Indígenas e governo medem forças em protestos no Equador

Enxurradas de manifestantes aumentam a pressão nas ruas militarizadas de Quito. Os indígenas e o governo equatoriano medem forças sem que se vislumbre ainda uma saída dez dias depois do início da crise com protestos que já deixaram dois mortos e dezenas de feridos.

Na quarta-feira (22) o governo equatoriano rejeitou o pedido de suspender o estado de exceção que vigora em seis das 24 províncias e na capital equatoriana.

Diante da negativa oficial, o movimento de protesto voltou à carga para exigir uma redução nos preços dos combustíveis, entre outros atos que amortizem o custo da cesta básica.

Vindos de vários pontos, cerca de 10.000 indígenas estão em Quito desde a segunda-feira. Em sua passagem, queimam pneus e montam barricadas com troncos de árvores. Arames farpados, cercas e militares protegem a sede presidencial. A cidade está parcialmente paralisada.

O governo do presidente Guillermo Lasso tem as "mãos sujas de sangue", disse o indígena Leonidas Iza, líder da mobilização, diante da repressão denunciada pelos manifestantes.

Entre segunda e terça-feira, duas pessoas morreram em meio aos protestos, segundo a Aliança de Organizações pelos Direitos Humanos, que também registrou 90 feridos e 87 detidos desde 13 de junho. Segundo a polícia, há 101 efetivos e soldados feridos.

No entanto, Iza, presidente da poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie), disse estar disposto ao "diálogo" sem intermediários e sob "observação" que garanta "resultados".

O dia terminou com distúrbios em alguns pontos. Durante a noite, um contra-protesto de mais com mais de 100 veículos de luxo percorreu a zona financeira ao som de buzinas e com bandeiras do Equador.

A presidência informou quase à meia-noite que Lasso "testou positivo para covid-19, mas não apresenta sintomas".

- "Vivemos em crise" -

Como ponto de partida, a Conaie quer que seja suspenso o estado de emergência sob o qual militares saíram dos quartéis e foi decretado toque de recolher noturno em Quito.

Mas o ministro do Governo (Casa Civil), Francisco Jiménez, foi categórico: "Não podemos suspender o estado de exceção porque isso é deixar a capital indefesa e já sabemos o que ocorreu em outubro de 2019 e não vamos permiti-lo", alertou em entrevista ao canal Teleamazonas.

Com as aproximações em pontos mortos, 4.000 manifestantes avançam em outras localidades. Na terça-feira, um ataque contra instalações policiais na localidade amazônica de Puyo deixou um morto e seis uniformizados com ferimentos graves, segundo o ministério do Interior.

Dezoito policiais estão "desaparecidos" e outros três foram "retidos" por indígenas, disse o chefe da pasta, Patricio Carrillo, durante coletiva de imprensa nesta quarta-feira.

Estamos "irritados demais com o governo", disse à AFP Olmedo Ayala, um indígena de 42 anos que chegou a Quito vindo da província de Cotopaxi.

"Vivemos em crise economicamente no campo, lá não há desenvolvimento, não temos fontes de trabalho, somos apenas agricultores e nossas mulheres (vivem) de tirar leite", mas cada vez ganham menos dinheiro com isso, contou.

O diesel subiu 90% e a gasolina comum, 46% em quase um ano, aumentando o custo dos fretes. Os indígenas asseguram que estão colhendo as perdas. Desde outubro passado, os preços estão congelados por pressão social.

Depois de dias de protestos, com interrupção de vias e mobilizações, começa a haver desabastecimento, enquanto nas ruas retumba o grito de guerra dos indígenas: "Fora Lasso, fora!".

- Apelo internacional -

O presidente, que assumiu a Presidência em maio de 2021, vê nos protestos uma tentativa de tirá-lo do poder. A Conaie liderou revoltas populares que forçaram a renúncia de três presidentes entre 1997 e 2005.

"Só queremos Lasso fora porque não faz nada de bom (...) Estamos sofrendo; estamos lutando", disse a indígena Maria Vega (47).

Em 2019, a Conaie também protagonizou marchas que duraram duas semanas e deixaram 11 mortos e mais de mil feridos em todo o país, assim como prejuízos de mais de 800 milhões de dólares.

Sem maior apoio político, Lasso conta por enquanto com o apoio dos militares, que cerraram fileiras em torno do governo diante do "sério risco" que corre a "democracia no Equador", disse nesta terça-feira o chefe da Defesa, Luis Lara.

"As Forças Armadas não vão permitir que se tente romper a ordem constitucional ou qualquer ação contra a democracia e as leis", destacou o oficial da reserva, cercado de comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea.

Em um tuíte, o chefe da diplomacia americana para a América Latina, Brian Nichols, fez um "apelo a todas as partes para que se abstenham da violência".

Por sua vez, a secretária-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu às partes para "estabelecer um diálogo" a partir do qual "sejam abordadas as reivindicações" da Conaie.

"É preciso que o sistema político dê uma resposta imediata em melhorias de subsídios, no perdão dos créditos vencidos, assim como resolver o estado de emergência no setor da saúde e melhorias no orçamento da educação intercultural", acrescentou em um comunicado.

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