Letícia Sabatella acusa TV Brasil de censura: 'Esse revanchismo demonstra medo ou covardia'

Giuliana de Toledo
Letícia Sabatella

SÃO PAULO - A notícia de que a exibição de um programa em sua homenagem foi cancelada pela TV Brasil pegou Letícia Sabatella de surpresa. A atriz conta ter descoberto o episódio por meio da nota publicada pelo colunista Ancelmo Gois, do GLOBO, na terça-feira (28).

A edição do programa “Recordar é viver” que trataria da sua carreira estava agendada para o último sábado, às 20h30, no canal público de televisão, mas, um dia antes, segundo a apuração do colunista, houve uma ordem para que fosse trocada da grade. Assim, acabou indo ao ar uma edição sobre o humorista Agildo Ribeiro (1932-2018).

Procurada por meio de sua assessoria de imprensa, a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), responsável pela TV Brasil, disse que não vai comentar o caso.

— Nem sabia desta homenagem, para falar a verdade — contou Sabatella ao GLOBO na tarde desta quarta-feira.

Ela conta não ter gravado material específico para a atração.

O cancelamento pode ser entendido como censura, segundo avalia.

— Posso crer fortemente que sim [é censura] — afirmou. — A vida de artistas e ativistas tem se tornado cada dia mais difícil e exigido bastante resistência de nossa parte.

Sabatella tem posicionamento político abertamente contrário ao governo Bolsonaro. Em 17 de abril, por exemplo, publicou no Instagram uma selfie com um filtro que aplica no rosto uma máscara em que se lê “Fora Bolsonaro”. Em 25 de março, postou imagem com a frase “Não há álcool gel que limpe as mãos de quem digitou 17”, em referência ao número de Bolsonaro na eleição. Questionada sobre a relação entre suas manifestações e o cancelamento do programa, ela afirma ver “revanchismo”.

— Parece inadmissível para mim reduzirmos toda uma trajetória cidadã, artística e humanista a um posicionamento que é variável de acordo com ciclos de eleitorais. Acho estranha essa estigmatização diante de situações que pedem por nosso olhar mais humano, em prol do coletivo. Esse revanchismo demonstra muito medo ou covardia e, por fim, a fragilidade de quem o exerce.

Reação

Nesta quarta-feira, um post no Instagram do coletivo 342Artes, liderado pela produtora Paula Lavigne, condenou a remoção da homenagem a Sabatella da grade da TV Brasil. “A democracia segue sendo desrespeitada por Bolsonaro. Vamos nos calar? Toda nossa solidariedade à Letícia”, diz a mensagem do grupo.

A publicação foi compartilhada por nomes como Caetano Veloso, Daniela Mercury, Paula Burlamaqui, Dira Paes, Alinne Moraes, Letícia Colin, Bianca Bin, Nathalia Dill, Juliana Alves e Laila Garin.

Em sua conta, Sabatella não fez uma menção direta ao caso, mas, na terça, publicou uma foto sua e, na legenda, descreveu um “colapso”.

“Ontem houve um colapso de pensamentos na minha cabeça. Chorava sem parar e não conseguia definir um motivo. Quando me perguntavam por quê, desfilavam na minha mente mil fatos e eu não conseguia escolher o que responder. Paralisada a 1000 por hora. Hoje, estou complacente com minha parada no vácuo. O que vem de pequeno é passo a passo apreciado. Tempo parada pra observar o vento, a folha, o sol na pele. Sonolência. Mente precisando de descanso. Nada de descaso. Descanso e mais nada. Respeito”, escreveu.

À pergunta de se reagiria de mais formas ao episódio de cancelamento, respondeu:

— Ainda não sei se exige uma reação individual ou se é algo para reagirmos coletivamente como sociedade em defesa do Estado Democrático de Direito.