Leonardo Avritzer: Confiança na democracia melhora, mesmo com extrema-direita mais agressiva

A pesquisa “A cara da democracia” traz, em sua quinta edição, uma boa notícia para o país: aumentou o número de brasileiros que não aceitariam um golpe de Estado. Para 59% dos entrevistados, a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. E, principalmente, há uma maioria de brasileiros não aceitando que, nem mesmo em um cenário de muita corrupção ou de aumento da criminalidade, um golpe ou intervenção militar seja justificável. Ou seja, os brasileiros querem resolver os nossos problemas em um ambiente democrático, com os instrumentos fornecidos pela democracia.

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No entanto, apesar dos avanços importantes em relação ao apoio à democracia no Brasil, há dados que precisam ser observados com bastante cuidado, pois apontam para uma direção contrária. Entre esses resultados, está um enorme crescimento, no Brasil, da extrema-direita, especialmente nos últimos dois anos. Já em 2018, a pesquisa “A cara da democracia” mostrou um aumento no número de brasileiros que se declaravam de direita — esse percentual era então de 9% da população. O dado observado pela pesquisa à época representou, sem dúvida, o fim do fenômeno comumente denominado de “direita envergonhada” — ou seja, parte dos brasileiros não tinha mais vergonha em assumir uma identidade política com as pautas e as diretrizes da direita, e a conotação negativa que a vinculação a esse escopo suscitava não era mais motivo de incômodo ou preocupação.

Em 2022, a pesquisa revela algo ainda mais intenso, qual seja, o aumento do número de brasileiros que se declaram de extrema-direita, especialmente nos pontos mais extremos. Essa constatação, obtida a partir do levantamento, aponta na direção de um êxito relativo do bolsonarismo em estimular a formação de uma extrema-direita movimentalista no Brasil, influência que se mantém apesar do péssimo desempenho do governo Bolsonaro em áreas como saúde, educação e meio ambiente. Portanto, independentemente da avaliação no que diz respeito ao exercício do governo, como apontam diversas pesquisas, o bolsonarismo conseguiu realizar um dos seus objetivos: formar uma base de extrema-direita que vai influenciar a política brasileira pelos próximos anos, especialmente a partir de questões morais.

Assim, a agenda da democracia se torna mais complexa no país. De um lado, uma maioria de brasileiros percebe que o sistema é um valor absoluto e a única forma de resolver os graves problemas. De outro, temos uma minoria relativamente consolidada que não acredita na democracia e que se organiza contra as instituições democráticas. Esse será o jogo a ser jogado nos próximos anos.

* Leonardo Avritzer é professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG

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