Moro fala em ataque à Lava Jato. República de Curitiba acabou?

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
O ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Sergio Lima / AFP.  (via Getty Images)
O ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Sergio Lima / AFP. (via Getty Images)

No último dia 25, a subprocuradora-geral da República Lindora de Araújo realizou uma visita de trabalho à força-tarefa da Lava Jato em Curitiba (PR). Braço direito do procurador-geral, Augusto Aras, ela buscava informações sobre o estágio das investigações sobre as quais ela havia solicitado uma cópia da bases de dados em mãos dos procuradores do Paraná.

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No dia seguinte, o grupo de trabalho pediu demissão. Deixaram as funções na equipe os procuradores Hebert Reis Mesquita, Luana Macedo Vargas, Maria Clara Noleto e Victor Riccely Lins Santos.

O motivo, segundo os demissionários, é que Lindora havia tentado obter ilegalmente acesso a informações ainda sigilosas, conforme um ofício enviado à Corregedoria do Ministério Público Federal e obtido pelo jornal O Globo.

Ofício, visita de trabalho, cópia, base de dados: o que parece papo entediante de burocrata em torno da máquina de xerox pode ser um dos maiores reveses ao grupo de procuradores desde que a força-tarefa foi alçada a símbolo nacional do combate à corrupção.

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Até outro dia, era o próprio presidente Jair Bolsonaro quem chamava Sergio Moro, responsável por julgar (e orientar, segundo a Vaza Jato) os trabalhos da turma, de patrimônio nacional.

Agora a conversa é outra.

A suspeita dos procuradores é que Aras busque acessar dados da Lava Jato para atacar o ex-magistrado e ex-ministro da Justiça.

Moro acusou o golpe.

No começo da semana, ele disse no Twitter que a Lava Jato está sob ataque. E defendeu na publicação, como aprimoramento para o combate à corrupção, o respeito à lista da PGR, mandato para delegado da Polícia Federal, o fim do foro privilegiado e a execução da condenação em segunda instância -- temas hoje delicados para Jair Bolsonaro.

Foi ele, afinal, quem driblou a lista tríplice dos candidatos mais votados para a PGR e decidiu que cabia a Aras chefiar o MPF. A escolha de delegados da PF está no centro da suspeita sobre uma possível interferência de Bolsonaro na PF, razão pela qual deixou o governo. E seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), acaba de ser beneficiado pelo foro na investigação sobre as supostas rachadinhas em seus tempos de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio.

A defesa ou não da prisão após condenação em segunda instância depende agora do famoso quem; enquanto pegar inimigos, ótimo. Mas e se a Justiça funcionar também para familiares palacianos?

Pouco depois do racha entre procuradores de Curitiba e os chefes em Brasília, o jornal Correio Braziliense teve acesso a um ofício assinado pelo vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, dizendo que as chamadas forças-tarefas do MPF representam um modelo “pródigo em anomalias” e incompatível “com o perfil constitucional do Ministério Público e institucionalmente desagregadores e disruptivos”.

Segundo Jacques de Medeiros, muitos processos enviados ao MPF do DF foram absorvidos pelos procuradores da unidade sem a organização de uma força-tarefa, num recado indireto à instituição baseada em Curitiba.

Há quem veja no desmanche da força-tarefa paranaense uma reação absurda que antecipa a campanha em defesa da candidatura de Sergio Moro à Presidência em 2022. O nó seriam possíveis abusos cometidos pelo grupo, que hoje estariam no radar de Brasília, como uso irregular de gravadores.

Moro pode não ter provas, mas aparentemente tem convicção de que a mudança de gestão e procedimento do MPF agora é um ataque à Lava Jato, operação que mostrou os dentes contra gestões anteriores mas chega banguela numa fase decisiva do governo do qual seu símbolo máximo fazia parte até outro dia.