Lentidão da vacinação em Brasília gera aglomerações pela xepa e fuga para Goiás

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BRASÍLIA — O fim da tarde de sexta-feira se tornou o momento mais esperado da semana para quem ainda não tomou uma vacina contra Covid-19 e vive na capital do país. Não por causa do happy hour, tampouco pelo pôr-do-sol no Cerrado. Diante da lentidão da vacinação no Distrito Federal, centenas de moradores peregrinam por unidades básicas de saúde entre 16h e 17h durante em busca de uma dose da vacina na xepa — uma pequena sobra que não pode ser jogada fora e precisa ser aplicada no mesmo dia.

A busca pela xepa ocorre durante toda a semana, mas sexta-feira é o ponto alto. Isso porque os frascos de alguns imunizantes, quando abertos, podem ser guardados de um dia para o outro. Mas como a maioria das unidades de saúde do Distrito Federal não aplica vacinas durante os finais de semana, todos os imunizantes que sobram precisam ser aplicados na sexta-feira.

A alta procura tem relação com a lentidão da vacinação em Brasília. Enquanto as principais capitais do país já vacinam pessoas abaixo dos 40 anos e prepararam um calendário, o governo do Distrito Federal anunciou na quinta-feira a abertura de vagas para o público entre 40 e 49 anos. A grande procura gerou uma instabilidade nos sites do governo do DF, que ficaram fora do ar por horas. Isso porque a aplicação dos imunizantes na capital do país só é feita mediante agendamento, o que gera um cenário inusitado. Postos vazios durante o dia e filas cheias no final da tarde, no horário da xepa.

Na última sexta-feira, esse era o cenário na Unidade Básica de Saúde 1 da Asa Sul. Enquanto os chamados "sommeliers de vacina" questionavam as enfermeiras sobre o tipo de vacina disponível, cerca de cem pessoas esperavam por uma dose de qualquer tipo de imunizante na xepa. Mas só sobraram quatro doses.

— Eu estava com o vírus quando estava na minha vez e não pude tomar a vacina. Depois, o GDF fechou para profissionais da saúde, não tem como agendar. Eu acho que, se já foi liberado um grupo, esse grupo tinha que poder agendar constantemente — afirma Marcos Oliveira, 34, que é fisioterapeuta e conseguiu uma dose na xepa da UBS 1 da Asa Sul.

Na quinta-feira, em outra unidade da capital, no bairro Lago Norte, o movimento era vazio até às 16h. A partir desse horário, começam a chegar os primeiros candidatos à xepa. Nesse dia, cerca de 50 pessoas se reuniram diante da tenda de vacinação à espera de uma dose. Às 17h, a enfermeira faz o anúncio: sobraram apenas duas doses, que foram destinadas a grupos prioritários. Uma profissional de saúde e um professor foram contemplados.

Até os critérios da xepa mudam semanalmente no DF. Na semana anterior, a sobra estava sendo aplicada por critério de idade. Nesta semana, foram colocados grupos prioritários na frente da fila.

Pela quinta vez, o estudante Igor Oliveira, de 21 anos, tentou, sem sucesso, uma vacina na xepa do Lago Norte. O jovem conseguiu uma bolsa de estudos em uma universidade na França, mas precisa estar imunizado para entrar no país europeu. Com prazo apertado para iniciar as aulas em agosto, Oliveira fez um cartaz para sensibilizar as pessoas no posto de saúde: "Ajude-me a realizar meu sonho! Perderei minha bolsa de estudos na França se não vacinar na xepa!".

— É frustrante. A pessoa passa anos trabalhando para uma coisa, consegue ser aprovado numa bolsa. Conseguiu o mais difícil e é tirado dela por algo que não é sua culpa. É muito chato estar na xepa com esse cartaz, tentar pedir para as pessoas me deixarem passar na frente, afinal é uma questão de vida ou morte para todos — afirma.

Em entrevista concedida na última semana, o secretário de Saúde do DF, Osnei Okumoto, atribuiu os postos vazios à "organização".

— Quando você vai a uma base de vacinação e está vazia, é porque você fez agendamento. Você tem agendamento de seis a nove pessoas por hora, então, logicamente, quando você chegar ali, vai ter pouca gente. Isso é organização — disse.

Dados da SES-DF mostram que 1.103.283 pessoas tomaram a primeira dose até sexta-feira — o equivalente a 37,51% da população. Desse total, 391.178 completaram o esquema vacinal com a segunda dose. Outras 41.746 pessoas receberam a vacina da Janssen, aplicada em dose única. Ao todo, só 14,18% da população está totalmente imunizada. Em queda no ranking de vacinação, a capital federal está atrás de estados como São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.

Movimento inverso

Diante desse cenário, brasilienses têm ido se vacinar em cidades de Goiás, num movimento inverso ao que ocorre historicamente, porque a vacinação por idade está mais acelerada. Eram os moradores desses locais, na região do Entorno, que vinham buscar tratamento médico na capital federal.

No fim do mês passado, o governo de Goiás divulgou já ter vacinado 82 mil moradores do Distrito Federal. Procurada, a Secretaria estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) não informou dados atualizados.

Moradora de Samambaia (DF), a cabelereira Carmen Cezar, 47, deslocou-se até a cidade de Águas Lindas, a 50,3km de Brasília, para se vacinar pelo critério de idade, porque o calendário estava mais adiantado. Algumas cidades de Goiás decidiram não cobrar comprovante de residência, o que incentivou esse movimento.

— Foi tudo tranquilo, fui muito bem atendida — relembra ela, que aguarda a segunda dose em outubro.

O agendamento prévio para receber a primeira dose é alvo de críticas. As 21 mil vagas para pessoas a partir de 41 anos no Distrito Federal se esgotaram em 30 minutos no último 10 de julho, o que foi considerado uma espécie de “sorteio de vacinas”. A marcação, implementada pela SES-DF para coibir aglomerações, também é classificada como excludente já que uma parcela do público não tem acesso à internet. A grande quantidade de grupos prioritários inseridos na fila da vacinação do DF também é citada por especialistas como um motivo para a lentidão.

— Foram criados vários grupos prioritários (no DF) com base em quem fazia mais barulho ganhava vacina. No começo, pessoas de outros estados vieram se vacinar e também houve subdimensionamento de algumas categorias — explica a infectologista Ana Helena Germoglio, do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN).

Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Saúde informou que estados e municípios têm autonomia para definir estratégias de imunização. “A recomendação do Ministério da Saúde é que, ao final do expediente do dia de vacinação, seja analisada a necessidade de otimizar doses ainda disponíveis em frascos abertos, que podem ser direcionadas para pessoas dos grupos prioritários do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, priorizando o grupo que está sendo contemplado no momento", diz, em nota.

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