Lenda do xadrez, Magnus Carlsen vive incomum seca de títulos

Vitor Seta
·3 minuto de leitura

Se o atacante Haaland é um fenômeno no futebol norueguês, o mesmo se pode dizer de um jogador de outra modalidade. Mas nesta, há bem mais tempo: um dos maiores jogadores da história do xadrez, Magnus Carlsen vem em momento contrário ao do compatriota. O enxadrista não ganha títulos há seis torneios — muito para sua avassaladora carreira.

Detentor do título mundial há oito anos seguidos — incluindo três defesas no caminho — desde 2013, Carlsen vem de derrota na semifinal do Magnus Carlsen Invitational, torneio online, para o russo Ian Nepomniachtchi.

Dos seis insucessos, sua maior sequência negativa desde que se tornou campeão mundial, o mais significativo para o grande mestre foi no tradicional torneio Tata Steel, em Wijk aan Zee, na Holanda. No único torneio presencial — escassos dada a pandemia da Covid-19 — que disputou nesta sequência, Carlsen registrou seu pior desempenho individual na competição: ficou apenas com a sexta colocação.

— A médio e longo prazo, o maior adversário do Carlsen será a motivação. Ele ganhou tudo e geração dele não é uma geração de ouro como a de Kasparov, Karpov e Bobby Fischer, grandes nomes da história. Não tem um rival à altura, como foi com Karpov e Kasparov, por exemplo. Tendo vencido tudo, e com sucesso financeiro, qual a motivação para permanecer como campeão e número 1 do mundo? Isso quem vai poder dizer é só ele — analisa Mauro Amaral, árbitro internacional de xadrez ouvido pelo GLOBO.

Na Holanda, Carlsen teve um raro insucesso contra um jogador muito jovem. Perdeu para o russo Andrey Esipenko, de apenas 18 anos, em janeiro. Apesar da diferença de idades ter chamado a atenção na partida (Carlsen completa 31 anos em novembro deste ano), Amaral explica que a questão etária não é tão relevante na modalidade.

— Nós comparamos a idade do enxadrista com a idade do jogador de futebol e isso não tem nada a ver. O Viswanathan Anand, ex-campeão mundial, que perdeu pro Carlsen, inclusive, está com 51 anos e continua jogando normalmente. O que piora para o enxadrista com a idade é o cálculo, e só. O jogador não esquece o conhecimento de aberturas, de finais, a experiência — explica ele.

De fato, a seca de de troféus não faz parte de um ciclo de declínio na carreira do norueguês. Pelo contrário: Carlsen vem de um dos melhores momentos em termos de títulos. Entre 2018 e 2019, chegou a garantir a primeira colocação em oito oportunidades seguidas, incluindo vitórias no Tata Steel e no Grand Prix de Zagreb.

— Acredito que seja o mesmo sentimento, para ser honesto. É sobre como lidar em retrospecto, depois dos torneios, mas também no momento. Fico chateado quando perco, como sempre fiquei. Minha vontade de tentar ganhar todos os jogos é claramente a mesma — refletiu ele, quando perguntado sobre a sensação de ser derrotado nesse ponto da carreira, em entrevista a Ilya Levitov, em fevereiro.

O norueguês terá bastante tempo para se recuperar. Entre novembro e dezembro, ele tentará defender novamente seu título mundial em uma série de 14 jogos em Dubai. Seu adversário será conhecido no fim de abril.