Lenny Niemeyer revisita trajetória para celebrar três décadas da marca que leva seu nome

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Lenny Niemeyer se lembra perfeitamente do primeiro biquíni que “criou”, ainda nos anos 1980. Natural de Santos e recém-chegada ao Rio, a estilista, paisagista por formação (então casada com o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, com quem teve dois filhos), comprou um modelo verde-claro numa loja carioca e dissecou a minúscula peça, um escândalo para a paulista na época, e a reconstruiu com alguns centímetros a mais. Para arrematar, buscou no açougue um pedaço de osso, que virou argola após ser lixado. Nascia ali, na sala de casa, uma nova profissão. A designer passou a desenvolver produtos para grifes importantes como Fiorucci e Andrea Saletto, numa espécie de ensaio para o grande ato que viria na sequência: uma marca própria. Em 1991, lançou, em Ipanema, a marca que leva seu nome, expoente da versão mais glamourosa e elegante do beachwear brasileiro.

Festeira e anfitriã animada, Lenny celebra hoje os 30 anos da grife, com desfile no Caminho Niemeyer, em Niterói. Mas a comemoração, diferentemente de outros tempos, será apenas na passarela. A coleção de alto verão 2022 revistará as últimas três décadas, reinterpretadas de uma maneira abstrata e espiritual. “Será uma gênesis guiada pela luz”, diz a estilista, que desenhou estampas a partir do movimento das modelos, em efeitos visuais e sombras. As artes, a arquitetura e a natureza serão pontos importantes para compreender o trabalho.

Lenny afirma que o momento é otimista, com um pé no futuro. “Não me considero uma sobrevivente por estar celebrando essa data no Brasil. Na verdade, o sentimento é de vitória por estar fazendo o que eu gosto. Não carrego sequelas desse 30 anos.”

No extinto Fashion Rio e na São Paulo Fashion Week, a estilista fez história ao levar o biquíni, originalmente uma criação francesa de 1946, às últimas consequências. Ela já cortou o duas-peças a laser, levou a flora e a fauna brasileiras para estampas, aplicou azulejos em maiôs, fez uma linha inteira de roupa para o pós-praia e trouxe as tops mais importantes do mundo para sua passarela. Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Izabel Goulart, Letícia Birkheuer, Michelle Alves, Ana Beatriz Barros e Raica Oliveram foram alguns nomes que brilharam em seus desfiles. Desenhou ainda os trajes que os atletas do Time Brasil usaram nas cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio.

Entre os colegas de profissão, Lenny é referência. “Ela tem uma importância enorme na moda do Rio. Com seu trabalho primoroso, traduziu o lifestyle carioca como poucos conseguiram! Uma pessoa que sempre admirei e merece muitos vivas. Trinta anos e cada vez melhor”, elogia Jacqueline De Biase, fundadora da Salinas.

A crítica e consultora de moda Gloria Kalil faz uma tese. “Definir bom gosto é uma tarefa difícil, quase impossível. Cada tribo com sua estética, seu conceito de gosto. Complicado alguém que agrade a todo mundo”, começa Gloria. “Pois é aí, numa brecha inesperada e sútil, que entra Lenny Niemeyer, com suas cores, estampas, modelagens, proporções delicadas que levam em conta os diferentes corpos e desejos de quem compra uma roupa que desveste o corpo. Posso afirmar que Lenny, com seu gosto, que eu chamaria de bom gosto, é unanimidade: não há bolha nem praia que não se encante com sua moda.”

De olho no futuro, a estilista acrescentou ao portfólio uma linha sustentável, feita com rede de pesca. “É um caminho sem volta dentro da empresa. Para tentar ser o mais eco-friendly possível, precisamos rever várias coisas, inclusive deixar de lado nosso famoso nécessaire, confeccionado com plástico”, observa a designer, que afirma estar mais discreta em relações às festas de arromba que paravam o Rio. “Não é que deixei de comemorar. Mas estou promovendo encontros para grupo menores, em casa. Não é o momento de grandes aglomerações ainda. Chegará essa hora.”

Essa sabe ser elegante.

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