Lava Jato descartou gravação sobre tríplex por receio de ajudar Lula: 'Pode ser ruim para nós'

João de Mari
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Brazilian former President Luiz Inacio Lula da Silva arrives fro a meeting with Italian Cgil union, in Rome, Thursday, Feb. 13, 2020. Da Silva was released from prison in early November after 19 months in detention, when Brazil's Supreme Court ruled a person can be imprisoned only after all appeals have been exhausted. Da Silva, who governed Brazil from 2003 to 2010, denies wrongdoing and says corruption cases against him are politically motivated. (AP Photo/Andrew Medichini)
Na gravação, uma funcionária da Odebrecht confirma que a ex-primeira-dama Marisa Letícia desistiu da compra do apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo (Foto: AP Photo/Andrew Medichini)

Os procuradores da Operação Lava Jato decidiram descartar uma gravação na qual uma funcionária da Odebrecht confirma que a ex-primeira-dama Marisa Letícia desistiu da compra do apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo.

De acordo com o UOL, os investigadores acreditaram que o diálogo poderia ajudar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dando força à tese de que ele não tinha envolvimento com o imóvel.

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No dia 13 de setembro de 2016, procuradores do Ministério Público Federal do Paraná (MP-PR) discutiram por mensagens em grupo do WhatsApp sobre a inclusão de um trecho obtido por meio de uma interceptação telefônica de Mariuza Marques, funcionária da empreiteira OAS, encarregada da supervisão do edifício.

"Pessoal, especialmente Deltan [Dallagnol, coordenador da Lava Jato], temos que pensar bem se vamos utilizar esse diálogo da MARIUZA, objeto da interceptação. O diálogo pode encaixar na tese do LULA de que não quis o apartamento. Pode ser ruim para nós", escreveu o procurador Athayde Ribeiro Costa.

Os diálogos, apresentados nesta segunda-feira (1º) pela defesa de Lula ao Supremo Tribunal Federal (STF), foram extraídos de mensagens obtidas por meio de um ataque hacker, alvo da Operação Spoofing.

Segundo o documento, o procurador Athayde compartilhou com os colegas o trecho sobre o qual fez a observação. Para a Lava Jato, a interceptação telefônica deixava "claro que as reformas feitas no imóvel foram feitas no interesse de Marisa Letícia [esposa de Lula], e demonstrou a necessidade de ocultar essa informação".

Marisa tinha cota para um apartamento simples em um edifício da cooperativa Bancoop na cidade do litoral paulista. A cooperativa faliu e a OAS assumiu o empreendimento em 2009. O edifício ficou pronto em 2013.

Porém, Marisa desistiu de sua cota dois anos depois, em 2015 — a Justiça paulista, inclusive, chegou a ordenar que OAS e Bancoop devolvessem valores referentes ao imóvel a Marisa. Ela e Lula visitaram o imóvel em 2014.

Os procuradores da força-tarefa de Curitiba discutiram a necessidade de endurecer com a empreiteira OAS antes que ela voltasse à mesa de negociação de uma delação premiada.

O que diz o MPF

Ao UOL, o MPF-PR reiterou não reconhecer a autenticidade das mensagens, feitas em grupo no aplicativo Telegram.

Sobre o diálogo abordado pela defesa de Lula, a procuradoria diz que ele incrimina o ex-presidente sem explicar contudo por que o uso do grampo foi rejeitado na denúncia.

O MPF-PR diz ainda que a defesa de Lula "repete sua a estratégia de deturpar o conteúdo das supostas mensagens para criar uma narrativa de ilegalidades que nunca ocorreram".

Defesa reclama da Lava Jato

De acordo com o UOL, para defesa de Lula, liderada pelos advogados Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Martins, a interceptação telefônica de Mariuza "poderia subsidiar a Defesa Técnica do Reclamante [Lula]".

"Quantas provas de inocência do Reclamante foram ocultadas?", questiona na petição enviada ao STF.

"A verdade, de qualquer forma, é que até mesmo a interceptação realizada contra a funcionária da OAS —sobre a qual não se tem notícia nos autos de origem— confirmou o que sempre foi dito pela Defesa Técnica: D. Marisa adquiriu e pagou uma cota e foi ao empreendimento pronto para verificar se havia interesse em utilizar a aplicação como parte do pagamnto de uma unidade assumida pela OAS. E simplesmente não quis realizar a compra".