Lázaro, Henry, Kathlen e outros: relembre os crimes que marcaram 2021

·13 min de leitura
Lázaro, Henry e Kathlen - Foto: Reprodução/Divulgação/Arquivo Pessoal
Lázaro, Henry e Kathlen - Foto: Reprodução/Divulgação/Arquivo Pessoal
  • Em 12 meses, os brasileiros voltaram suas atenções para casos como do fugitivo Lázaro Barbosa, o menino Henry Borel e das chacinas no Rio de Janeiro;

  • Com o isolamento social, o número de estupros registrados no Brasil cresceu 8%;

  • Parte dos crimes ainda seguem sem solução.

O ano ficou marcado por crimes hediondos, chocantes e acompanhados de perto pela população. Trancados em casa durante boa parte de 2021, os brasileiros voltaram suas atenções dia após dia para o desenrolar de casos como os do então fugitivo Lázaro Barbosa, do menino Henry Borel e das chacinas em morros do Rio de Janeiro.

Além dos crimes mais televisionados, o Brasil registrou recordes de violência estrutural: o número de estupros registrados no Brasil cresceu 8% após o isolamento social; a PM foi responsável por 60% dos casos de violência; e estouram casos de feminicídio no país.

Goiás: Os 270 contra Lázaro Barbosa

Por 20 dias, a população brasileira assistiu capítulos da caçada organizada pela polícia para encontrar o fugitivo Lázaro Barbosa de Souza, no distrito de Cocalzinho (GO). Se os crimes cometidos por ele, que envolviam assassinatos e estupros, tinham requintes de crueldade, o papel das instituições não deixou por menos: o homem foi capturado e morto com pelo menos 125 tiros disparados pela polícia.

Durante a procura, logo chamada de caçada ao ‘serial killer do DF’, apelido dado ao suspeito, 270 agentes das polícias civil e militar do Distrito Federal e de Goiás, cinco cães farejadores, helicópteros e outros recursos foram usados. Em meio à mata fechada, pontos de bloqueio foram também feitos por homens da Polícia Federal e Rodoviária. A operação contou com disque-denúncia e rapidamente ganhou notoriedade nacional e caráter predatório.

Especialistas defendem que a forma como o caso foi noticiado, bem como a ação das forças de segurança, colocaram a vida de Lázaro em risco, além de reforçar discursos como o da justiça com as próprias mãos. Portanto, a execução do suspeito já era esperada.

Policiais da Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas) de Goiás aparecem se abraçando e comemorando após transportarem o corpo de Lázaro Barbosa a uma ambulância | Fotos: Reprodução/Redes sociais e Divulgação/Policia Civil
Policiais da Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas) de Goiás aparecem se abraçando e comemorando após transportarem o corpo de Lázaro Barbosa a uma ambulância | Fotos: Reprodução/Redes sociais e Divulgação/Policia Civil

O caso também virou símbolo de disputa política, em que ‘personalidades’ queriam fazer parte da busca ao criminoso. A deputada federal Magda Moffato (PL-GO) publicou nas redes sociais um vídeo em que aparece segurando um fuzil dentro de um helicóptero para capturar Lázaro. O vereador Inspetor Alberto (Pros), de Fortaleza, viajou para o interior de Goiás para participar das buscas. “Eu não tô indo para brincar, eu tô indo para fazer o que aprendi em mais de 30 anos de polícia”, disse o Inspetor Alberto. Jair Bolsonaro também aproveitou para defender o armamento da população, e parabenizou o governo de Goiás após a execução do fugitivo.

As buscas por Lázaro começaram no dia 9 de junho, após ele invadir uma chácara em Ceilândia (DF) e matar quatro pessoas de uma mesma família. O criminoso já havia sido condenado três vezes, por homicídio, estupro e outros crimes. Ele fugiu da cadeia em 2018 e até então seguia foragido. O rastro de crimes e suas rotas de fuga circundavam os municípios goianos de Girassol, Cocalzinho de Goiás, Edilândia e Águas Lindas de Goiás, todas no entorno do Distrito Federal.

Outro ponto criticado no caso foi a investigação da Polícia sobre a motivação dos crimes cometidos por Lázaro.

Kathlen Romeu e as chacinas na pandemia fluminense

Kathlen Romeu, de 24 anos, estava grávida de quatro meses e foi morta com um tiro de fuzil no peito, disparado por um policial no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O caso aconteceu em meio a determinação do Supremo Tribunal Federal (ADPF 635/STF), que restringe operações de forças de segurança em favelas. A operação foi feita pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do bairro Lins de Vasconcelos, na região Grajaú-Jacarepaguá.

Uma moradora do Complexo, que estava no momento em que a jovem foi assassinada, afirmou que os disparos partiram de um policial. A testemunha contou que não havia no momento da morte nenhum ‘confronto entre policiais e bandidos’, diferente da versão oficial divulgada pelas autoridades.

Missa em homenagem a Kathlen. Foto: Reprodução.
Missa em homenagem a Kathlen. Foto: Reprodução.

"Eu estava na hora exata, eles (os policiais) já estavam escondidos dentro da comunidade desde as 6h da manhã. Não havia confronto, o que tinha eram as crianças e moradores circulando pela favela", afirmou a testemunha ao Yahoo! Notícias.

Na investigação, foram ouvidos cinco dos 12 policiais militares que estavam no local do crime. Também foram apreendidas as armas dos PMs: 10 fuzis calibre 7.62, dois fuzis calibre 5.56 e nove pistolas .40.

A madrinha de Kathlen contou que moradores da comunidade viram a PM retornar ao local do crime para retirar cápsulas de balas do chão, na intenção de ocultar os responsáveis pela morte da modelo. Após um mês do caso, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e o Ministério Público do Rio de Janeiro passaram a considerar suspeitas de fraude processual por parte dos PMs envolvidos no caso, que configuram alteração da cena do crime.

A OAB-RJ e organizações de Direitos Humanos criticaram veementemente a ação da Polícia Militar, conhecida como tróia - quando policiais ficam de tocaia escondidos em algum local para surpreender "suspeitos" e executá-los. A prática quase sempre produz vítimas fatais, e já vem sendo denunciada há anos.

Em novembro, a deputada estadual Renata Souza (PSOL) articulou um encontro com o presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), André Ceciliano (PT), para que fosse cobrada a aprovação do PL Kathlen Romeu (463/21), que homenageia a jovem e proíbe a prática de “tróias”.Redação Notícias

O tiro que matou a jovem partiu da arma de um policial militar. A conclusão é da Delegacia de Homicídios da Capital. A investigação da Polícia Civil, até o momento, não consegue determinar quem efetuou o disparo e deve ser encerrado até o início de 2022.

Maiores chacinas da história

O estado do Rio de Janeiro viveu um ano de tiroteios e mortes sob comando do governador Cláudio Castro. Em maio, a Polícia Civil do Estado realizou uma operação na favela do Jacarezinho, localizada na zona norte da cidade – com o uso de equipamentos de guerra: caveirões, fuzis e helicópteros. A ação foi considerada a mais letal da história fluminense, com total de 29 pessoas assassinadas.

Um dia após esta operação, as avaliações positivas sobre o governo cresceram nas redes sociais. Informações obtidas pela jornalista Mônica Bergamo mostraram que o número de menções positivas do governante passaram de 12% para 41% após a ação no Jacarezinho.

Operação policial no Jacarezinho deixou 28 pessoas mortas em 06 de maio | Foto: Reprodução/Joel Luiz Costa/Twitter
Operação policial no Jacarezinho deixou 28 pessoas mortas em 06 de maio | Foto: Reprodução/Joel Luiz Costa/Twitter

Já em novembro, moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do RJ, viveram dias de terror. Em uma segunda-feira, foram encontrados ao menos nove corpos torturados em um manguezal da região. De acordo com relatos, houve ali uma operação disfarçada de chacina, novamente com a versão das Forças de Segurança contrariando a população local.

Os moradores da comunidade falam em uma chacina provocada pela política militar após a morte de um PM ocorrida no fim de semana. A corporação, por sua vez, fala em “confrontos”. O porta-voz da PM, tenente-coronel Ivan Blaz, afirmou que houve “confrontos intensos” na área de mangue.

Um clima de tensão e medo tomou conta do conjunto de sete favelas, onde vivem cerca de 60 mil pessoas na região metropolitana do Rio de Janeiro. “Os corpos estão todos jogados no mangue, com sinais de tortura. As pessoas, uma jogada por cima da outra. Estava com sinal totalmente de chacina mesmo”, disse um morador.

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos pediu para que seja feita uma investigação, em um processo independente, sobre a chacina. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, de 1º de janeiro até dezembro, ocorreram 45 chacinas durante ações ou operações policiais na Região Metropolitana do Rio, com total 192 mortos.

O "caso Henry"

A morte do menino Henry Borel, de apenas 4 anos, marcou pela crueldade e pela longa investigação, que aos poucos esclareceu que o suposto acidente havia sido, na verdade, um crime bárbaro praticado justamente por aqueles que deveriam proteger o garoto.

Henry morreu no dia 8 de março, na casa onde vivia desde o início do ano com sua mãe, Monique Medeiros, e o padrasto, o então vereador do Rio de Janeiro Dr. Jairinho. Inicialmente, a explicação do casal era de que o garoto havia se acidentado durante a madrugada.

Monique afirmara que apagou quando assistia a um filme, acordou por volta das 3h30 com o barulho da televisão, e foi ao quarto do filho, encontrando-o deitado no chão com as extremidades geladas e o olho revirado. O garoto foi levado a um hospital, mas as enfermeiras explicaram que ele já estava morto.

Jairinho e Monique foram presos pela morte de Henry - Foto: Divulgação
Jairinho e Monique foram presos pela morte de Henry - Foto: Divulgação

Os primeiros indícios de que a alegação do casal era falsa partiram dos laudos médicos. A gravidade das lesões na cabeça e no abdômen de Henry indicavam que ele havia sido agredido.

A análise de depoimentos e provas resultou na prisão de Jairinho e Monique no dia 8 de abril, por homicídio duplamente qualificado, atrapalhar as investigações e ameaçar testemunhas. A polícia entendeu que o vereador, que já agredira Henry em outras oportunidades, atacou o menino na madrugada de sua morte, e que a mãe do garoto acobertou o caso.

A notícia gerou comoção na sociedade e, especialmente, no pai de Henry, Leniel. Jairinho teve o mandato de vereador cassado, o registro de médico suspenso e viu duas ex-namoradas o acusarem de agredir e torturar seus filhos, sendo indiciado por um dos casos.

Jairinho e Monique seguem detidos. A primeira audiência do caso, no dia 6 de outubro, foi marcada por mais uma mudança na versão da babá da criança, Thayna Ferreira, que, ao contrário do que dissera anteriormente, classificou a relação do casal com Henry como “harmoniosa”.

Chacina na creche de Saudade

Em Saudade, no interior de Santa Catarina, foram três crianças assassinadas a facadas na creche Pró-Infância Aquarela em 4 de maio. Duas funcionárias também morreram.

Fabiano Kipper Mai, de 18 anos, invadiu o recinto naquela manhã e golpeou crianças e adultos sem motivação aparente. Duas meninas de menos de dois anos de idade morreram na hora, assim como uma professora.

Uma segunda funcionária e outro bebê chegaram a ser encaminhados a um hospital, mas não resistiram. Um garoto de 1 ano e 8 meses foi atingido, mas recuperou-se após ser submetido a cirurgia.

Assassino de 18 anos foi identificado como Fabiano Kipper Mai - Foto: Reprodução
Assassino de 18 anos foi identificado como Fabiano Kipper Mai - Foto: Reprodução

Trabalhadores da creche conseguiram esconder algumas crianças e impediram que a tragédia fosse ainda maior. Fabiano tentou suicidar-se, também a facadas, mas acabou resgatado e encaminhado a um hospital. Oito dias depois, recebeu alta e foi levado para a prisão.

A polícia concluiu o inquérito e explicou que o criminoso planejou a chacina por cerca de 10 meses. Os agentes relataram que o rapaz tinha um perfil “problemático”, de quem “sofria bullying na escola”.

Segundo a investigação, Fabiano escolheu a creche pela fragilidade das vítimas. Ele foi denunciado por cinco homicídios, além de uma tentativa de homicídio, com agravante de crime triplamente qualificado. O rapaz continua preso.

Violência na fronteira com o Paraguai

O ano também ficou marcado pela extrema violência de crimes ocorridos na fronteira do Brasil com o Paraguai, mais precisamente nas cidades de Pedro Juan Caballero, em território paraguaio, e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.

Entre os dias 8 e 9 de outubro, cinco pessoas foram assassinadas na região. Primeiro, foi o vereador ponta-poranense Farid Charbell Badaoui Afif (DEM-MS), de 37 anos. Ele foi executado a tiros por criminosos em uma motocicleta quando pedalava pela cidade sul-mato-grossense.

Na madrugada do dia seguinte, quatro pessoas também foram mortas quando deixavam uma casa noturna em Pedro Juan Caballero, entre elas, Haylee Carolina Acevedo Yunis, de 21 anos, filha do governador de Amambay, Ronald Acevedo.

"Justiceiros" costumam deixar bilhetes após os assassinatos - Foto: Reprodução
"Justiceiros" costumam deixar bilhetes após os assassinatos - Foto: Reprodução

A polícia levantou a possibilidade de o Primeiro Comando da Capital (PCC) estar por trás da chacina, mas a violência na região não limitou-se a esses dias tenebrosos. Um grupo identificado como “Justiceiros da Fronteira” foi responsável por uma série de assassinatos meses antes.

No dia 26 de julho, um casal foi morto com 35 tiros em Pedro Juan Caballero. À cabeça do homem, foi preso um bilhete com os dizeres: “Por favor, não roubar. Ass: Justiceiros da Fronteira”. Dois dias mais tarde, o corpo de um adolescente de 17 anos foi encontrado na região com um recado semelhante: “Os Justiceiros estão de volta, avisamos que é só o começo da morte dos ladrões”.

Ainda naquela semana, mas no dia 1º de agosto, os Justiceiros mataram dois irmãos em Pedro Juan Caballero e assumiram a autoria em um bilhete, no qual os acusavam de “roubo”.

Feminicídios

Um caso chocante tomou as manchetes do país após um episódio de feminicídio. Uma jovem com corpo concretado em uma parede. Também em outubro, uma mulher foi morta em um condomínio de alto padrão em Salvador

O mais novo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que, após um período de subnotificação durante o isolamento social por conta da pandemia de covid-19, o número de casos de estupro no Brasil voltou a crescer no primeiro semestre de 2021, em comparação com o mesmo período do ano passado.

Mulher foi concretada em obra - Foto: Arquivo Pessoal
Mulher foi concretada em obra - Foto: Arquivo Pessoal

Se não bastasse, o Fórum mostrou também que o registro de feminicídios no primeiro semestre deste ano foi o mais alto desde 2017, quando a série histórica começou.

Na comparação dos períodos, o número de estupros em geral e de vulneráveis, tendo a mulher como vítima, cresceu 8,3% - foi de 24.664 nos primeiros seis meses de 2020 para 26.709 neste ano.

“Novo cangaço”

O ano também ficou marcado por verdadeiras megaoperações criminosas, que ficaram conhecidas como “novo cangaço”. Tratam-se de quadrilhas volumosas e fortemente armadas que cercam cidades e causam terror na busca por grandes quantidades de dinheiro.

No dia 30 de agosto, a cidade de Araçatuba, no interior de São Paulo, foi alvo de uma quadrilha dessas. Ao menos 30 homens participaram da ação que resultou em três mortes e cinco feridos.

Quadrilha espalhou terror durante madrugada em Araçatuba - Foto: Reprodução
Quadrilha espalhou terror durante madrugada em Araçatuba - Foto: Reprodução

Vídeos daquela madrugada exibiram o terror espalhado pela quadrilha, que assaltou agências bancárias e conseguiu fugir com dinheiro.

Em maio, um grupo explodiu uma agência bancária e atirou contra uma delegacia na cidade de Amontoada, no interior do Ceará. Os criminosos agiram também de madrugada e conseguiram fugir com uma quantia financeira.

Meses antes, em abril, crimes consecutivos aconteceram em São Paulo e Minas Gerais. Primeiro, criminosos causaram terror na cidade de Mococa-SP e roubaram três agências da cidade. No dia seguinte, Jacuí foi alvo de ação semelhante, quando um grupo explodiu uma agência do Banco do Brasil e também conseguiu efetuar o roubo.

Relembre outros crimes que marcaram 2021

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos