Leandro Lehart volta com o Art Popular e busca reconexão com o samba que faziam nos anos 80

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No meio da onda de grupos de pagode que varreu o Brasil nos anos 1990, nenhum foi tão ousado quanto o paulistano Art Popular. O coletivo liderado por Leandro Lehart esticou a corda do samba, com bem-sucedidos acenos a estilos tão variados quanto o sertanejo (em “Fricote”, gravada com João Paulo & Daniel), o americano r&b (“Temporal”), o jamaicano raggamuffin (“Requebrabum”) e o samba-rock dos bailes de SP (“Agamamou”). Mas agora que na música brasileira as misturas improváveis — antecipadas nos 90 pelo Art e por artistas como Chico Science e Carlinhos Brown — são regra, o grupo propõe uma volta à essência do samba com o lançamento, esta sexta-feira, de “Pandeiro”, primeiro álbum da trilogia “Batuque de magia”.

A reconexão leva o Art Popular aos anos 1980, quando seus integrantes eram garotos da periferia fascinados pela renovada tradição do samba que vinha do Rio de Janeiro pelas mãos e vozes de Jorge Aragão (cantor e compositor do sucesso “Coisa de pele”, em cujos versos eles encontraram o nome do grupo) e do Fundo de Quintal.

— Na verdade, a gente é pagode 80, não pagode 90. O Art Popular começou cedo, e uma das nossas regras de sobrevivência nos anos 80 era acompanhar artistas que vinham do Rio para São Paulo e não levavam suas bandas. Eu tinha 13 para 14 anos e acompanhei Zeca [Pagodinho], Almir [Guineto], Jorge Aragão, Jovelina [Pérola Negra]... — conta Leandro, hoje com 49 anos, dividido entre as atividades do grupo e a direção do Centro Cultural São Paulo (ele é o primeiro músico popular a ocupar o cargo):— Fiquei assustado no início, mas já faz quase 10 meses que estou lá e me sinto útil, apesar de saber que ainda há um longo caminho.

Segundo Leandro, a volta à sonoridade de mestres como os do Fundo de Quintal se deve, de certo modo, à pandemia.

— Tínhamos que recuperar a alegria de gravar e, ao mesmo tempo, transformar esse disco num companheiro para quem estava se queixando que o samba tinha perdido essências. A gente ainda é aquele grupo que começou lá em 1984 com dinheiro de pizza, que ficava para cima e para baixo no ônibus com cavaquinho, sem ambição de fazer carreira.

A viagem do artista ao passado começou com “Os bambas”, musical que ele escreveu falando sobre o samba dos anos 1960 e 70. Ele ia sair em turnê com o espetáculo quando começou a pandemia.

— “Os bambas” fala, por exemplo, do Mussum como um dos maiores bandleaders da música brasileira com os Originais do Samba. Eles abasteceram discos com um ritmo que, depois do surgimento do Fundo de Quintal, acabou desaparecendo — acusa. — Em todo instante da arte no Brasil, quando se mistura demais e se perde a essência, você tem que estabelecer uma nova conexão.

Recheado de participações de figuras históricas do pagode nos anos 1980 e 90 (como os produtores Bira Haway e Milton Manhães), “Batuque de magia” teve metade de suas composições, mais despretensiosas, feitas antes da pandemia. E a outra metade, “falando de questões mais profundas”, depois. O primeiro lançamento, “Pandeiro” reúne os sambas de partido alto. “Cavaquinho”, que sai em janeiro, traz as mais românticas. E “Tantan”, em fevereiro, “os sambas de roda mais alegres e imponentes”.

— As pessoas estão sem tempo para ouvir músicas inéditas, e o nosso segmento está obcecado por regravações. Aí a gente fez um teste com mil fãs no Telegram e eles nos disseram para dividir esse disco em três e colocar juntas as músicas que fossem ritmicamente mais parecidas, porque as pessoas hoje ouvem músicas em playlists — explica Leandro, para quem o Art Popular só sobreviveu por saber se reinventar. — Muitos artistas vivem de uma música que já aconteceu, flashback, do pagode saudade. A gente está se cutucando o tempo inteiro, e começou a divulgar “Batuque de magia” um ano atrás. Esse é um disco que tem um milhão de curtidas antes mesmo de sair.

Uma novidade que o Art Popular traz em “Pandeiro” é que este é o primeiro disco no Brasil todo mixado em Dolby Atmos — sistema que cria uma experiência tridimensional, surround, do som em fones de ouvido comuns.

Hoje, Leandro Lehart segue acompanhando o samba que vem do Rio — em especial, nomes como Ferrugem e Dilsinho, que trilham agora o caminho que o Art Popular fez nos anos 1990, incorporando a influência melódica estrangeira de Stevie Wonder e Boys II Men.

— Um dia, o Ferrugem vai vai voltar para a casa da mãe, que é o samba, e vai conseguir conciliar essas duas coisas na carreira dele — aposta.

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