Lembranças de Pinochet ressoam em eleições polarizadas no Chile

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Cartaz de Lucía Hiriart, viúva do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, em rua do centro de Santiago
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Por Anthony Esposito

SANTIAGO (Reuters) - A chilena Mireya Garcia, de 64 anos, sente que há mais em jogo do que o normal na eleição presidencial deste domingo.

A votação oferece duas visões para o futuro do Chile: o esquerdista Gabriel Boric, de 35 anos, que liderou protestos em massa quando era estudante universitário, enfrentará o advogado de extrema-direita José Antonio Kast, que defende o legado do ditador Augusto Pinochet.

Para Mireya e muitos de sua geração, esta, a mais polarizada das eleições no Chile desde o retorno à democracia em 1990, abriu velhas feridas.

O irmão dela desapareceu em 1977, durante a ditadura, e os elogios de Kast a Pinochet a irritaram.

"O golpe destruiu totalmente nossa família e nunca mais fomos os mesmos", disse Mireya à Reuters.

“Esta se tornou inesperadamente uma das eleições mais disputadas e o que está em jogo é que, por um lado, a extrema-direita é claramente um perigo para o Chile e, por outro lado, há um candidato que representa a juventude”, afirmou.

Os chilenos mais velhos viveram os anos tumultuados do presidente socialista Salvador Allende, o golpe de 1973 que o destituiu e acabou com sua vida e a sangrenta ditadura militar de 17 anos que se seguiu.

Desde o fim da ditadura, as eleições chilenas geralmente colocam esquerdistas moderados contra candidatos de centro-direita. O país é conhecido como uma ilha de estabilidade e políticas ortodoxas na América Latina.

Agora, as velhas e profundas divisões entre a esquerda socialista e a extrema-direita parecem estar ressurgindo.

Kast elogiou o "legado econômico" de Pinochet orientado para o mercado e apelou aos eleitores com propostas aparentemente tiradas do manual de líderes populistas de direita como Jair Bolsonaro e Donald Trump, como a construção de uma vala para conter a imigração ilegal.

Na noite de quinta-feira, Kast prometeu a milhares de apoiadores em um comício que traria a ordem, depois que protestos em 2019 tiveram prédios em Santiago queimados e milhares de feridos em conflitos com a polícia.

"O Chile não é e nunca será uma nação comunista ou marxista", disse ele, em uma crítica a Boric, que é aliado do Partido Comunista do Chile em uma ampla coalizão de esquerda.

O paralelo histórico não foi perdido pelos partidários de Kast.

“Sou da geração 1973, vivi a festa da Unidade Popular, vivi Salvador Allende e foi caótico”, afirmou a aposentada Aurora Oviedo, de 67 anos, apoiadora do Kast. "Não tínhamos nada para comer e tínhamos que esperar tudo na fila."

Eleito democraticamente, Allende, um marxista, foi derrubado por Pinochet no golpe de 1973. Durante os 17 anos de Pinochet no poder, mais de 3.000 pessoas foram mortas ou desapareceram e dezenas de milhares foram torturadas.

Em um acontecimento inesperado que também trouxe lembranças do legado da ditadura, a viúva de Pinochet, Lúcia Hiriart, morreu na quinta-feira, aos 99 anos.

Em resposta, centenas de pessoas se aglomeraram em uma praça de Santiago, agitando bandeiras e entoando cânticos, algumas com fotos de desaparecidos pelo regime militar.

Manuel Valenzuela, de 78 anos, segurando um retrato de Allende nas mãos, estava entre eles.

A morte da viúva foi "justiça divina" e esperançosamente servirá como um pára-raios para fazer as pessoas votarem em Boric, disse Valenzuela, um ex-exilado político.

Berta Vilche, uma advogada aposentada de 73 anos e apoiadora do Boric, afirmou que "quando as pessoas falam sobre como nossa sociedade é polarizada, elas não sabem do que estão falando".

"A polarização de hoje não tem nada a ver com o que estava acontecendo naquela época. O golpe foi muito, muito terrível."

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