Lênin, as mulheres, a sombra e o reverso de 1917

Alex Antunes

Vladimir Safatle é um intelectual e político que honra o próprio nome. Não no sentido de produzir boas argumentações (ele até as produz, às vezes, quando o assunto não é cultura – porque aí ele sempre falha). Mas no de cultivar uma aparência cuidadosamente parecida com outro Vladimir, o Lênin, tido como um gigante na história da esquerda.

Acontece que, outro dia, Safatle conseguiu produzir um artigo que não sintetiza qualquer poder de fogo mas, ao contrário, toda a paralisia, perplexidade, inadequação, atraso e (consequentemente) burrice da esquerda de hoje. Claro que é daquele tipo de burrice masculina, arrogante que, na incapacidade de achar respostas, atribui o erro ao outro.

Em Um fascista mora ao lado, ainda que alerte antes que “o termo ‘fascista’ é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva (…) ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político”, ele passa em seguida a atacar a “maioria da classe média” que “com sua semiformação característica assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista”.

Acontece que os números da pesquisa que ele mesmo cita não sustentam essa afirmação. Segundo esses, Bolsonaro é o candidato de 1/5 daqueles que possuem ensino superior (20,7 %), e de 1/5 dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5 %, empatado com Lula). Esses dados parecem apontar para que 1/5 da classe média flerta com um candidato de ideário fascista (o termo cabe ao candidato, não necessariamente ao eleitor), e mesmo isso tem que ser visto com cautela.

Eu não acho que Bolsonaro, com sua encenação de radicalismo à direita, não represente um certo perigo político. Mas esse perigo é equivalente ao que o próprio crescimento de Lula representa (com o qual Safatle não parece se preocupar). Ou, mais precisamente, eles são exatamente o mesmo perigo. Um alimenta o outro. Lula e Bolsonaro querem reconstruir um embate político superado, um clichê tardo-seculovintista. O recurso de Safatle de acusar a classe média, ao invés de trazer alguma clareza à discussão, de representar as questões atualmente colocadas, trabalha no sentido oposto, de jogá-la no colo de Bolsonaro (já que na de Lula não vai ser). Mas, se Bolsonaro acabasse eleito, seria necessariamente com o voto das classes C e D – como Lula o foi.

O que nos leva de volta a Lênin. Em um texto inédito, chamado O Turbante de Lênin, a minha amiga Tatiana Roque, professora de filosofia na UFRJ, faz uma espécie de reflexão sobre o que diria um Lênin (não necessariamente aquele Lênin) hoje. Em 1902, portanto bem antes da revolução, ao escrever o clássico O que fazer?, o revolucionário russo enxergou de maneira mais clara a conexão entre o impulso social espontâneo da população de então, e as possibilidades e responsabilidades de atuação de um partido revolucionário, bem para além do que supunha a social-democracia russa.

Há hoje de novo uma necessidade de ruptura conceitual que os Lênines de araque (e aí estou falando de inúmeras lideranças atuais, não só de Safatle) absolutamente não estão vislumbrando. “Esse vazio de organização, de soluções de continuidade que nos devolvam perspectivas de futuro, assombrou o desenrolar das manifestações de junho de 2013 – quando ficou claro que as organizações tradicionais não davam conta do recado – e continua nos assombrando agora. Vem daí, penso, nossa dificuldade em lidar com as reivindicações do movimento negro, das feministas e das outras ditas ‘minorias’. Enquanto aguardamos uma ruptura leninista em fase com nosso tempo, nos angustiamos e nos contentamos com a detração de todo gesto que escape ao projeto da esquerda”, diz ela.

E acrescenta: “A energia subjetiva que falta às organizações tradicionais da esquerda, como partidos e sindicatos, sobra nos coletivos formados a partir de causas específicas. O excesso assusta, mas assusta porque escancara o estado de inanição da esquerda, com suas formas de organização caducas. Falar de universalismo não adianta, pois, sem se observar as condições em que o conceito de universal foi forjado e com que fim é usado, trata-se de mero exercício de abstração (além do que, como aponta [o filósofo francês Étienne] Balibar , o universalismo divide, mais do que unifica)”.

Ontem, a propósito do 8 de março, Tatiana voltou à carga em outra reflexão, Trabalhos invisíveis – Ou o que o feminismo tem a ensinar para a esquerda?. “Queremos que toda a esquerda preste mais atenção ao que estamos dizendo quando mostramos que, há muitos séculos, temos realizado diversos trabalhos invisíveis enquanto tal. Neste exato momento, em que o processo de valorização passa cada vez mais pela realização de trabalhos invisíveis, nossa expertise pode ajudar vocês a saírem do impasse em que se meteram, sem precisarem continuar reproduzindo ad æternum os discursos que descreviam o mundo do trabalho no século 19, ou até meados do século 20, mas que estão totalmente caducos para explicar o que se passa no mundo atual”.

É interessante que (como conta Demétrio Magnoli neste texto), foram as mulheres, e o 8 de março, que produziram mais um ajuste em tempo real nas posições de Lênin, em 1917. Foram elas que chamaram, contra as diretrizes do partido, uma manifestação feminista que serviu de estopim à revolução branca de fevereiro, precursora e condição da revolução vermelha de outubro. Deixo à parte a constatação que Magnoli faz de que, ao fim, as propostas sociais-democratas (mencheviques) permaneceriam em pauta até hoje, enquanto as leninistas (bolcheviques) é que foram destinadas à “lata de lixo da história” (no termo cunhado pelo próprio Lênin).

Porque, no curto prazo, naquela ocasião, foram as mulheres que colocaram a roda da história em movimento. Aqui e aqui há bons textos com mais informações sobre todas as confusões que cercam a origem do 8 de março. Eles expõem a dificuldade não só dos capitalistas como a dos partidos comunistas em lidarem com os fatos. E o enorme peso das lutas feministas, como o sufragismo, no desenvolvimento de uma consciência social (sequestrada pelas organizações de esquerda de viés machista).

Também é preciso estabelecer outra verdade histórica. Nunca foi a “classe média” que deu sustentação ao fascismo (e ao nazismo); foram as classes mais despossuídas e ameaçadas por crises econômicas, ansiando por respostas autoritárias e populistas. Acabamos de assistir isso com o brexit, e mesmo a eleição de Trump. Ao contrário, a classe média contribuiu com muitos intelectuais revolucionários, ao longo do século 20. É esse erro que o psolista Safatle acaba reproduzindo, em sua busca por culpados pelo colapso no charme (e na inteligência) da esquerda tradicional. Sobre isso, o mesmo Magnoli tem uma fala interessante, que pode ser encontrada no youtube.

As relações capitalistas atingiram hoje um estágio de grande desenvolvimento dos “trabalhos invisíveis” (não vou me estender aqui sobre todas as complexas implicações sócio-econômicas do termo para Tatiana Roque, e para autoras feministas contemporâneas, mas recomendo a leitura atenta). Esse estágio do capitalismo transformou a esquerda numa assombração ranzinza, agarrada às antigas formas de organização, calcadas no trabalho fabril, que não dão mais conta da realidade. Talvez esse 1917 às avessas exija não um novo Lênin, mas uma lenina para matar a charada.

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