele prematuramente", assinala a dermatologista María José Tribó-Boixareu, do Hospital Del Mar de Barcelona.

No entanto, para que tenham estas propriedades, os produtos devem provir da baba que o caracol Cryptomphalus aspersa segrega perante estímulos como radiação e estresse mecânico, e não da qual solta ao se deslocar.

"A secreção do Cryptomphalus aspersa, obtida em estado de estresse é muito rica em proteínas e polissacarídeos, responsáveis por sua atividade regeneradora, e nada tem a ver com a baba que o caracol segrega durante seu deslocamento, carente de atividade biológica e cuja única função é permitir sua mobilidade", explica a médica Ana Aliaga, do Conselho Geral de Colégios Oficiais de Farmacêuticos espanhol.

Segundo o especialista, a metodologia de obtenção da baba se aperfeiçoou até chegar a um sistema do qual se obtém uma secreção purificada de SCA (sigla de secreção do caracol Cryptomphalus aspersa) que permite preservar a vida do animal e garantir sua riqueza em compostos regeneradores.

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