Laudo mostra que “vacinas” na casa de enfermeira eram feitas de soro fisiológico

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Saline bag on table
Supostas vacinas, aplicadas em empresários mineiros, eram feitas de soro fisiológico (Foto: Getty Images)

O laudo pericial, feito a partir do material apreendido na casa da falsa enfermeira que vacinou empresários em Minas Gerais, mostra que as “vacinas” eram feitas de soro fisiológico. A informação foi revelada pela TV Globo.

Cláudia Mônica Pinheiro Torres de Freitas é suspeita de se passar por enfermeira, quando, na verdade, é cuidadora de idosos.

Ela foi presa na última terça-feira (3), após vender vacinas para os empresários mineiros Rômulo e Robson Lessa, do ramo de transportes. Cláudia Freitas teria aplicado os falsos imunizantes em 57 pessoas em uma garagem da família.

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Segundo os documentos revelados pela TV Globo, “os resultados dos exames são compatíveis com a descrição contida no rótulo do produto, ou seja, que o mesmo se trata de produto farmacêutico denominado soro fisiológico (solução cloreto de sódio)”.

“Pelos indícios do material que foi identificado, tudo indica que seja material falso”, afirmou o delegado Rodrigo Morais Fernandes

Em depoimento à Polícia Federal, Rômulo e Robson admitiram que compraram as supostas vacinas. A aplicação de duas doses cursou R$ 600 para cada pessoa. O caso foi inicialmente revelado pela revista Piauí.

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A PF cumpriu mandados de busca e apreensão na casa de Cláudia Freitas. As embalagens estavam lacradas e, ao serem analisadas, foram verificadas como sendo soro fisiológico. Foram encontradas também vacinas contra a gripe.

A polícia segue três linhas de investigação: de desvio de doses do Ministério da Saúde, compra ilegal e fraude. A última hipótese tem ganho força.

Entenda o caso do grupo que se vacinou escondido em MG

Quem faz parte do grupo e o que dizem?

O grupo é composto por 50 pessoas, entre políticos e empresários, a maioria ligada ao setor de transporte de Minas Gerais, além de seus familiares.

Uma parte da aplicação do imunizante ocorreu em Belo Horizonte, em uma garagem de uma empresa do grupo Saritur, improvisada como posto de vacinação. Já outra parte teria sido imunizada em uma instalação pertencente a uma mineradora.

Empresários

Segundo pessoas que se vacinaram na ocasião, os organizadores foram os irmãos Rômulo e Robson Lessa, empresários e ex-sócios da viação Saritur. A família Lessa é conhecida no no ramo de transportes em Minas Gerais e está à frente de um dos maiores conglomerados do setor.

A Saritur (Santa Rita Transporte Urbano e Rodoviário) foi fundada em 1977 e possui uma frota estimada de 1,2 mil ônibus, além de empregar cerca de 6 mil funcionários, entre servidores diretos e indiretos.

Além de dono da Saritur, Rubens Lessa preside a Fetram (Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado de Minas Gerais), e o Conselho Regional Minas Gerais do Sest Senat. Influente em Brasília, Rubens possui acesso direto ao governo federal.

Políticos

Entre os vacinados, segundo a revista, também está Clésio Andrade, ex-senador e ex-presidente da Confederação Nacional do Transporte. À Piauí, ele disse que tomaria a vacina pelo SUS na próxima semana, mas foi convidado a se juntar ao grupo e não teve de pagar.

Após a publicação da revista, o ex-senador, por meio de sua assessoria, mudou a versão. Ele negou que tenha dado entrevista à Piauí e que tenha sido vacinado.

“Eu ainda não tomei a vacina e defendo as regras de vacinação do Ministério da Saúde. Aliás, repito que eu preferia que os idosos, como eu, dessem a vez aos mais jovens, que são obrigados a sair de casa para trabalhar”, informou.

Ainda de acordo com a reportagem, o deputado estadual Alencar da Silveira Jr. (PDT-MG) também foi vacinado. Questionado, ele negou. "Não estou sabendo, não. Até gostaria, mas estou com coronavírus, nem posso", afirmou à Piauí.

Dias depois, na quinta-feira (25), por meio da sua assessoria de imprensa, Silveira Jr., lembrou que é um dos signatários da CPI na Assembleia Legislativa de Minas Gerais que apura supostos casos de fura-fila da vacinação entre servidores da Secretaria Estadual de Saúde - o caso derrubou o secretário Carlos Eduardo Amaral, que foi imunizado.

"Não vacinei e não tenho conhecimento dessas vacinações citadas na reportagem da Piauí. Acho que tem que ser apurado", disse o deputado via assessoria.

Aglomeração na garagem improvisada

A garagem fica no fim da rua Cláudio Martins, 100, no bairro Alto Caiçaras, na capital mineira. Uma testemunha afirmou que filmou o episódio, juntamente a outras pessoas, e teria identificado no pátio da garagem cerca de 25 veículos.

As imagens mostram uma aglomeração de carros em volta da entrada do local.

Nelas, é possível ver uma mulher de jaleco branco retirar do porta-malas o que parecer ser uma vacina e aplicar nos motoristas. Alguns descem do carro para receber sua dose. Outros são vacinados dentro do próprio carro. Uma outra pessoa anota nomes em uma ficha, como se estivesse confirmando cada vacinação dada.

Ainda segundo a testemunha, condutores e passageiros estavam sendo vacinados por uma mulher de jaleco branco. A pessoa que fez a denúncia disse que encaminharia o vídeo à Secretaria Municipal de Saúde no dia seguinte. A Prefeitura de Belo Horizonte não retornou ao jornal Folha de São Paulo para confirmar o recebimento.

Enfermeira se atrasou após imunizar outra parte do grupo

A reportagem da Piauí diz ainda que a enfermeira que aplicou as doses no grupo na garagem teria chegado atrasada por estar atendendo ao restante das pessoas em outro local: na Belgo Mineira, mineradora hoje pertencente à ArcellorMittal Aços.

A ArcelorMittal disse, em nota, que nunca comprou nenhuma vacina para o combate da Covid-19, e que sua empresa de gestão de saúde, a Abertta Saúde, atua como posto avançado de vacinação do SUS em Belo Horizonte e Contagem.

"A ArcelorMittal desconhece qualquer atuação de seus profissionais em atos correlacionados à vacinação fora dos protocolos do Ministério da Saúde e do Programa Nacional de Imunização – PNI", afirmou. A Belgo Mineira, ainda segundo a ArcelorMittal, não existe mais.

Lei permite que entidades comprem vacina, mas obriga doação ao SUS

Atualmente, a legislação brasileira obriga que 100% das vacinas contra Covid eventualmente contratadas por empresas ou outras instituições privadas sejam doadas ao SUS.

Aprovada pelo Congresso Nacional no fim de fevereiro, a lei federal 14.125/2021 determina que a doação deve ser feita enquanto todos os grupos prioritários não forem vacinados — cerca de 77 milhões de pessoas. A lei foi sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no dia 10 de março.