Laudo avalia em US$ 110 milhões obras de Inhotim oferecidas para pagamento de dívida de seu fundador

Nelson Gobbi

RIO — Um laudo, elaborado por determinação da Justiça, avaliou em US$ 110,1 milhões (por volta de R$ 465 milhões no câmbio atual) a lista com 20 obras oferecida pelo empresário e fundador do Instituto Inhotim, Bernardo Paz, da dívida tributária estimada em mais de R$ 470 milhões junto ao governo do estado de Minas Gerais. Com a aplicação de reduções previstas em lei, o passivo do grupo Itaminas (na época, dirigido por Paz),passaria a R$ 111,7 milhões, um valor quatro vezes menor do conjunto de trabalhos oferecido ao estado.

Segundo informações do jornal "Folha de S. Paulo", o laudo é o último de três avaliações das obras ataulmente em comodato no centro cultural de Brumadinho (MG). Pelo acordo assinado por Paz em julho do ano passado, será levado em conta o valor da menor avaliação apresentada. O empresário aguarda agora a avaliação da AGE-MG (Advocacia Geral do Estado) para que seja encaminhado para homologação.

Entre as obras oferecidas, estão algumas das maiores atrações do Inhotim, como a tela "Celacanto provoca maremoto" (2004-2008), de Adriana Varejão, e as instalações "Desvio para o vermelho" e "Glove trotter", de Cildo Meireles; "De lama lâmina" (2004-2009), de Matthew Barney; "Beam drop Inhotim", de Chris Burden; e "Sonic pavillion" (2009), de Doug Aitken. Pelo acordo, as obras continuariam em comodato com o Inhotim, e não poderiam ser vendidas pelo estado.

Bernardo Paz cedeu as terras e as edificações construídas no local para o Instituto Cultural Inhotim, que foi transformado em Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Mesmo fora da direção do Instituto, o empresário mantém uma coleção de cerca de 1,5 mil obras de arte, 700 delas em comodato no Centro Cultural.

Diretor-presidente de Inhotim, Antônio Grassi considera positivo o encaminhamento do acordo, e torce para a sua homologação em breve.

— Acompanhamos à distância, porque não é um assunto ligado à gestão do Inhotim. Mas vemos como uma boa notícia a possibilidade de perenizar o acervo do Instituto — comenta Grassi. — Também recebemos a manifestação de alguns artistas, que veem o acordo como a garantia de que suas obras vão permanecer aqui, onde milhares de turistas do mundo todo vêm para vê-las.

No início do ano, o Ministério Público de Minas Gerais emitiu parecer contrário ao acordo, por entender que o valor das obras não poderia ser convertido em espécie aos cofres públicos.

— Este raciocínio financeiro não leva em conta o quanto Inhotim representa para a cultura e o turismo de Minas Gerais. Ter um centro cultural reconhecido entre os mais importantes da arte contemporânea do mundo tem um valor incomensurável — destaca Grassi. — Isso sem mencionar a importância que Inhotim teve na recuperação da região após a tragédia em Brumadinho. Fortalecer esta instituição deveria ser vista pelo estado como um investimento.

Veja a lista de obras incluídas no acordo:

Calacanto Provoca Maremoto (2004-2008) - Adriana Varejão

Carnívoras (2008) - Adriana Varejão

O Colecionador (2008) - Adriana Varejão

Linda do Rosário (2004) - Adriana Varejão

Gigante d obrada (2001) - Amílcar de Castro

Através (1983-1989) - Cildo Meireles

Desvio para o Vermelho (1970-1996) - Cildo Meireles

Inmensa (1982-2002) - Cildo Meireles

Glove Troter (1991) - Cildo Meireles

Beam Drop Inhotim (2008) - Chris Burden

Samsom (1985) - Chris Burden

Beehive Bunker (2006) - Chris Burden

Bisected Triangle, Interior Curve (2002) - Dan Graham

Xadrez de Chão (2004-2007) - Delson Uchôa

Correnteza (1994-2007) - Delson Uchôa

Entre o Céu e a Terra (2007) - Delson Uchôa

Portal 1 (Realidades Mistas) (2006-2007) - Delson Uchôa

Neither (2004) - Doris Salcedo

Sonic Pavilion (2009) - Doug Aitken

De Lama Lâmina (2004) - Matthew Barney