Letícia Colin e Vanessa Giacomo contam como se adaptaram à mudança de visual com o cabelo curtinho: veja dicas de especialistas

Diferente. Impactante. Ousado. Sexy. Radical. Charmoso. Delicado. Os cabelos curtos de Letícia Colin, em “Todas as flores”, e Vanessa Giacomo, em “Travessia”, saem do lugar-comum e despertam os mais variados elogios e impressões nas telespectadoras das novelas do Globoplay e da Globo, respectivamente. Cuidadosamente pensados pelas equipes de caracterização das tramas, de acordo com a personalidade de cada personagem, os looks foram elaborados também a partir de palpites das atrizes, que se empolgaram com a oportunidade de passar por uma grande transformação para o trabalho e na vida.

— Eu paquero o cabelo curto há muito tempo, porque adoro a força que esse corte traz para a mulher. Acho que a gente vem, há muitos e muitos anos, atrelando a feminilidade ao cabelo longo. Isso já não existe mais. Temos que aprender e agradecer muito às nossas amigas europeias, às francesas principalmente, que sempre usaram os curtinhos — opina Letícia, que já havia experimentado um visual próximo do atual: — Eu tinha tido cabelo curto umas duas outras vezes, inclusive na pandemia. Depois daquele momento em que ficamos muito tempo trancados dentro de casa, eu queria recomeçar. Então, raspei o cabelo, e foi ótimo! Todas as vezes que faço isso é muito bom, eu me sinto como se desse um “reboot” (reinício). Os fios crescem mais fortes, mais brilhosos...

Agora, para encarnar a impetuosa e cruel Vanessa de “Todas as flores”, a atriz teve apenas a lateral da cabeça raspada e os fios mais longos jogados para o outro lado, num corte de cabelo denominado “sidecut”.

— Não usamos referência nenhuma. Letícia veio com o cabelo curto, e a doença (a personagem tem leucemia no início da trama) ocupava mais capítulos, então decidimos raspar as laterais quando ela usou o lenço na cabeça. Depois, resolvemos fazer o moicano. Julice de Paula, a cabeleireira da equipe, foi a responsável pela transformação, na prática. Fomos cortando juntas. Eu falava “corta aqui, corta ali”. A cada 15 dias, Letícia faz a manutenção com um profissional nosso — conta Lucila Robirosa, caracterizadora de “Todas as flores”.

Para Letícia, a lateral da cabeça raspada traz o tom de agressividade que a personagem criada por João Emanuel Carneiro pede.

— Deu uma nova cara para essa vilã. Esse corte tem uma pegada punk, agressiva. Eu queria que o visual dela ajudasse a contar essa história de subversão, de ela querer romper com as coisas. Vanessa paga pra ver, tem atitude — observa Letícia, completando: — É muito contemporâneo esse corte. Ele tem força, feminilidade, inovação. Era um visual que eu já queria muito usar, então fiquei feliz, porque não é sempre que as nossas personagens têm os visuais que a gente deseja, né?

Na vida pessoal, a sensação de carregar um curtinho por aí é de libertação e praticidade, conta a atriz:

— Por ser menos cabelo, tudo fica mais prático e rápido. Eu amo e cuido do meu curto como se ele fosse gigante, no sentido de dedicação. Cabelo curto não é coisa de quem tem menos vaidade. Ao contrário. Pede muito produto, e eu estou usando de tudo: pomada, aquele pozinho que dá volume, xampu seco, de vez em quando um spray para finalizar, gel se quero dar um efeito molhado... É um cabelo com mil e uma possibilidades, muito vivo. E eu sempre gostei de hidratar os fios, lavar com xampu antirresíduos, porque acabo usando muito produto para texturizar. Mantenho os cuidados de sempre, só que levo menos tempo agora.

Julice de Paula responde:

Letícia Colin é belíssima, tem face harmônica, de formato quadrado. Quem tem rosto redondo e/ou bochechas proeminentes também fica bem com um “sidecut”?

Essa não seria a primeira opção para quem tem rosto redondo e bochechas proeminentes. Mas podemos brincar com as franjas e os cortes assimétricos, criando ângulos no rosto.

E para quem tem orelhas de abano e testa larga, como funciona?

Nesses casos, recomendo as franjas em suas inúmeras variações, se adequando aos formatos do rosto, para ficar um corte harmônico e o resultado ser positivo.

A primeira vez é inesquecível

Já para Vanessa Giacomo, a transformação para viver a Leonor de “Travessia” foi radical: ela nunca tinha adotado um corte tão curto na vida.

— Só chanel, no máximo. Sempre tive vontade de cortar curtinho, mas queria esperar até que uma personagem pedisse isso. Aí fiquei enrolando, enrolando... Até que chegou a hora (risos) — conta.

Responsável pela caracterização na novela de Gloria Perez, ao lado de Rachel Furman, o visagista Fernando Torquatto conta que a inspiração para a imagem de Leonor foi basicamente o da atriz francesa Audrey Tautou.

— Usamos o visual dela como uma referência: cosmopolita, com charme, mistério e, ao mesmo tempo, força e fragilidade. Leonor morou fora do Brasil, não dá tanta importância para o cabelo comprido quanto as brasileiras — detalha.

Avisada com um mês de antecedência que passaria pela mudança, Vanessa se preparou, e bem, para se sentar na cadeira do famoso hairstylist Neandro Ferreira. A atriz diz que pesquisou muitas e diversas imagens de cortes na internet, e foi compartilhando suas opiniões e inseguranças.

— Neandro me perguntava: “Qual dessas? Porque você está me mostrando cabelos completamente diferentes...”. E eu dizia: “Um pouquinho de cada”. Praticamente enlouqueci ele (risos). Cortamos bem devagar, ficamos três horas nesse processo — lembra a atriz: — Quando terminou, a sensação que me veio ao me olhar no espelho foi a de satisfação junto com uma curiosidade para descobrir Leonor.

Com 35 anos de experiência com as tesouras, Neandro entrega também ter ficado um tanto nervoso com a missão que lhe foi atribuída:

— Não fiquei inseguro com a execução em si. Com toda a modéstia, corto cabelos há mais de três décadas, estudei e morei em Londres, me especializei em técnicas elaboradas... Então, sou bem firme na hora de desenhar e conceituar visuais. Mas, pela primeira vez, eu fazia uma transformação para um trabalho da Vanessa e não por vontade própria dela. Ela sempre esteve nesse lugar da mulher brasileira, morena, de cabelo longo. E eu sempre tive vontade de vê-la mais moderna. Que bom que ela está sustentando lindamente esse corte “pixie”!

Agora segura de si, Vanessa diz que não esperava que fosse gostar tanto de ostentar os fios curtinhos.

— Esse é um corte prático. Você pode personalizar com uma pomada, por exemplo, tem mil maneiras de usar. E eu redescobri o meu guarda-roupa, a maneira de me vestir, que acessórios usar… Tem sido bem gostoso — detalha ela, que faz a manutenção uma vez por mês.

Rachel Furman percebeu que o público ficou surpreso ao se deparar com uma Vanessa tão diferente da que estava acostumado a ver.

— As pessoas estão adorando, acham ousado e chique. Algumas mulheres, que antes não tinham coragem, se sentiram motivadas a fazer o mesmo corte — conta a caracterizadora, opinando: — Eu acho que qualquer pessoa pode ter cabelo curto. Só é preciso respeitar o formato de cada rosto, o corte precisa ser personalizado.

Neandro confirma: “o cabelo da Vanessa Giacomo” está requisitadíssimo em seus salões no Rio e em São Paulo.

— Toda semana aparece alguém pedindo igual. É um corte para mulheres livres de padrões, que não acham que ser sensual é ter cabelão pra jogar. Estamos num momento de abandonar clichês. Vanessa está sexy, feminina. Cabelo curto nunca deixou a mulher masculinizada. Inventaram a expressão machista “corte joãozinho” para ridicularizar. Não se fala mais assim, é antiquado. “Pixie”, no inglês, significa delicadeza. Tanto que o nome da fada Sininho, de “Peter Pan”, é Pixie — ensina.

Palavra de especialista:

Mix de inspirações

Neandro conta que, além de Audrey Tautou, tomou como referências a atriz americana Mia Farrow, na juventude, e a cantora Elis Regina na elaboração do corte de Vanessa: “É um cabelo anos 60/70, que remete ao começo do mullet, porque tem um comprimento maior nas laterais e na parte de trás. Em Londres, está no auge!”.

Querer é poder

O hairstylist das estrelas afirma que a expressão “não pode” não entra em seu vocabulário: “Estudo a personalidade da pessoa e o que ela quer refletir. Tudo pode, dentro de uma adaptação. Estilo é coisa de alma. Se a gordinha e a senhora ostentarem o pixie de uma maneira empoderada, vão ficar lindas”, afirma ele, sem medo.