Novo vazamento: Juiz do TRF-4 adiantou ao MPF que provas eram 'fracas'

Diálogos revelam que Deltan soube, por meio de desembargador do TFR-4, que provas apresentadas pelo MPF eram fracas. (Foto: Heuler Andrey/AFP/Getty Images)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Diálogos apontam que Deltan conversou com desembargador e soube de que provas eram ‘fracas’ antes mesmo do julgamento

  • Procurador-chefe da Lava Jato estava preocupado com absolvição do réu, que negociava delação

Em novo episódio de conversas vazadas, mensagens trocadas pelo Telegram entre procuradores do MPF (Ministério Público Federal) revelam que um juiz do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) adiantou aos envolvidos na investigação da operação Lava Jato de que as provas apresentadas contra um réu eram “fracas”.

As novas mensagens, atribuídas ao procurador-chefe Deltan Dallagnol e outros procuradores, foram divulgadas nesta sexta-feira (12) pela revista Veja, em parceria com o site The Intercept Brasil.

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O magistrado do TRF-4 citado pela revista é o desembargador João Pedro Gebran Neto, que atua como relator dos casos da operação que chegam ao órgão encarregado de julgar em segunda instância os processos da Lava-Jato em Curitiba.

Os diálogos nos quais Gebran é citado se referem a Adir Assad, acusado de ser um dos operadores de propinas da Petrobras. Assad foi preso pela primeira vez em março de 2015, e em setembro do mesmo ano foi condenado pelo então juiz Sergio Moro a 9 anos e 10 meses de prisão pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

Mensagens trocadas apontam que, com o caso de Assad submetido à segunda instância no TRF-4 e sob análise de Gebran, Deltan Dalla­gnol comentou, no dia 8 de fevereiro de 2017, em um chat com outros colegas do MPF que o desembargador o adiantou um parecer sobre as provas apresentadas pela acusação contra Assad.

“O Gebran tá fazendo o voto e acha provas de autoria fracas em relação ao Assad”, teria escrito Deltan

Em outra conversa, no dia 5 de junho de 2017, Dalla­gnol comenta com o procurador Carlos Augusto da Silva Cazarré - da Procuradoria Regional da República da 4ª Região, que atua junto ao TRF4 - que teme a possibilidade de Gebran absolver o condenado.

A preocupação do procurador-chefe se deve porque naquele momento, em paralelo, a Lava Jato negociava com o Assad um acordo de delação e, caso fosse absolvido, poderia recuar. No chat, Dallagnol aciona Cazarré, que fica em Porto Alegre, sede do TRF4.

“Cazarré, tem como sondar se absolverão assad? (…) se for esse o caso, talvez fosse melhor pedir pra adiar agilizar o acordo ao máximo para garantir a manutenção da condenação…”, escreve Dalla­gnol.

“Olha Quando falei com ele, há uns 2 meses, não achei q fisse (sic) absolver… Acho difícil adiar”, responde Cazarré. Na sequência, Dalla­gnol volta a citar Gebran: “Falei com ele umas duas vezes, em encontros fortuitos, e ele mostrou preocupação em relação à prova de autoria sobre Assad…”. Dalla­gnol termina pedindo ao colega que não comente com Gebran o episódio do encontro fortuito “para evitar ruído”.

Entenda o caso das mensagens vazadas pelo ‘Intercept’

A série de reportagens do ‘Intercept’ começou no dia 9 de junho, um domingo. Na primeira leva de matérias, o site divulgou uma série de mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol.

Nessa primeira leva, as acusações contra Moro ficaram por conta de um suposto direcionamento que ele dá para a Lava Jato internamente. Entre outros, o portal apresenta mensagens que mostrariam que Dallagnol duvidada de provas contra Lula, além de colaboração proibida do então juiz com o procurador.

Mais tarde, em 14 de junho, o ‘Intercept’ seguiu suas publicações com mais material contra Moro. Nas novas mensagens divulgadas, há um diálogo horas depois do primeiro depoimento prestado por Lula à Lava Jato.

Neste diálogo, Moro teria proposto ao Ministério Público a publicação de uma nota à imprensa. Nela, haveria conteúdo que esclarecesse o que Moro chama de “contradições” do ex-presidente, no que ele se refere como um “showzinho” da imprensa.

Dallagnol comemora proibição de entrevista de Lula

No primeiro áudio vazado do grupo da Lava Jato no Telegram, o procurador Deltan Dallagnol comemora uma liminar do ministro do STF Luiz Fux que proibia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de conceder uma entrevista. O arquivo foi divulgado pelo site The Intercept Brasil nesta terça-feira (9).

Datado de setembro de 2018, os participantes do grupo reclamavam da decisão de Ricardo Lewandoski, também do Supremo, ao autorizar Lula, preso em Curitiba, a conceder uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Após procuradoras chamarem os envolvidos de "mafiosos", Deltan apazigua os ânimos com a informação da liminar de Fux:

“Vem muito mais por aí”

Em entrevista exclusiva ao Yahoo, o jornalista Glenn Greenwald afirmou que os conteúdos divulgados até então eram “apenas o começo”.

Moro não pode dizer que a reputação dele foi destruída. Mas a aprovação dele caiu dez pontos e ainda vem muito mais coisa por aí, a máscara dele [Moro] vai ser derrubada”, afirmou o jornalista na oportunidade.

Defesa apelou, mas STF manteve Lula preso

Houve a percepção, por parte da defesa do ex-presidente, de que as mensagens divulgadas pelo ‘Intercept’ poderiam ajudar a tirá-lo da cadeia.

O STF decidiu, então, julgar dois habeas corpus pedidos pela defesa de Lula, sendo um deles relativo a Moro e que havia tido sua votação suspensa após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Foi o próprio Gilmar que, no início deste novo julgamento, na terça (25), pediu que os ministros considerassem a hipótese de, em caso do HC relativo às acusações contra Moro não fosse julgado, o ex-presidente pudesse esperar o julgamento terminar em liberdade.

Os ministros adiaram a votação do HC por entenderem que a série de mensagens ainda não havia terminado e, com isso, não se podia a chegar a nenhuma conclusão sobre possível uso da Lava Jato por parte de Moro contra Lula. Negaram, no entanto, a liberdade proposta por Gilmar e também pela defesa.

Greenwald foi à Câmara e reiterou que Moro chefiava Lava Jato

Na mesma terça (25) em que a defesa de Lula apelava pela liberdade do ex-presidente no STF, Greenwald esteve na Câmara dos Deputados para responder perguntas dos congressistas.

Em audiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o jornalista a autenticidade do material recebido de uma fonte anônima, fazendo questão de confirmar novamente a autenticidade do material.

"O material já mostrou e vai continuar mostrando que Moro era o chefe da força-tarefa da Lava Jato, que era o chefe dos procuradores. Ele [Moro] está o tempo todo mandando o que os procuradores deveriam fazer e depois entrando no tribunal e fingindo que era neutro. Já mostramos isso, mas vai ter muito mais material ainda", declarou o jornalista no dia.

A audiência pública na Câmara dos Deputados teve a presença principalmente de parlamentares da oposição.

Uma das poucas aliadas de Moro que falaram foi a deputada Policial Katia Sastre (PL-SP), que disse que Greenwald deveria ser preso. "Quem deveria ser julgado e condenado e sair daqui preso é o jornalista, que em conjunto com o hacker cometeu crime", disse a parlamentar.