Lentes da pandemia ajudaram os distraídos a ver a tragédia do racismo, diz Jurema Werneck

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***ARQUIVO*** BRASILIA, DF,  BRASIL,  24-06-2021: Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 24-06-2021: Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Jurema Werneck, médica e diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, acredita que, se alguém ainda não tinha percebido a tragédia que o racismo estrutural produz na vida de homens e mulheres negras, as lentes da pandemia a deixaram evidente.

Ouvida recentemente na CPI da Covid, que investiga a atuação do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) na gestão da pandemia de coronavírus, disse que "o vírus procura oportunidade, mas a injustiça, a desigualdade, as iniquidades fizeram diferença".

Os negros foram as principais vítimas da Covid-19 e, mesmo na pandemia, continuaram a ser alvos da violência policial. Para Werneck, esse é o objetivo do Estado: fazer morrer indesejáveis.

"A morte é um produto constante do racismo", disse em entrevista à Folha.

A diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil acredita que mulheres negras deveriam estar no centro das decisões do Estado.

Mostra, porém, que chegam ao Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, neste 25 de julho, mais vulneráveis que antes da pandemia.

*

Folha - Para que aspecto da vida da mulher negra brasileira o Estado deve olhar?

Jurema Werneck - Deve olhar para a vida da mulher negra. As mulheres negras são o maior segmento populacional do Brasil. Mas também vemos indicadores que mostram que 38% das mulheres negras vivem na pobreza.

Quando olhamos o impacto direto da Covid-19, vemos que a população negra teve taxas de mortes mais altas que o restante da população. É verdade que as maiores taxas estão entre os homens, mas as taxas entre as mulheres estão altas.

E as taxas de morte por Covid entre os homens negros também têm um impacto forte na vida das mulheres [negras], porque são homens adultos que desaparecem da família, cujo rendimento ou cuja presença ajudava na gestão familiar, e com o desaparecimento desse homem, o peso fica sobre os ombros das mulheres negras.

Ou seja, tem que olhar pra vida das mulheres negras. Dizendo de outra forma, tem que botar o direito das mulheres negras no centro de qualquer decisão de gestão.

Folha - De acordo com a Pesquisa Nacional da Saúde de 2019, do IBGE, entre os adultos, pessoas negras são as principais usuárias do SUS. Mulheres negras, porém, estão entre as mais vulneráveis na pandemia de coronavírus. Onde esses dados se encontram?

Jurema Werneck - Isso não quer dizer um atendimento adequado e de qualidade. Os números da Covid são um exemplo. Tivemos altas taxas de morte nas unidades pré-hospitalares, nos pronto-socorros e UPAs [Unidades de Pronto Atendimento], ou seja, as pessoas não tiveram nem chance de entrar [no sistema]. E a maioria das pessoas que morreram lá eram negras. Essa disparidade segue sendo retratada.

Eu não estou dizendo que o SUS é ruim. Eu estou dizendo que ele não é bom. Essa precariedade do SUS está associada a essa negligência em relação à população.

Folha - Os 545 mil mortos no Brasil tem cor e endereço: são principalmente negros e pobres. A pandemia de coronavírus evidenciou ou agravou problemas já existentes?

Jurema Werneck - Certamente os dois. Ela evidenciou para os distraídos, porque eu acredito que haja distraídos no Brasil que não tenham visto antes a tragédia que o racismo sistêmico produz sobre nós, mulheres e homens negros. Mas se alguém não tinha visto antes, as lentes da pandemia ajudaram a ver.

A pandemia não inventou o efeito que o racismo sistêmico tem na vida da população negra e das mulheres negras, mas aprofundou porque antes eram cerca de 33% das mulheres negras vivendo na pobreza, e na pandemia passou a 38%. É um aprofundamento.

Folha - As mortes também continuaram nas operações policiais, a despeito da decisão do STF que limitou operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia. Os homens negros são as principais vítimas, embora mulheres negras também sejam atingidas. Na sua avaliação, a violência de Estado atinge os homens e as mulheres negras de forma diferente?

Jurema Werneck - É de forma diferente porque a bala, no volume, atinge mais os corpos dos homens negros. Mas quando a bala atinge o corpo de um homem negro, uma mulher negra está sendo atingida também. Há também uma quantidade de mulheres e meninas que são mortas. Todos e todas nós somos atingidas.

Essa reiteração da liberdade com que o racismo participa da produção da morte, da definição de quem vive e quem morre, atinge a todas nós. Atinge mais aos homens, mas junto com aquele homem que morre, existem mulheres em torno, que são atingidas de uma forma ou de outra.

Folha - Os dados deste ano do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a letalidade policial bateu recorde em 2020, independentemente da pandemia. Entre as vítimas, 78,9% são negras.

Jurema Werneck - Isso mostra o quão perversa é a ação do Estado. Não apenas na expressão da ação da polícia mas no fato das outras instituições diante deste absurdo não ser interrompido.

A polícia continuou produzindo mortes no Rio de Janeiro, por exemplo, mas o comandante não foi responsabilizado. O comando acima do comandante, que é o governador, não foi responsabilizado. O Ministério Público, que tem o dever de fazer a supervisão do trabalho policial e garantir a legalidade da ação policial, permanece em silêncio. O Supremo Tribunal Federal, sendo desobedecido em sua decisão, não faz nada em tempo de salvar vidas.

Se tivessem feito alguma coisa, é possível que Kathlen e seu filho estivessem vivos até hoje. É se fazer morrer e deixar morrer. É isso que se chama de necropolítica e a minha geração chama simplesmente de racismo.

Folha - Os negros são os mais afetados pela violência policial e são os que mais morrem na pandemia. Me parece que o luto é uma constante na vida da população negra.

Jurema Werneck - Porque a morte é um produto constante do racismo. Para usar o termo mais moderno, do Achille Mbembe, a necropolítica é exatamente isso, fazer morrer os indesejáveis. Sob o racismo, os indesejáveis somos nós, negras, negros, indígenas e ciganos. É pra fazer morrer a gente. A morte é a marca.

Nas organizações, nós temos usado há muito tempo a morte como principal indicador da perversidade do racismo sistêmico. Não é o único, mas tem sido [o principal]. A gente chama atenção para a morte porque ela é real. Ela acontece em volume.

Folha - E o que falta para esse luto constante parar, para que essa produção de mortes cesse? A população não negra se responsabilizar? O Estado? Representatividade legislativa?

Jurema Werneck - O racismo sistêmico, ou seja, a regra que estrutura as regras de funcionamento do Brasil como estado e como nação, inclusive seu povo e sua sociedade, está fundada nos alicerces do racismo. Então falta refundar a nação.

O que significa refundar a nação? Responsabilizar a todos e todas. Responsabilizar, como dizia a frase do Malcolm X, responsabilizar por todos os meios necessários. Precisamos de outro país. Esse país desse jeito tem que acabar. E não é uma mudança radical, porque dentro desse país que precisa acabar já existe o outro país que precisa existir.

Uma parte substancial da sociedade já age contra o racismo, e a gente precisa que essa ação impacte de forma mais profunda as estruturas a ponto de derrubá-las. O outro lado está ancorado num alicerce mais potente, de mais de 500 anos. É preciso que nossos alicerces se fortifiquem, seja na lei, seja na responsabilização individual, seja na responsabilização coletiva.

Jurema Werneck, 59

É diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil desde 2017 e fundadora da ONG Criola, que trabalha em defesa dos direitos das mulheres negras. Formou-se em medicina pela UFF (Universidade Federal Fluminense), é mestre em engenharia de produção e doutora em comunicação e cultura pela UFRJ

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