“Falar de sexualidade vai além de prática sexual”, defende Laura Muller

A educadora sexual Laura Muller explicou porque falar sobre sexualidade com crianças a partir dos 6 anos de idade (Foto: Reprodução)

Laura Muller viralizou mais uma vez. A educadora sexual entrou para os Trending Topics do Twitter na manhã de segunda-feira (22) ao rebater um comentário intolerante sobre educação infantil e sexualidade no programa ‘Altas Horas’, da Globo.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

O vídeo não é de hoje, mas as imagens, compartilhadas pela conta Quebrando o Tabu, na rede social - e que já foram retuitadas mais de 19 mil vezes, até o momento -, mostram Laura explicando para Fernando Monstrinho, do Raça Negra, porque é importante colocar aulas sobre sexualidade na educação infantil.

Leia também

“Tem um papo que está rolando na internet: se uma criança de 8 anos já tem que estar aprendendo sexo na escola. É um deputado que está querendo, mas eu sou contra, porque eu sou pai, tenho filho, então sou totalmente contra", diz Fernando.

Laura logo explica que existe uma diferença essencial entre falar sobre sexualidade e sobre sexo e que, claro, a educação infantil deve seguir o ensino conforme a pertinência, a idade das crianças e a fase pela qual elas estão passando.

“É sexualidade como um conceito amplo, como o nosso jeito de ser no mundo", começa ela. "Como o jeito da gente ser homem e ser mulher no mundo. O que é isso? Da gente lidar com o nosso mundo interno, nossas emoções, nossos sentimentos, nossos valores, nossas crenças e da gente lidar com o mundo ao redor. Isso não é sexo, isso é sexualidade".

Laura ainda diz que essa concepção deve ser introduzida na educação infantil de forma transversal, a partir dos 6 anos de idade. O tema sexo, segundo ela, pode ser colocado na conversa quando a criança já estiver mais amadurecida, e for o momento de acrescentar outros elementos, até para evitar questões como uma gravidez adolescente.

Laura diz que os pais são os primeiros modelos de sexualidade com os quais a criança aprende sobre o assunto, e que o papel da escola é informá-la sobre aspectos mais direcionados e práticos, como o desenvolvimento das funções corpóreas, porque as meninas menstruam até chegar sobre o desenvolvimento sexual especificamente falando.

“Quando a criança entra na escola, a gente precisa com 6, 7, 8 anos falar de corpo, de conhecimento corporal e os conhecimentos vão evoluindo a medida em que essa criança cresce. Com 9, 10 anos, a gente já vai estar falando de reprodução, até porque meninas, às vezes, menstruam aos 9 anos de idade e, quando chegar na pré-adolescência, aí a gente já está falando sobre sexo, da prática sexual, de prevenção à gravidez na adolescência, de diversidade, de doenças sexualmente transmissíveis”.

Por fim, a educadora explica que falar sobre sexualidade não significa falar sobre sexo, principalmente para indivíduos que ainda não entendem muito bem sobre o próprio corpo e precisam de outros elementos antes de serem introduzidos a esse assunto.

Por que falar sobre sexualidade com crianças é importante?

Aproveitando o gancho, Laura conversou com o Yahoo! para clarear ainda mais a importância de colocar esse assunto na educação infantil, conforme as sugestões dos parâmetros curriculares nacionais.

Sexualidade é um assunto tabu ainda na nossa cultura e, ao começar a falar dela desde cedo em casa e também na escola, a gente prepara esse indivíduo para quando ele estiver no momento de educação sexual, que vai ser numa fase posterior, a partir da adolescência, ele faça isso de uma forma cada vez mais saudável, mais responsável, e mais prazerosa, disse em entrevista.

A educadora reforça que essa conversa não necessariamente fale sobre sexo, mas comece com sexualidade, que é um conceito muito mais amplo, que vai além da prática sexual.

“[O conceito de sexualidade] A gente aprende com os nossos primeiros modelos, os nossos primeiros educadores sexuais, que são os nossos pais. A partir de então, o conhecimento vai evoluindo, a criança entra na escola e a educação sexual a ser feita a partir dos 6 anos de idade é de acordo com cada faixa, começando por noções básicas como corpo e chegando lá na adolescência e falando sobre a prática do sexo em si, que inclui afeto, prazer, a diversidade sexual, a gravidez fora de hora - como evitar e lidar -, e as doenças sexualmente transmissíveis - também como evitar e lidar”.

Saber diferenciar os dois termos é essencial para não gerar medo de que a conversa foque apenas na prática do sexo ou em temas “vulgares” para uma criança. “Não é isso, uma educação sexual de qualidade não tem esse foco. não é embasada nisso. E, sim, em conhecimentos que vão evoluindo a medida que essa criança cresce”.