Leilão do pré-sal fica limitado a 11 empresas; asiáticas dominam

Por Rodrigo Viga Gaier

RIO DE JANEIRO, 19 Set (Reuters) - O leilão de Libra, maior reserva de petróleo descoberta no pré-sal brasileiro, deverá ser disputado por no máximo 11 empresas, em sua maioria asiáticas, informou a ANP nesta quinta-feira, frustrando a expectativa de que o leilão pudesse atrair muito mais interessados.

O número de empresas que pagaram a taxa de participação--primeiro passo para a habilitação no leilão -- ficou bem aquém do esperado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que chegou a falar em até 40 interessados. E a ausência de gigantes, como a norte-americana Exxon Mobil, também foi sentida.

A ANP estima que Libra tem reservas recuperáveis de 8 bilhões e 12 bilhões de barris, o que faria da área a maior do país em petróleo.

"O fato de que empresas com produção importante na área nem sequer se inscreverem para o leilão, me diz que nem todo mundo está convencido de que Libra tem todo esse potencial", disse o geólogo Wagner Freire, consultor da indústria do petróleo e ex-chefe de geofísica na Petrobras.

A primeira área do pré-sal que ser licitada, em leilão marcado para o dia 21 de outubro, será disputada pelas empresas asiáticas Mitsui, do Japão, a indiana ONGC, a malaia Petronas e as chinesas CNOOC e CNPC, informou a ANP no início da noite de quinta-feira, confirmando informação antecipada pela Reuters.

A Repsol Sinopec Brasil, companhia que tem 60 por cento de participação espanhola e 40 por cento da chinesa Sinopec, também deverá participar do leilão, conforme antecipou a Reuters na quarta-feira.

Também pagaram a taxa de participação a Petrobras, a anglo-holandesa Shell, a colombiana Ecopetrol, a francesa Total e a Petrogal, a subsidiária brasileira da portuguesa Galp, que conta também com participação da chinesa Sinopec.

"A gente já estava prevendo a forte participação das asiáticas, o interesse deles já existia e foi confirmado agora. Eles têm uma situação de dependência de importação de petróleo muito grande, uma necessidade de acesso a novas áreas e reservas de grande porte", afirmou à Reuters uma fonte que acompanhou o processo de elaboração da licitação, sob condição de anonimato.

A fonte prevê que as empresas habilitadas irão formar três consórcios para disputar Libra. Após o pagamento da taxa, as petroleiras ainda passam por um processo de habilitação na ANP.

"Se as 11 empresas confirmarem participação (no leilão), necessariamente serão três consórcios, já que cada grupo pode ter no máximo cinco sócios", acrescentou uma fonte do governo, que também pediu anonimato.

O governo espera obter recursos bilionários com a reserva de Libra. Além do pagamento de royalties, o governo também conta no longo prazo com a parcela de petróleo destinada à União, o chamado "óleo lucro". No curto prazo, o governo deve arrecadar 15 bilhões de reais com bônus de assinatura do leilão, que deverá ser pago à vista pelo vencedor da licitação.

No início da semana, a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, afirmou que Libra renderá ao país cerca de 900 bilhões de reais ao longo de 30 anos, considerando royalties e o "óleo lucro".

GRANDES DE FORA

Três gigantes do setor de petróleo, a norte-americana Exxon Mobil, a maior companhia listada do mundo, e as britânicas BP e BG estão fora do leilão, afirmou pela manhã a diretora-geral da ANP.

"Eu recebi telefonemas de três empresas, Exxon, BP e BG, dizendo que não vão participar do leilão do pré-sal por questões muito específicas de cada empresa. No entanto, reafirmaram o interesse no Brasil", disse Magda Chambriard, após um evento da ANP no Rio.

Ao explicar a ausência dessas companhias, a fonte próxima da situação afirmou que, no caso de Exxon e BP, elas foram "muito agressivas na 11a rodada de licitação", realizada em maio no Brasil, além de já terem um portfólio grande espalhado pelo mundo.

A BG não entrou, segundo a fonte do governo, porque já estaria muito alavancada no pré-sal, enquanto a BP evitou participar porque ainda aguarda uma definição sobre eventual penalidade nos Estados Unidos, pelo vazamento de 2010 no Golfo do México.

A leitura, segundo essa fonte, é de que uma eventual punição mais pesada possa afetar a capacidade imediata de investimento. "Além disso, a BP investiu pesado na 11ª rodada", disse o interlocutor.

Fora do governo, a percepção é de que a ausência das grandes pode ter sido motivada pelo modelo de exploração do petróleo do pré-sal, que impõe a Petrobras como operadora única e com participação mínima de 30 por cento no consórcio vencedor.

"A ausência de Exxon e de outros também é um comentário sobre a Petrobras", disse Freire. "Estrategicamente, eu não acho que eles querem ter o trabalho de lidar com a Petrobras e o governo. Você pode obter bons ativos de petróleo em outro lugar sem isso."

O número reduzido de participantes também surpreendeu o consultor e ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, atualmente da Costa Global Consultoria.

"É uma surpresa. A área (de Libra) é extremamente promissora, e não tem oportunidades no mundo em exploração de petróleo como áreas do pré-sal brasileiro", afirmou Costa.

"É uma coisa a ser pensada sobre o motivo de isso ter acontecido", disse ele, referindo-se ao número relativamente limitado de companhias.

A diretora-geral da ANP acredita que a "conjuntura" fez com que o número de participantes fosse menor que o esperado incialmente.

Apesar de uma participação menor que a esperada, a ANP ressaltou em nota que, entre as empresas que se inscreveram para o leilão, "sete estão entre as 11 com maior valor de mercado no mundo: China National Corporation (CNPC) (2a), Shell (3a), Ecopetrol (6a), Petrobras (7a), Total (8a), China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) (10a), Repsol/Sinopec (Sinopec - 11a)".

(Reportagem adicional Jeb Blount, no Rio de Janeiro, Leonardo Goy, em Brasília; Texto e reportagem adicional de Roberto Samora, em São Paulo)

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