Letícia Bufoni conta bastidores do projeto que uniu skate e salto de paraquedas: 'Me senti a versão feminina do Tom Cruise'

Não tem missão impossível para Letícia Bufoni. A skatista do Brasil, cujo life style é acompanhado por milhares de seguidores em suas redes sociais e em seu novo canal de Youtube (Welcome to My Life), teve um sonho maluco e decidiu realizá-lo. Ela se viu andando de skate num avião e levou a ideia a Red Bull, sua patrocinadora desde 2017. O sonho se tornou realidade após cinco anos, quando o "Sky Grind'' saiu do papel e da cachola de Bufoni.

Além de andar de skate a 3 mil metros de altura, em uma pista montada no Hércules C-130, avião utilizado em filme da grife Velozes e Furiosos, ela deslizou de um corrimão direto para um salto de paraquedas, em 30 de agosto, na cidade de Merced, Califórnia. Tudo devidamente filmado por Craig O'Brien, o mesmo skydiver que pula com Tom Cruise em ‘Missão Impossível: Efeito Fallout’.

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A realização da manobra intitulada ‘sky grind’ pode render a Bufoni a quarta entrada no Guiness Book, o Livro dos Recordes. Certificada a saltar sozinha, a brasileira contou com treinamentos de Jeffrey Provenzano, paraquedista estadunidense vencedor do Campeonato Mundial Vertical Relative Work, dono de cinco recordes mundiais, conhecido por acrobacias aéreas e detentor da manobra ‘The Miracle Man’, equiparada ao mortal de costas no motocross estilo-livre.

Em entrevista exclusiva ao O GLOBO, Bufoni conta sobre os bastidores desta saga, incluindo os episódios de puro medo, e qual poderá ser o próximo sonho.

Você teve um ano de 2022 diferente. Havia dito que, além dos seus negócios, gravava uma série documental com a Red Bull, lançaria canal próprio no YouTube (Welcome to My Life), além de um projeto misterioso com skate e avião. Como foi este ano para você, quais as melhores lembranças e aprendizados?

Foi bem diferente mesmo, o primeiro ano da minha carreira em que deixei de competir para poder focar em outros projetos. Achei até que seria mais tranquilo. Mas não foi. Tive muitas viagens, fiquei mais próxima dos meus patrocinadores e do meu time e produzi muito conteúdo. Gravei bastante para meu canal no Youtube e ainda estamos produzindo o documentário sobre a minha vida, com a Red Bull. Foquei em coisas que não dava para fazer porque sempre priorizei as competições. Sem dúvida alguma, o projeto mais especial do ano foi o "Sky Grind".

Sobre este projeto: quem teve a ideia?

A ideia foi minha. Eu sempre quis juntar o skate e o paraquedismo que são dois esportes que eu amo. Há algum tempo, eu havia visto um anúncio em que uma pessoa andava de skate numa mini rampa pendurada por um balão. Depois disso, cheguei a sonhar que andava de skate dentro de um avião e levei esta história para a Red Bull. ​O sonho era vago. Não tinha a parte do paraquedas, mas fiquei com isso na cabeça. A gente começou este projeto em 2017. Ele mudou muito deste então. Passamos todos estes anos planejando e se preparando.

Não te parecia uma missão impossível?

Para ser sincera, achei que seria uma missão impossível sim. Não acreditava até o dia em que vi o avião pela primeira vez. E até nesse dia eu ainda fiquei com dúvida. Será que vai acontecer? Cara, não tinha ideia de como montariam uma pista dentro do avião. Uma coisa é montar no chão, a outra é dentro de um avião. Foram cinco anos, né? Vários momentos, inclusive pausas, em que nem falávamos do projeto. Achei por várias vezes que haviam desistido e não ia rolar.

E quando você acreditou que ia rolar de fato?

No dia em que a gente chegou para começar os treinos e a gravação. Por conta da Olimpíada e minha agenda, eu estava sem saltar de paraquedas por 3 anos e quatro meses. Tive que fazer toda uma reciclagem para voltar aos saltos e também treinamento de pouso. Filmamos em um lugar que eu não conhecia muito bem e queria ter certeza que faríamos tudo com muita segurança. Só de janeiro ao final de julho fiz mais de 60 saltos de treinamento, entre a Argentina e os Estados Unidos. Além disso fiz um treinamento físico mais puxado, para aumentar a massa muscular e aguentar o paraquedas, de dez quilos, nas costas.

Quando você foi para o Hércules para valer?

O primeiro dia, no local do salto, foi ainda de treinamento. Para me adaptar à pista e ao paraquedas. O avião, por mais que pareça gigante, não é tão gigante assim para uma pista de skate. Por mais que a pista tenha sido muito bem feita e estava estável, era muito apertada, os obstáculos eram muito juntos. Tive de me adaptar bastante. Em alguns momentos tive dificuldade de acertar as manobras porque saía de uma e já estava de frente com outro obstáculo.

E o dia D? Como foi? Quantas vezes tentou executar as manobras e o salto?

Só tínhamos quatro vôos. E tudo foi muito tenso. Porque apesar do planejamento, não sabíamos como seria. Nunca ninguém havia dado um feeble grind (trick em que a atleta desliza no corrimão apoiado de lado com o truck de trás do skate) a 3 mil metros de altura. Uma preocupação constante era com o vento. Como seria quando abrisse a porta? Tive receio de errar a manobra no começo do corrimão, algo dar errado e eu cair na porta do avião e bater em algum lugar. Porque quando o vento bate, tudo voa. É muito forte. Quando eu fiz a primeira tentativa, sem tentar o grind ainda, vi que era possível controlar o vento. Na segunda, foi bacana mas não tinha sido do jeito que eu queria. E a terceira, foi perfeita. Melhor do que imaginei. Consegui deslizar no corrimão, dar o grind e ainda manter o skate nos pés por alguns segundos no ar. Na minha cabeça, isso seria impossível. A partir daí, é um salto de paraquedas normal. Sequi os procedimentos até o pouso. E o skate também caiu de paraquedas, que feito especial para ele. Guardei de lembrança esse skate e o paraquedas. Não uso mais, é histórico. Realizei a quarta tentativa. Foi mais de alívio e diversão, para comemorar.

Qual era a meta deste projeto? Você pode ter uma quarta menção no Guiness Book (já é a “Mulher com mais medalhas de ouro no Street nos X-Games (5)” , "Mulher com mais medalhas nos X-Games de Verão (12)” e “Mulher com o maior número de vitórias no ranking mundial de skate da Copa do Mundo(4 consecutivas).

A meta era juntar os dois esportes que amo e fazer algo inédito. No começo não pensei em Guiness Book. Mas fico feliz com essa possibilidade.

Como você lida com o medo? Como consegue se controlar? As pernas tremeram em algum momento?

O medo para mim é diferente. Não sinto as pernas mas sinto meu coração batendo muito forte, parece que vejo a blusa se mexer junto. De alguma forma, consigo transformar este medo e a adrenalina na motivação para ir além, para fazer. Eu tive medo durante o projeto todo, estava insegura. Ainda mais um projeto tão grande, com muitas pessoas e dinheiro envolvidos. No final do dia, só dependia de mim fazer a coisa acontecer. E isso traz medo e insegurança também. Fui 100% focada e rolou.

Quando você conseguiu o grind e começou o paraquedismo, o que sentiu? Como foi a descida?

Assim que o paraquedas abriu eu comecei a gritar. Sozinha no ar. Sabia que esse era o salto, a imagem que precisávamos, a minha comemoração. Pousei feliz e até um pouco rápido, estava empolgada e acabei ralando as mãos. Pousei com tudo e abracei a Gabi (manager), da Red Bull, e o Pedro Scooby.

Você teve em seu time até um skydiver hollywoodiano, o Craig O'Brien, que pulou com Tom Cruise em ‘Missão Impossível: Efeito Fallout’...

Me senti a versão feminina de Tom Cruise. O cara que havia treinado o Tom Cruise e que fez Missão Impossível, me treinando também... Fizeram uma surpresa para mim, fui avisada depois de um tempo. E foi incrível. Me senti bem segura.

Depois de um negócio maluco deste, qual será o próximo desafio?

Acho que vai ser bem difícil algo superar isso, viu! Vamos lançar este projeto primeiro, ver a reação do público e quem sabe não tenho outro sonho maluco.

Quais os planos para 2023?

Minha prioridade número um será o skate. E a segunda prioridade, pilotar carros.

Como assim, pilotar carros?

Já estou fazendo umas corridas e no ano que vem quero fazer mais circuitos. Estou empolgada e me dedicando bastante. Ainda não posso falar muito sobre estes projetos.

Já que falou de carros... Você tem um professor que é piloto de F-1?

Quem está me ajudando é o Travis Pastrana que não é da F-1. É piloto de rallycross. Estou fazendo circuito com ele e estou achando incrível.

Em uma live, a Rayssa deu a entender que você está namorando um piloto de F-1. É verdade?

(risos). Sem comentários. A Rayssa gosta de contar as minhas coisas... deixa ela.

Olhando pelo retrovisor, você tem algum arrependimento de ter dado um tempo das competições de skate este ano?

Por mais que eu não estivesse competindo, eu andei bastante de skate. O que muitas pessoas não sabem é que no skate tem um mundo paralelo ao da competição. É um mundo todinho de skate também e muito bacana. O esporte está sendo acompanhado mais agora, quando entrou para os Jogos Olímpicos. Mas em breve as pessoas vão entender essa dinâmica da modalidade.